Ao adentrar os salões do Parlamento de braço dado
com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e ao cumprimentar efusivamente a
ministra Gleisi Hoffmann e o líder do governo no Congresso, senador Randolfe
Rodrigues (PT-AP), o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP),
exibia um clima ameno. Na mesa, risonho até no Hino Nacional, expunha um
momento que nem de longe espelhava como terminou 2025 na relação entre os
Poderes, em especial com o Executivo. Mas bastou discursar para deixar claro
que a disposição para conversar não o faria arredar da disposição para
enfrentar a “voluntariedade” de outros Poderes em eventuais avanços sobre o Parlamento.
Os recados no discurso de abertura do ano do
Legislativo foram direcionados para o Supremo Tribunal Federal, presente na
cerimônia por meio do presidente da Corte, o ministro Edson Fachin, e para o
governo Lula, de quem Rui Costa era ali o representante.
E a mensagem de Alcolumbre já podia ser lida desde o
momento dos cumprimentos, quando elogiou o discurso de Fachin na abertura do
ano do Judiciário, no qual o ministro reconheceu “o protagonismo do sistema
político nas funções que são dele”.
Ao tratar da importância do ano eleitoral em que a
democracia pode mostrar sua força, maturidade e vitalidade, Alcolumbre pediu
paz, não apenas entre as forças políticas que pensam diferente, mas entre
“entre as institucionais nacionais, paz entre os Poderes da República”. Para
depois dar seu recado mais contundente aos vizinhos da Praça dos Três Poderes.
“Defender a paz nunca foi e nunca será sinônimo de
omissão. Nosso desejo de paz não significa que tenhamos medo de luta. Nossa
luta e sempre será em defesa de todos os brasileiros. Nossa luta é pelo Estado
de Direito. Nossa luta é pelas prerrogativas parlamentares e pela autoridade do
Congresso Nacional brasileiro”, enfatizou, dizendo que “dessas batalhas”,
jamais abrirá mão.
Após jurar que buscará “não ampliar conflitos, mas
ajudar a resolver” e promover “consensos políticos”, ele voltou ao ponto de
maior stress na relação com o STF, por diversas vezes acusado pelo Parlamento
de legislar e com quem o Congresso trava uma batalha em meio à ofensiva
judicial sobre a falta de transparência nas emendas. “Cada Poder tem a sua
função. Cada poder tem o seu papel”, disse, para reafirmar “as escolhas do
Poder Legislativo”. “Que seja respeito recíproco”.
Antes dos recados ao STF, Alcolumbre também mirou no
governo federal, após um ano em que a defesa das pautas da gestão petista gerou
críticas ácidas ao Parlamento em peças publicitárias, nas redes de deputados e
senadores de equerda e, por vezes, até na de ministros do governo.
Ao exaltar a aprovação de medidas enviadas pelo
Executivo ao Congresso, em especial a isenção do imposto de renda para quem
ganha até R$ 5 mil, Alcolumbre deixou claro que não aceitará apenas chancelar
as medidas para que os louros fiquem apenas no Palácio do Planalto. “Essas
conquistas não pertencem a um governo, elas também não pertencem a um partido”.
Após sorrisos e abraços, ao abrir os trabalhos de
2026, