Fernando Azevêdo
Repórter
O litro do leite longa vida ficou 3,66% mais caro na
cesta básica de Natal de abril, segundo levantamento do Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O preço médio
do item passou de R$ 6,28 em março para R$ 6,51. O impacto já é sentido no
orçamento doméstico, mas representantes do setor dizem que os preços de venda
ainda seguem os mesmos e apontam custos elevados.
O leite longa vida teve inflação de 13,85% no Brasil
em maio, liderando as pressões inflacionárias ao consumidor no Índice Geral de
Preços - 10, divulgado pela Fundação Getulio Vargas nessa segunda(18). O
índice, no entanto, não analisa os preços do RN.
O economista Ediran Teixeira, técnico do Dieese no
RN, explica que o IGP é um índice médio de inflação. Na análise da cesta básica
de alimentos, apesar de haver altas, elas não foram tão expressivas: o preço do
leite em Natal cresceu apenas 1,40% na variação de 12 meses, 3,66% no mês de
abril e 6,03% no quadrimestre.
“Em relação ao ano anterior, os preços do leite
ainda estão abaixo do ritmo da inflação. É preciso esperar o mês de maio correr
para avaliar melhor essa variação. Todos os outros produtos de alimentação
estão sendo afetados, a partir de abril, pela mudança de preços dos
combustíveis”, diz Teixeira.
O economista lembra que, em 2025, o produtor de
carne bovina no Brasil abateu matrizes – vacas que reproduzem – devido a uma
pressão internacional por mais carne no mercado, o que diminuiu a produção de
leite. Além disso, “neste momento estamos na entressafra da produção de leite”.
Já o economista Ricardo Valério, superintendente do
Conselho Regional de Economia do RN (Corecon/RN), pontua que o aumento tem
relação com a alta dos combustíveis e dos fertilizantes, no contexto do
conflito no Oriente Médio.
A situação é “agravada ainda pela dependência do
Brasil do fornecimento de 85% dos fertilizantes da região do conflito, o que
está encarecendo os produtos industriais e, notadamente, os primários, como o
leite longa vida”.
Com o abate de matrizes, o rebanho deve se recuperar
lentamente, diz Valério. “Os preços devem continuar em alta, e a situação pode
ser agravada diante dos prenúncios e dos efeitos do El Niño, que pode provocar
estiagem em algumas regiões”.
A aposentada Vilma Alves e a artesã Eliane Tomaz
afirmam que o preço do leite está “um absurdo”. Elas estavam fazendo compras em
Natal nesta terça-feira (19) e disseram notar também preços maiores em derivados
do leite, como manteiga e queijo.
“Todo dia tem que ter leite [na nossa casa]. Mas o
leite, infelizmente, está muito caro”, afirma Eliane, que consome o item e seus
derivados com muita frequência por gosto e por questões de saúde. “Em alguns
supermercados tem uma promoçãozinha, mas na maioria está muito caro”, completa
Vilma.
Erivam do Carmo, presidente da Federação dos
Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do RN
(Fetarn), diz que “o produtor, principalmente o agricultor familiar, não tem
sentido essa alta de preço quando se trata da comercialização do leite para
queijeiras e lacticínios”.
Segundo ele, pelo contrário, o produtor notou um
aumento significativo dos insumos, como a ração concentrada, a torta de
algodão, o farelo de milho e a soja. Outro fator que tem aumentado os custos da
produção é a mão de obra, que em algumas cidades potiguares é escassa para uma
jornada intensa no campo.
Já a Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do
RN (Faern) aponta que a alta resulta de fatores conjunturais e estruturais,
como a recomposição de preços ao produtor. “No meio rural, os custos seguem
elevados, sobretudo com alimentação animal, energia elétrica, combustíveis e
logística. Na atividade leiteira, a energia tem peso importante, enquanto os
combustíveis impactam tanto o transporte da produção quanto os insumos
utilizados nas propriedades”, frisa a entidade.

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