Felipe Salustino
Repórter
O Rio Grande do Norte registrou queda nos índices de
gravidez na adolescência entre janeiro e agosto de 2025 no comparativo com o
mesmo recorte de 2024. Os dados são da Organização Nacional de Acreditação
(ONA), com base nas informações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde. Eles
apontam que, dentro do período analisado no ano passado, foram 2.555 nascidos
vivos de adolescentes com idades entre 15 e 19 anos, o que representa uma queda
de 4,5% no comparativo com o acumulado dos meses de janeiro a agosto de 2024,
com 2.676 nascidos vivos de mães nessa faixa etária.
As informações sobre todo o ano de 2025 ainda não
foram disponibilizadas pelo Ministério da Saúde. Para a pediatra Mariana
Grigoletto, mesmo com a redução no recorte, os números seguem altos. Ela chama
atenção para o fato de que uma gestação na adolescência está relacionada a um
maior risco de mortalidade materna, além de chances mais elevadas de anomalias
congênitas, complicações no parto, asfixia e paralisia cerebral. Segundo a
especialista, a gravidez nessa fase da vida também está relacionada a uma maior
incidência de intercorrências clínicas, como aborto, diabetes gestacional,
parto prematuro e depressão pós-parto.
“Além dos impactos à saúde, a gravidez na
adolescência pode comprometer a trajetória educacional das jovens, favorecendo
a interrupção dos estudos e dificultando a inserção no mercado de trabalho, com
reflexos diretos nas condições sociais e econômicas dessas famílias”, destaca a
médica, que é membro da ONA, uma entidade não governamental responsável pelo
desenvolvimento e gestão de padrões brasileiros de qualidade e segurança em
saúde.
Outros fatores frequentemente associados à gravidez
precoce incluem a ausência ou interrupção da amamentação, a falta de
corresponsabilização do pai biológico ou parceiro, a escassez de rede de apoio,
o uso de álcool e outras drogas, situações de violência intrafamiliar e, em
alguns casos, a rejeição por parte da própria família. A ginecologista Maria da
Guia de Medeiros Garcia avalia que a gravidez na adolescência representa um
desafio para a saúde pública, sendo mais comum no contexto de baixa
escolaridade, vulnerabilidade socioeconômica, início de vida sexual precoce,
além da falta de uso de contraceptivos associada à história familiar de gestação
precoce.
“A falta de acesso e o uso inconstante de métodos
contraceptivos, somada à naturalização da maternidade cedo e, por vezes, à
violência sexual, impulsiona as altas taxas de natalidade nessa faixa etária.
Diante do alarmante número de gestação na adolescência, as campanhas de
prevenção e o acesso à informação ainda não são suficientes para atingir toda a
população necessária”, discorre a médica, que atua na Maternidade Escola
Januário Cicco (MEJC), unidade ligada à rede Ebserh.
Segundo ela, a prevenção passa por uma combinação
que envolve diálogo familiar, ações educativas em escolas, centros de
convivência, unidades de saúde, bem como o uso consistente de métodos
contraceptivos eficazes, com destaque para os de longa duração, como
dispositivo intrauterino (DIU) e implantes associados à camisinha para proteção
dupla contra Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
“Não é possível a prevenção da gestação na
adolescência sem família, escola, comunidade, roda de amigos e a saúde pública
debruçada sobre o tema diariamente. Apenas campanhas jamais fornecerão proteção
suficiente. E quando falamos em prevenção, certamente os meninos ou os homens
têm papel fundamental de corresponsabilidade. Eles devem saber que a
paternidade na adolescência aumenta a ocorrência de abandono escolar, de
empregos mal remunerados ou desemprego, de problemas familiares, de conflitos
no relacionamento do casal e, muitas vezes, de abandono da companheira e do
filho”, aponta a ginecologista.
Saúde mental
A maternidade na adolescência pode impactar
diretamente a autoestima e o bem-estar emocional das jovens mães, trazendo
desafios tanto para elas quanto para os recém-nascidos. Sentimentos como
insegurança, medo e ansiedade são comuns nesse período e reforçam a importância
de uma escuta ativa e qualificada, do cuidado contínuo e do apoio emocional
nessa fase. Mariana Carvalho, psicóloga da MEJC, em Natal, afirma que, do ponto
de vista psíquico, o impacto pode ser bastante significativo.
