O presidente do Banco Central (BC), Gabriel
Galípolo, apresentou-se ao debate sobre o caso do Banco Master com uma virtude
cada vez mais rara em Brasília: a disposição de se limitar aos fatos. Amparado
em auditorias e sindicâncias internas, afirmou à CPI do Crime Organizado que
não há evidências de responsabilidade de seu antecessor, Roberto Campos Neto,
no escândalo do Master. Não houve conjecturas, ilações, tampouco concessões ao
ambiente político já contaminado por interesses e narrativas. Houve,
simplesmente, a exposição do que as investigações permitem concluir.
Mas o depoimento de Galípolo mal havia terminado e o
presidente do BC, que está no cargo por nomeação do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, já estava na mira de petistas e assessores no Palácio do Planalto. O
vice-líder do governo na Câmara, deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), não deixou
por menos: “Gabriel Galípolo escolheu o caminho de tentar blindar Roberto
Campos Neto”. Para o comissariado petista, pouco importou a menção à apuração
interna. O crime de lesa-pátria era outro: o presidente do BC não se comportara
como agente político de Lula e de seu projeto de reeleição, cujo roteiro inclui
converter Roberto Campos Neto em inimigo do Brasil. Segundo a narrativa dos
capas-pretas do partido, o ex-presidente do BC, indicado ao cargo por Jair
Bolsonaro, seria o responsável pelas facilidades que teriam permitido ao Master
praticar suas fraudes escandalosas.
Em vez de reconhecerem a solidez da manifestação de
Galípolo, os sabujos de Lula passaram a questioná-lo, como se dele se esperasse
algo diverso de um diagnóstico baseado em evidências. O ponto central, contudo,
permanece inalterado: não há materialidade, até aqui, que sustente a
responsabilização de Campos Neto. Insistir em outra direção, sem base factual,
é apenas servir aos propósitos eleitorais de Lula.
O caso demonstra mais uma vez o absoluto desprezo do
PT pelas instituições republicanas quando estas não atuam a serviço de seu
projeto de poder. Desde sempre, os petistas esperavam que um indicado de Lula
ao Banco Central, chamado pelo presidente de “menino de ouro”, convertesse a
autarquia em puxadinho do comitê eleitoral da campanha do presidente à
reeleição – seja sendo camarada com a taxa de juros, seja atuando para
vilanizar seu antecessor no cargo e, por extensão, Jair Bolsonaro. O PT detesta
órgãos da administração pública que não se curvam a seus interesses,
particularmente quando um desses órgãos é presidido por alguém que Lula só
colocou lá para isso.
O padrão se repete em outras áreas. Na Petrobras,
decisões vêm sendo contaminadas pela política, como se observa na gestão dos
efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis. Ali
também, a partir de cálculos eleitorais, ataca-se a lógica empresarial e a
governança de uma empresa de capital misto, comprometendo previsibilidade,
confiança e eficiência. Para Lula e o PT, pouco importa: instituições de Estado
e servidores públicos devem servir a estratégias de curto prazo do partido e de
seu presidente.
Por esse motivo, é digno de aplauso o comportamento
de Gabriel Galípolo, que merece todo o apoio dos brasileiros que prezam os
valores republicanos. Não costuma ser fácil a vida de quem, sob a administração
do PT, decide trabalhar pelos interesses do Estado, e não os do partido. Isso é
particularmente importante no Banco Central, cuja autonomia foi concebida,
entre outras coisas, para impedir que a agenda eleitoral do governante
contamine decisões sensíveis.
Um BC visto como subserviente ao governo gera
imprevisibilidade e insegurança no mercado, o que costuma afugentar
investimentos. Um BC que, além disso, se permita parecer engajado em uma
campanha eleitoral perde toda sua autoridade. Assim, faz muito bem o sr.
Galípolo ao deixar claro que não permitirá que a instituição sob sua direção
seja capturada pelo PT. Que ele tenha força para continuar assim.
Opinião do Estadão

Nenhum comentário:
Postar um comentário