Há poucos dias, duas personalidades do chamado campo
progressista, a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca
Borges, e o presidente da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé,
expuseram sem rodeios o que muitos na esquerda têm receio de admitir
publicamente: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu o pulso da
juventude brasileira. E não por falhas de comunicação, mas por sua
incompreensão de que os anseios dos jovens mudaram, assim como o Brasil e o
mundo.
Ao Estadão, Bianca Borges reconheceu que falta a
Lula “se conectar com o sentimento das pessoas”. Como cometeu a heresia de
apontar falhas do demiurgo, a presidente da UNE foi tão atacada por partidários
do presidente que, logo depois, sentiu-se compelida a se retratar. Só essa
reação mostra como os ditos progressistas e o governo Lula, em particular, são
infensos à autocrítica, o que ajuda a explicar por que o petista está tão
distante do “sentimento” dos eleitores mais jovens.
Já Preto Zezé, em entrevista ao jornal O Globo,
diagnosticou uma “crise de criatividade” de Lula para estabelecer laços com os
jovens brasileiros. Sua observação de que o acesso à universidade, ao consumo e
ao emprego formal já não basta para satisfazer os anseios das novas gerações
foi ainda mais reveladora. Durante seus primeiros mandatos, Lula construiu uma
agenda baseada na ampliação de oportunidades. À época, de fato, havia uma
demanda reprimida, digamos assim. Hoje, porém, a realidade é outra.
A geração Z – ou “geração .com”, como a designou o
cientista político Felipe Nunes, da Quaest – cresceu em um mundo marcado pela
onipresença das mídias sociais e dos aplicativos, pela fluidez das relações de
trabalho e por uma redefinição do que vem a ser sucesso pessoal. Para muitos
jovens dessa geração, o diploma universitário deixou de ser percebido como
garantia de prestígio e aumento de renda. Não poucos passaram a questionar o
valor do emprego formal, regido pela CLT, em seus propósitos de vida. A
promessa de estabilidade, outrora o grande objetivo da maioria da população ao
tempo de Lula como líder sindical, perdeu boa parte de seu apelo diante de
transformações sociais cada vez mais dinâmicas.
É nesse cenário que a visão de Lula sobre os jovens
expõe todo o seu anacronismo, quando não preconceito. Medidas pontuais, como o
alívio de dívidas do Fies ou programas de transferência de renda, têm alcance
limitado diante de demandas bem mais complexas, que dizem respeito a propósito,
autonomia e perspectiva real de mobilidade. Como bem lembrou Preto Zezé, o
jovem que ingressou no ensino superior nos governos petistas não experimentou
ascensão social. “Há uma frustração com tudo”, disse o presidente da Cufa.
Não se trata aqui de desprezar políticas públicas,
consolidadas malgrado seus equívocos, mas de reconhecer que elas, isoladamente,
já não bastam para inspirar esperança nos jovens brasileiros.
Os números confirmam a alienação de Lula. Diferentes
pesquisas indicam que o presidente tem, entre os jovens de 16 a 24 anos, um
nível de apoio significativamente inferior ao registrado entre os mais velhos.
Nas primeiras eleições do petista, dava-se o exato oposto: a juventude figurava
entre seus eleitores mais sólidos. Hoje, esse vínculo se perdeu.
É tentador atribuir a mudança à habilidade da
direita nas mídias sociais. De fato, há uma evidente discrepância de desempenho
no ambiente digital em relação à esquerda. Mas reduzir a questão à mera disputa
técnica é ignorar que o avanço do discurso dito “conservador” entre os jovens
decorre também de sua capacidade de oferecer mais protagonismo individual. Para
a esquerda, sobretudo para os petistas, os jovens são tratados como um público
monolítico, disposto a aceitar políticas igualmente uniformes.
O problema de Lula, portanto, não é “não ter
celular”, como apontou a presidente da UNE. É não compreender, em profundidade,
as transformações que moldaram a juventude brasileira contemporânea. Ações de
aproximação baseadas em comportamentos constrangedores ou adaptações
superficiais de linguagem nas mídias sociais soam não só artificiais, como
ridículas, pois não têm substância. Lula não vê que os jovens sabem quando
estão diante de um engodo.
Opinião do Estadão

Nenhum comentário:
Postar um comentário