Mesmo com o desempenho recente de Flávio Bolsonaro,
no fundo, o cenário da eleição presidencial é estável, demonstram seguidas
pesquisas de vários institutos. É essa estabilidade e o uso de modelos estatísticos
que levam respeitadas agências de análise de risco (como a Eurásia, por
exemplo) a dizer que Lula tem 60% de chances de ganhar.
Mas modelos estatísticos têm célebre dificuldade em
captar movimentos subterrâneos e correntes estruturais, ainda que pesquisas
acusem tendências e sofram oscilações. E a grande corrente está trabalhando
contra os planos de reeleição de Lula.
É o que explica o fato do enorme esforço de
marketing e bondades colocados em prática pelo governo não trazerem até aqui os
resultados pretendidos. A imagem é forte: quem nada contra a corrente se
esforça em dobro e, se tiver muita sorte, fica no mesmo lugar.
Essa grande corrente se compõe de dois elementos
principais. O primeiro é político em sentido bem amplo e vem sendo descrito
(inclusive em sistemas políticos europeus e na vizinhança) como “sentimento
antissistema”. Por óbvio, prejudica o incumbente, não importa o nome dele,
partido ou país.
No Brasil esse primeiro fator é reforçado pelo
cansaço do material Lula. Muita coisa mudou, menos ele. O antigo encantador de
serpentes virou um personagem enfadonho.
O segundo componente da grande corrente contrária é
claramente de natureza sociológica. Tem a ver com modificações profundas no
mercado de trabalho (resultado de inovações tecnológicas), com a religião na
formação de voto (o PT nunca soube lidar com isso) e o deslocamento de regiões
dinâmicas da economia para outras áreas (simplificando: o arco de produção da
agroindústria).
Chegou-se ao ponto no qual deveria estar claro para
os estrategistas de Lula (parece ser apenas seu homem de marketing) que não há
bala de prata para enfrentar situações desse tipo. Ou que seja apenas “questão
de tempo” até que bondades eleitoreiras se traduzam em melhoria significativa
nas pesquisas.
A alta volatilidade política, trazida por dois
grandes escândalos, tem sido fator negativo para a reeleição. Ela aprofundou a
crise institucional na qual o Planalto está longe, muito longe, de surgir como
qualquer fator de equilíbrio ou estabilidade. Ao contrário: o abraço com o STF
tem no momento as feições de um abraço de afogados.
Lula está derrotado? Não. Falta muito tempo ainda
para as eleições e seus adversários não têm exibido grande habilidade política.
Mas os dados atuais sugerem que uma vitória seria uma surpresa.
William Waack - Estadão

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