“A gravidez na adolescência ocorre em um momento em que o sujeito ainda está em
processo de constituição da própria identidade, o que pode gerar dificuldades
na separação entre o lugar de filha e o de mãe, bem como de filho e o de pai,
dificultando a construção de um novo lugar. No curto prazo, testemunhamos manifestações
de angústia e sofrimento psíquico e, no longo prazo, podem surgir sentimentos
de aprisionamento, interrupção de projetos subjetivos e dificuldades na
construção dessa nova identidade”, esclarece a psicóloga.
Segundo ela, como forma de prevenção, no sentido da
Psicologia, é recomendado oportunizar espaços de escuta, onde o adolescente
possa simbolizar angústias, dúvidas e conflitos em relação ao corpo, ao desejo
e ao futuro. “A escola pode funcionar como um espaço privilegiado de mediação
simbólica. A família tem um papel central na transmissão de limites e de
referências, e os serviços de saúde devem atuar de forma integrada ao oferecer
um cuidado interdisciplinar e acolhedor para os adolescentes e suas famílias.
No âmbito das políticas públicas, a gravidez na adolescência demanda respostas
intersetoriais”, frisa a especialista.
A pediatra Mariana Grigoletto destaca que o Sistema
Único de Saúde assegura o direito à assistência psicológica às mulheres antes,
durante e após o parto, conforme previsto na legislação vigente. “Durante a
gestação e após o nascimento do bebê, é natural que surjam emoções como
ansiedade ou tristeza. A legislação garante que gestantes, parturientes e
puérperas tenham acesso à assistência psicológica no SUS mediante avaliação do
profissional de saúde, já no pré-natal, para que esse acompanhamento ocorra de
forma acolhedora e adequada às necessidades de cada mulher”, pontua.
Queda de 5,9% em todo o País
No Brasil, entre janeiro e agosto de 2025, foram
contabilizados 168.713 nascimentos de bebês filhos de mães com idades entre 15
e 19 anos. Em 2024, no mesmo período, foram 179.428 nascimentos. No comparativo
entre os dois recortes, a redução foi de quase 6%. Levando em conta apenas a
região Nordeste, a Bahia liderou os números no ano passado, com 12.681
nascimentos de bebês de mães adolescentes (15 a 19 anos), enquanto Sergipe
registrou o menor número (2.333).
O RN ocupou o oitavo lugar dentre os estados
nordestinos em número de gravidez na adolescência entre janeiro e agosto de
2025. No Brasil, São Paulo apresentou os maiores registros, com 23.631
nascimentos, enquanto Roraima contabilizou menos casos (1.301). Por região, os
dados foram os seguintes: Nordeste (55.606), Sudeste (50.016), Norte (29.390),
Sul (18.137) e Centro-Oeste (15.564). Um ponto essencial nas discussões sobre o
tema é a responsabilidade compartilhada na prevenção da gravidez e das
infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Segundo Mariana Grigoletto, esse cuidado ainda recai
majoritariamente sobre as meninas, o que precisa ser revisto. “A gravidez
acontece dentro de uma relação. Embora as adolescentes enfrentem grande parte
das consequências, é indispensável envolver também os meninos nessa conversa,
discutindo seu papel e responsabilidade”, explica a médica.
Muitos jovens acreditam que o uso isolado da pílula
anticoncepcional ou do preservativo é suficiente para evitar uma gravidez, mas
a orientação médica vai além.
A chamada prevenção dupla — ou dupla proteção —
consiste no uso simultâneo do preservativo (masculino ou feminino) e de um
método contraceptivo reversível de longa duração, os LARCs, como o DIU
(hormonal ou de cobre) e os implantes subdérmicos.
Esses métodos se destacam pela alta eficácia e
praticidade, já que não exigem uso diário e podem durar de três a dez anos, com
retorno da fertilidade após a remoção. “Toda segurança é importante nessa fase
da vida, tanto para evitar uma gravidez não planejada quanto para prevenir
infecções sexualmente transmissíveis”, finaliza a pediatra.

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