Toda campanha do PT tem uma propaganda mostrando um
jovem que se tornou o primeiro de sua família a ter um diploma universitário. O
slogan “o filho da faxineira virou doutor” exemplifica os impressionantes
resultados dos programas educacionais de expansão do ensino técnico, ProUni,
política de cotas e Fies, criados nos governos Lula 1 e 2. Uma pesquisa
exclusiva Genial/Quaest indica, no entanto, que o governo Lula 3 está pagando
pela desilusão dos doutores filhos de faxineira.
De acordo com a pesquisa, eleitores que ascenderam
estão mais insatisfeitos com o governo Lula e com os rumos do país do que
aqueles que não tiveram avanço.
— É o paradoxo da mobilidade. Esses eleitores
tiveram uma forte ascensão de status, porém não vivenciaram ascensão de classe.
Eles se beneficiaram de importantes iniciativas governamentais, mas, ao
contrário do que imaginavam, não acharam um lugar no mercado de trabalho. Eles
investiram tempo e energia para ter um diploma, mas isso não lhes garantiu um
salário melhor, apenas frustração. É verdade que o filho da faxineira virou
doutor, mas ele não conseguiu emprego na sua área e sobrevive como motorista de
aplicativo — afirma Felipe Nunes, diretor da Quaest.
A pesquisa usou uma premissa conhecida da
sociologia, a de que a diferença de educação entre a mãe e seu filho e filha é
um indicador de mobilidade social. As escolaridades de mães e filhos foram
convertidas para uma escala numérica de 1 (analfabeto) a 10 (ensino superior),
na qual o avanço entre as duas gerações seria considerado alto se fosse igual
ou maior que 5, médio de 3 a 4, nulo de zero a 2 e negativo se o filho ou filha
tivesse estudado menos que a mãe.
A pesquisa mostrou que 22% dos eleitores tiveram
mobilidade alta; 24% média, 47% nula e 7% negativa. Isso significa que 46% dos
eleitores superaram a escolaridade de suas mães — dado revelador tanto da
desigualdade na educação como do esforço das novas gerações em estudar.
Compare as opiniões dos que tiveram mobilidade alta,
os mais beneficiados pelas políticas públicas dos governos anteriores, com
aqueles que não tiveram ascensão:
Situação
econômica é pior que esperava
Mobilidade alta: 47%
Sem mobilidade: 33%
Situação
econômica é melhor que esperava
Mobilidade alta: 51%
Sem mobilidade: 66%
Políticas
públicas do governo não lhe ajudam em nada
Mobilidade alta: 34%
Sem mobilidade: 33%
Políticas
públicas do governo ajudam tanto a você quanto a maioria da população
Mobilidade alta: 29%
Sem mobilidade: 33%
Avaliação
negativa do governo Lula
Mobilidade alta: 49%
Sem mobilidade: 41%
Avaliação
positiva do governo Lula
Mobilidade alta: 23%
Sem mobilidade: 34%
O
Brasil está na direção certa
Mobilidade alta: 29%
Sem mobilidade: 38%
O
Brasil está na direção errada
Mobilidade alta: 65%
Sem mobilidade: 55%
Os resultados desta pesquisa são muito ruins para a
campanha de reeleição de Lula, porque indicam que a atual crise de popularidade
não é um problema de comunicação, um mau humor momentâneo com os preços nos
supermercados ou um problema que pode ser resolvido com mais gasto público. A
decepção desta geração é estrutural.
O PT viveu um momento comparável em 2013, quando um
protesto da esquerda radical contra o aumento do preço das passagens de ônibus
se transformou em gigantescas manifestações populares. À época, o marqueteiro
João Santana concluiu que o brasileiro médio estava satisfeito com os bens de
consumo que havia comprado nos governos do PT, mas irritado com os serviços
básicos de saúde, transporte e educação. Havia um evidente sentimento de fadiga
de material depois de três governos petistas, e a solução de Santana foi fazer
a própria campanha da reeleição de Dilma Rousseff se dizer a favor das
mudanças. O slogan da campanha foi “mais mudanças, mais futuro”. Deu certo
inicialmente, Dilma conseguiu se reeleger, mas a frustração popular foi
canalizada para a campanha do impeachment.
Thomas Traumann - O Globo

Nenhum comentário:
Postar um comentário