terça-feira, 21 de abril de 2026

Suspensão de R$ 38,8 bilhões em investimentos acende alerta para renováveis no Nordeste

 


Suspensão de R$ 38,8 bi no NE (2025-26) acende alerta no setor renovável: cortes de geração, falta de transmissão, insegurança regulatória e poucos incentivos travam avanços. No RN, há risco de perda de competitividade, fuga de capital, demissões e adiamento de projetos, embora empresas ainda demonstrem interesse na região.

A suspensão de quase R$ 39 bilhões em investimentos na região Nordeste anunciada por entidades do setor de energias renováveis preocupa representantes do segmento no Rio Grande do Norte e no país. De acordo com fontes ouvidas pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a situação explicita problemas estruturais no sistema elétrico brasileiro, como os cortes forçados de geração de energia (curtailment), a carência de linhas de transmissão para escoar a energia limpa produzida, além da falta de incentivos fiscais e de segurança jurídica. Apesar do cenário incerto, empresas com ativos no RN garantem que há interesse em manter os investimentos em solo potiguar.

A suspensão de investimentos foi anunciada em reportagem do Valor Econômico do último dia 18 de abril. As entidades do setor confirmaram a suspensão de R$ 38,8 bilhões em investimentos, entre 2025 e 2026. Além disso, as empresas avaliam deixar o Nordeste para migrar para outras regiões.

O presidente da Associação Potiguar de Energias Renováveis (Aper), Williman Oliveira, aponta que a desistência das empresas representa um cenário negativo para o RN e pode estar atrelada a múltiplos fatores. É o caso da infraestrutura insuficiente de linhas de transmissão para o escoamento da energia produzida na região, além da falta de incentivos fiscais para o crescimento da demanda por fontes renováveis no Estado.

“[Acredito que isso aconteceu] muito pela dificuldade quando [as empresas] têm que bloquear a sua geração, gerando um prejuízo incalculável para quem acreditou que teria investimentos em expansão de rede e incentivos para o consumo local”, aponta Williman Oliveira.

O diretor-técnico regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Francisco Silva, observa que a entidade não dispõe de dados relativos ao cancelamento de investimentos em 2025 e 2026 no RN e Nordeste. Ele reconhece, contudo, que ao longo dos últimos anos a suspensão de investimentos pode ser considerável e tem como principal motivador o curtailment.

“Sabemos que todo o mercado que investe em energia eólica e solar fotovoltaica centralizada está reavaliando os seus investimentos. Hoje esses geradores estão ficando com uma incerteza que inviabiliza a possibilidade de construir novos empreendimentos. Então dá para dizer que todos os geradores estão verificando qual é o melhor momento para se investir novamente nesse mercado, tendo em vista o tamanho da incerteza, especialmente por conta dos cortes de geração”, aponta o diretor.

O presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, alerta para o risco de fuga de investimentos. “Nos últimos meses, vimos um processo preocupante de demissões no setor. Muitas dessas companhias, que atuam em diversos segmentos, estão recalculando suas rotas para minimizar riscos. Nesse contexto, o Nordeste é a região que mais perde, apesar de possuir o maior potencial natural de geração eólica e solar do país. O risco real é que assistamos a uma migração de investimentos estratégicos que deveriam estar consolidando o Nordeste como o centro da nossa transição energética”, destaca.

Para o presidente da Comissão Temática de Energias Renováveis da Fiern (Coere), Sérgio Azevedo, a suspensão dos investimentos anunciados pelo setor é um sinal claro de perda de competitividade de uma região que sempre teve vocação natural para liderar a transição energética brasileira.

“O problema é que vocação, sozinha, não basta. É preciso ambiente regulatório adequado, capacidade de resposta do sistema, previsibilidade e visão estratégica”, aponta Sérgio Azevedo, acrescentando que para o RN, o impacto potencial é relevante: “adiamento ou cancelamento de novos parques, migração de capital para mercados com menor risco sistêmico, perda de competitividade da cadeia produtiva local, redução da geração de empregos, enfraquecimento da arrecadação e perda de protagonismo de um estado que reúne condições naturais excepcionais para produzir energia limpa. Em outras palavras, o RN corre o risco de deixar de capturar a próxima onda de investimentos justamente por não conseguir transformar sua vocação em segurança para o investidor”, declara.

