segunda-feira, 27 de abril de 2026

Flávio Bolsonaro é investigado por ligar Lula a Maduro. Dez dias depois, o próprio PT liga Lula a Maduro

 


No dia 3 de janeiro de 2026, horas após a captura de Nicolás Maduro por forças militares norte-americanas em Caracas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou no X uma imagem associando o presidente Lula ao ditador venezuelano. No post, escreveu: "Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas."

A reação institucional foi rápida e pesada. O Ministério da Justiça solicitou apuração. A Polícia Federal encaminhou representação ao STF. A Procuradoria-Geral da República emitiu parecer favorável à investigação, afirmando que Flávio atribuiu "de maneira pública e vexatória" fatos criminosos ao presidente. No dia 13 de abril, o ministro Alexandre de Moraes determinou a abertura de inquérito por calúnia, com prazo de 60 dias para a PF concluir as diligências. A mensagem do Estado foi clara: associar Lula a Maduro é crime. A defesa de Flávio classificou o inquérito como "tentativa de cercear a liberdade de expressão e o livre exercício do mandato parlamentar".

Onze dias depois, no dia 24 de abril, o próprio Partido dos Trabalhadores fez o que a Justiça disse que Flávio Bolsonaro não poderia fazer: associou Lula a Maduro. Na abertura do 8º Congresso Nacional do PT, em Brasília, um banner oficial foi exibido em um dos palcos do evento com a foto de Nicolás Maduro e Cilia Flores e a frase "Los Queremos de Vuelta". O material não foi obra de militante avulso. Foi produzido e exposto pela Secretaria de Relações Internacionais do partido, chefiada pelo senador Humberto Costa (PE), dentro de um "ato de solidariedade internacional pela paz". A cerimônia contou com a presença do parlamentar venezuelano Saúl Ortega, do embaixador de Cuba e de representantes da Palestina e da Liga Árabe. Militantes ainda abriram uma bandeira da Venezuela no meio da plateia.

A contradição é gritante e não precisa de interpretação sofisticada. Quando Flávio Bolsonaro publicou um post em rede social ligando Lula a Maduro, o aparato estatal se movimentou: Ministério da Justiça, Polícia Federal, PGR e STF se coordenaram para abrir um inquérito criminal por calúnia. Quando o partido do próprio presidente exibiu, em congresso oficial, com organização institucional, um banner defendendo a volta do mesmo Maduro, chamando-o de "presidente da Venezuela", o silêncio foi absoluto. Nenhum órgão se manifestou. Nenhum inquérito foi cogitado. Nenhuma autoridade questionou se o ato configurava apologia a um líder preso por narcotráfico internacional.

O ponto não é se Flávio Bolsonaro errou ou acertou no que disse. O ponto é a disparidade de tratamento. Se ligar Lula a Maduro é calúnia quando feito pela oposição, o que é quando o próprio PT pendura um banner de Maduro no palco de seu congresso, a metros de onde se discute o plano de governo de Lula para 2026? Se a associação entre os dois nomes é falsa e vexatória, por que o partido do presidente a fez voluntariamente, com fotógrafo, palco e convidados internacionais?

A postagem de Flávio Bolsonaro em janeiro dizia: "Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo." O banner do PT em abril dizia: "Los Queremos de Vuelta." As duas frases foram escritas em contextos diferentes, com intenções diferentes, por atores diferentes. Mas ambas fazem exatamente a mesma coisa: colocam Lula e Maduro na mesma moldura. A diferença é que uma gerou inquérito no STF. A outra gerou aplausos no congresso do partido.

 Flávio Bolsonaro responde por calúnia com pena que pode ser agravada por se tratar de ofensa ao presidente da República em ambiente digital. A PGR considerou a publicação "falsa e vexatória". A PF identificou "indícios concretos de atuação criminosa". Enquanto isso, o banner "Los Queremos de Vuelta" segue sem qualquer tipo de questionamento judicial, policial ou ministerial. Se a Justiça quer ser levada a sério, precisa explicar por que a mesma associação é crime quando parte da oposição e ato de solidariedade quando parte da situação. Sem essa explicação, o que resta não é Justiça. É dois pesos e duas medidas.

 

 

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