Suspensão de R$ 38,8 bi no NE (2025-26) acende
alerta no setor renovável: cortes de geração, falta de transmissão, insegurança
regulatória e poucos incentivos travam avanços. No RN, há risco de perda de
competitividade, fuga de capital, demissões e adiamento de projetos, embora
empresas ainda demonstrem interesse na região.
A suspensão de quase R$ 39 bilhões em investimentos
na região Nordeste anunciada por entidades do setor de energias renováveis
preocupa representantes do segmento no Rio Grande do Norte e no país. De acordo
com fontes ouvidas pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a situação explicita
problemas estruturais no sistema elétrico brasileiro, como os cortes forçados
de geração de energia (curtailment), a carência de linhas de transmissão para
escoar a energia limpa produzida, além da falta de incentivos fiscais e de
segurança jurídica. Apesar do cenário incerto, empresas com ativos no RN
garantem que há interesse em manter os investimentos em solo potiguar.
A suspensão de investimentos foi anunciada em
reportagem do Valor Econômico do último dia 18 de abril. As entidades do setor
confirmaram a suspensão de R$ 38,8 bilhões em investimentos, entre 2025 e 2026.
Além disso, as empresas avaliam deixar o Nordeste para migrar para outras
regiões.
O presidente da Associação Potiguar de Energias
Renováveis (Aper), Williman Oliveira, aponta que a desistência das empresas
representa um cenário negativo para o RN e pode estar atrelada a múltiplos
fatores. É o caso da infraestrutura insuficiente de linhas de transmissão para
o escoamento da energia produzida na região, além da falta de incentivos
fiscais para o crescimento da demanda por fontes renováveis no Estado.
“[Acredito que isso aconteceu] muito pela dificuldade
quando [as empresas] têm que bloquear a sua geração, gerando um prejuízo
incalculável para quem acreditou que teria investimentos em expansão de rede e
incentivos para o consumo local”, aponta Williman Oliveira.
O diretor-técnico regulatório da Associação
Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Francisco Silva, observa que a
entidade não dispõe de dados relativos ao cancelamento de investimentos em 2025
e 2026 no RN e Nordeste. Ele reconhece, contudo, que ao longo dos últimos anos
a suspensão de investimentos pode ser considerável e tem como principal
motivador o curtailment.
“Sabemos que todo o mercado que investe em energia
eólica e solar fotovoltaica centralizada está reavaliando os seus
investimentos. Hoje esses geradores estão ficando com uma incerteza que
inviabiliza a possibilidade de construir novos empreendimentos. Então dá para
dizer que todos os geradores estão verificando qual é o melhor momento para se
investir novamente nesse mercado, tendo em vista o tamanho da incerteza,
especialmente por conta dos cortes de geração”, aponta o diretor.
O presidente do Centro de Estratégias em Recursos
Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, alerta para o risco de fuga de
investimentos. “Nos últimos meses, vimos um processo preocupante de demissões
no setor. Muitas dessas companhias, que atuam em diversos segmentos, estão
recalculando suas rotas para minimizar riscos. Nesse contexto, o Nordeste é a
região que mais perde, apesar de possuir o maior potencial natural de geração
eólica e solar do país. O risco real é que assistamos a uma migração de
investimentos estratégicos que deveriam estar consolidando o Nordeste como o
centro da nossa transição energética”, destaca.
Para o presidente da Comissão Temática de Energias
Renováveis da Fiern (Coere), Sérgio Azevedo, a suspensão dos investimentos
anunciados pelo setor é um sinal claro de perda de competitividade de uma
região que sempre teve vocação natural para liderar a transição energética
brasileira.
“O problema é que vocação, sozinha, não basta. É
preciso ambiente regulatório adequado, capacidade de resposta do sistema,
previsibilidade e visão estratégica”, aponta Sérgio Azevedo, acrescentando que
para o RN, o impacto potencial é relevante: “adiamento ou cancelamento de novos
parques, migração de capital para mercados com menor risco sistêmico, perda de
competitividade da cadeia produtiva local, redução da geração de empregos,
enfraquecimento da arrecadação e perda de protagonismo de um estado que reúne
condições naturais excepcionais para produzir energia limpa. Em outras
palavras, o RN corre o risco de deixar de capturar a próxima onda de
investimentos justamente por não conseguir transformar sua vocação em segurança
para o investidor”, declara.