Setor aponta problemas em marco regulatório

O debate sobre a insegurança para investir no setor de energias renováveis se une às discussões sobre regulamentações para assegurar maior confiança aos investidores no setor. Em novembro do ano passado, o governo sancionou a Lei nº 15.269, com o objetivo de modernizar o marco regulatório do setor elétrico e estabelecer novas diretrizes para ampliar a segurança energética, a acessibilidade tarifária e introduzir mecanismos mais eficientes de operação do sistema.

Francisco Silva, da ABEEólica, aponta que a legislação federal passou a atribuir uma série de responsabilidades para os geradores de energias renováveis, prejudicando potenciais projetos e outros já em operação ou desenvolvimento. Ele observa, no entanto, que o marco também traz aspectos positivos do ponto de vista dos cortes de geração.

“A lei trouxe a necessidade de um endereçamento para os cortes de geração, pois qualificou quais os cortes que o legislador entende que os geradores têm ou não direito a receber. Agora nós estamos na expectativa do Ministério de Minas e Energia regulamentar esses cortes para que consigamos voltar a ter previsibilidade sobre os investimentos”, aponta.

O presidente da Coere/Fiern, Sérgio Azevedo, afirma que a Lei nº 15.269/2025 foi um avanço importante, pois moderniza o marco regulatório do setor elétrico, cria bases legais para o armazenamento de energia e abre caminho para sua regulamentação e expansão no país. No entanto, na avaliação dele, é preciso que haja uma regulamentação célere e eficaz para transformar a diretriz legal em mercado real.

“Além disso, é fundamental que a implementação dos incentivos ao armazenamento prestigie a lógica da adicionalidade, ou seja, que estimule capacidade nova, flexibilidade nova e, sempre que possível, soluções conectadas à expansão de novos parques eólicos e solares”, afirma.

“O Brasil precisa evitar soluções que apenas redistribuam energia já existente no sistema sem atacar a raiz do problema. O armazenamento deve ser tratado como instrumento para destravar investimento novo, reduzir o curtailment e recompor a atratividade das regiões mais afetadas, especialmente o Nordeste”, acrescenta Azevedo.

Empresas mantêm interesse no RN e Nordeste

Apesar das incertezas que rondam o setor de renováveis, empresas que atuam no RN reiteram que mantêm o interesse em seguir no Nordeste. Em resposta à reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a Casa dos Ventos destacou que segue na contramão do mercado. A empresa tinha sido apontada pela reportagem do Valor Econômico como uma das desistentes, mas a informação foi corrigida pelo veículo.

“A Casa dos Ventos mantém um pipeline robusto e segue investindo em ativos para geração de energia renovável tanto no Nordeste quanto em outras geografias. São investimentos que impulsionam não apenas a expansão da companhia, mas também a retomada do setor, movimentando a cadeia produtiva e gerando empregos nessas regiões”, disse.

A Vestas, que atualmente conta com o Parque Esquina do Vento em desenvolvimento no RN, também reiterou o interesse em manter ativos no Estado e no Nordeste. “Temos uma presença sólida no Brasil, com ativos relevantes como a fábrica de alta tecnologia no Ceará, o hub regional de serviços no Rio Grande do Norte e uma cadeia de suprimentos robusta, com mais de 100 fornecedores”, destacou

A companhia reconhece, contudo, que o setor enfrenta desafios estruturais e precisa evoluir destravar novos investimentos. “Apesar de o Brasil contar com um dos melhores recursos eólicos do mundo — especialmente no Nordeste — há um risco real de perda de protagonismo, caso ajustes relevantes não sejam realizados. Nesse contexto, a Vestas mantém um diálogo contínuo e construtivo com o governo brasileiro, com uma postura propositiva para contribuir com a superação dos desafios atuais do setor”, apontou.

 

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