Os dados do levantamento semanal de preços da
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) revelam um
fenômeno que contraria a percepção mais imediata do consumidor: entre as
semanas de 22-28 de fevereiro e de 1-7 de março de 2026, os postos de
combustíveis do Rio Grande do Norte repassaram aos preços finais apenas uma
fração dos aumentos registrados nas refinarias que abastecem o estado. Enquanto
os reajustes nas refinarias acumulavam altas de até R$ 1,00 por litro no
diesel, o preço médio do produto na bomba subiu, no mesmo período, apenas R$
0,06 por litro.
O levantamento da ANP para a semana de 1 a 7 de
março — portanto, anterior aos novos reajustes de 10 e 12 de março — mostra que
a gasolina comum passou de R$ 6,58 para R$ 6,61 (alta de R$ 0,03 por litro), o
Óleo Diesel de R$ 6,33 para R$ 6,39 (R$ 0,06) e o Diesel S-10 de R$ 6,26 para
R$ 6,35 (R$ 0,09). O etanol hidratado subiu R$ 0,04, e o GLP (botijão de 13 kg)
acumulou R$ 0,45 de aumento.
Os números são modestos quando confrontados com o
que saiu das refinarias no mesmo intervalo. Em 26 de fevereiro, a Brava Energia
elevou o preço da Gasolina A em R$ 0,0750 por litro e o Diesel A S-500 em R$
0,0350 — um reajuste que, considerando as proporções obrigatórias de mistura
(70% para gasolina; 85% para diesel), implicava impacto misturado de R$ 0,0637
e R$ 0,0245 por litro, respectivamente. Na prática, a bomba subiu menos do que
o esperado.
Em 10 de março, a Acelen elevou a Gasolina A em R$
0,2173 por litro na Refinaria de Mataripe. Dois dias depois, em 12 de março, a
Brava Energia aplicou o segundo reajuste do mês na Refinaria Clara Camarão —
desta vez, de R$ 0,3000 na Gasolina A e de expressivos R$ 1,00 por litro no
Diesel S-500. Na mesma data, a Acelen também anunciou novo aumento: R$ 0,2263
por litro na gasolina e R$ 0,8145 no diesel.
A sobreposição de dois reajustes simultâneos — Brava
e Acelen, no mesmo dia 12 de março — representa uma pressão inédita no ciclo
recente. Os impactos acumulados dos reajustes das refinarias para a gasolina
comum podem superar R$ 0,35 por litro na bomba, e para o diesel, ultrapassar R$
0,85 por litro, quando os distribuidores e revendedores processarem os novos
preços. O próximo levantamento da ANP, referente à semana de 8 a 14 de março,
deverá capturar essas elevações.
A diferença entre o aumento nas refinarias e o
repasse ao consumidor, verificada no levantamento de 1-7 de março, é
parcialmente explicada pela dinâmica de estoques e contratos entre
distribuidoras e postos revendedores. Na prática, o produto que estava na bomba
naquela semana havia sido adquirido ainda nos preços anteriores ao reajuste de
26 de fevereiro — ou poucos dias depois. Esse intervalo cria uma janela em que
os postos operam com o custo mais baixo, repassando o aumento ao consumidor de
forma gradual, à medida que os estoques antigos se esgotam.
Esse comportamento, embora tecnicamente esperado,
costuma ser invisível para o consumidor, que percebe apenas os aumentos
nominais nos preços da bomba, sem a referência de quanto o insumo subiu na
origem. No caso do RN, essa assimetria informacional é ampliada pela ausência
da Petrobras: ao contrário de estados abastecidos pela estatal — que pratica
uma política de preços com menor volatilidade de curto prazo —, o mercado
potiguar é integralmente dependente de refinarias privadas cujos reajustes seguem
cotações do mercado internacional.
O Rio Grande do Norte é, em sua maioria, abastecido
pela Refinaria Clara Camarão, em Guamaré, operada pela Brava Energia — única
refinaria localizada em território potiguar —, e pela Refinaria de Mataripe, no
município baiano de São Francisco do Conde, operada pela Acelen. A ausência da
Petrobras retira do mercado estadual o mecanismo de amortecimento que a estatal
exerce em outras regiões, onde eventuais atrasos ou moderações nos reajustes
funcionam como um colchão para distribuidores e consumidores finais.
A concentração em dois agentes privados — e a
coincidência de seus reajustes na mesma data — reduz a margem de manobra dos
distribuidores e revendedores para negociar condições ou atrasar repasses.
“Quando as duas refinarias sobem ao mesmo tempo, a pressão sobre a cadeia é
imediata”, resume a lógica operacional do setor.

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