Setor aponta problemas em marco
regulatório
O debate sobre a insegurança para investir no setor
de energias renováveis se une às discussões sobre regulamentações para
assegurar maior confiança aos investidores no setor. Em novembro do ano
passado, o governo sancionou a Lei nº 15.269, com o objetivo de modernizar o
marco regulatório do setor elétrico e estabelecer novas diretrizes para ampliar
a segurança energética, a acessibilidade tarifária e introduzir mecanismos mais
eficientes de operação do sistema.
Francisco Silva, da ABEEólica, aponta que a
legislação federal passou a atribuir uma série de responsabilidades para os
geradores de energias renováveis, prejudicando potenciais projetos e outros já
em operação ou desenvolvimento. Ele observa, no entanto, que o marco também
traz aspectos positivos do ponto de vista dos cortes de geração.
“A lei trouxe a necessidade de um endereçamento para
os cortes de geração, pois qualificou quais os cortes que o legislador entende
que os geradores têm ou não direito a receber. Agora nós estamos na expectativa
do Ministério de Minas e Energia regulamentar esses cortes para que consigamos
voltar a ter previsibilidade sobre os investimentos”, aponta.
O presidente da Coere/Fiern, Sérgio Azevedo, afirma
que a Lei nº 15.269/2025 foi um avanço importante, pois moderniza o marco
regulatório do setor elétrico, cria bases legais para o armazenamento de
energia e abre caminho para sua regulamentação e expansão no país. No entanto,
na avaliação dele, é preciso que haja uma regulamentação célere e eficaz para
transformar a diretriz legal em mercado real.
“Além disso, é fundamental que a implementação dos
incentivos ao armazenamento prestigie a lógica da adicionalidade, ou seja, que
estimule capacidade nova, flexibilidade nova e, sempre que possível, soluções
conectadas à expansão de novos parques eólicos e solares”, afirma.
“O Brasil precisa evitar soluções que apenas
redistribuam energia já existente no sistema sem atacar a raiz do problema. O
armazenamento deve ser tratado como instrumento para destravar investimento
novo, reduzir o curtailment e recompor a atratividade das regiões mais
afetadas, especialmente o Nordeste”, acrescenta Azevedo.
Empresas mantêm interesse no RN e
Nordeste
Apesar das incertezas que rondam o setor de
renováveis, empresas que atuam no RN reiteram que mantêm o interesse em seguir no
Nordeste. Em resposta à reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a Casa dos Ventos
destacou que segue na contramão do mercado. A empresa tinha sido apontada pela
reportagem do Valor Econômico como uma das desistentes, mas a informação foi
corrigida pelo veículo.
“A Casa dos Ventos mantém um pipeline robusto e
segue investindo em ativos para geração de energia renovável tanto no Nordeste
quanto em outras geografias. São investimentos que impulsionam não apenas a
expansão da companhia, mas também a retomada do setor, movimentando a cadeia
produtiva e gerando empregos nessas regiões”, disse.
A Vestas, que atualmente conta com o Parque Esquina
do Vento em desenvolvimento no RN, também reiterou o interesse em manter ativos
no Estado e no Nordeste. “Temos uma presença sólida no Brasil, com ativos
relevantes como a fábrica de alta tecnologia no Ceará, o hub regional de
serviços no Rio Grande do Norte e uma cadeia de suprimentos robusta, com mais
de 100 fornecedores”, destacou
A companhia reconhece, contudo, que o setor enfrenta
desafios estruturais e precisa evoluir destravar novos investimentos. “Apesar
de o Brasil contar com um dos melhores recursos eólicos do mundo —
especialmente no Nordeste — há um risco real de perda de protagonismo, caso
ajustes relevantes não sejam realizados. Nesse contexto, a Vestas mantém um
diálogo contínuo e construtivo com o governo brasileiro, com uma postura
propositiva para contribuir com a superação dos desafios atuais do setor”,
apontou.

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