Quando a "taxa das blusinhas" foi criada,
em agosto de 2024, o governo federal garantiu que a cobrança de 20% sobre
compras internacionais de até US$ 50 não teria impacto significativo nos
preços. Era só uma questão de "justiça tributária", de
"isonomia" com o comércio nacional. Nada que pesasse no bolso do
consumidor.
Pois bem: nesta quarta-feira (13), bastou a Medida
Provisória zerar o imposto para que especialistas cravassem que os preços vão
cair cerca de 17% de forma quase imediata. Se a taxa não encarecia, como sua
ausência barateia? As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo. Ou o
governo mentiu lá atrás, ou está vendendo ilusão agora. Em qualquer cenário,
alguém está sendo enganado.
E os números tornam a contradição ainda mais
constrangedora. O governo projetava arrecadar R$ 700 milhões com a medida em
2024. Arrecadou R$ 8,66 bilhões no acumulado desde então, mais de 12 vezes a
estimativa original. Um tributo que supostamente "não fazia
diferença" movimentou bilhões dos bolsos dos consumidores direto para os
cofres federais. A própria CNI reconheceu que a taxa ajudou a preservar 135 mil
empregos e manteve R$ 20 bilhões circulando na economia. Então fazia diferença,
sim. E muita.
O que se revela é um padrão que já deveria ser
familiar ao brasileiro: a narrativa muda conforme a conveniência política. Em
2024, quando o governo precisava de receita, a taxa "não pesava". Em
2026, com as urnas se aproximando, a mesma taxa vira um sacrifício heroico do
presidente em nome do povo. O ICMS estadual de 17% a 20% continua lá, intocado,
e ninguém fala dele. Mas os 20% federais, aqueles que eram inofensivos, agora
representam a fronteira entre o caro e o barato.
O consumidor brasileiro pagou R$ 8,66 bilhões para
reaprender uma velha lição: em Brasília, o preço das coisas sobe por
"justiça" e desce por "bondade". Mas a conta, como sempre,
é do mesmo de sempre.

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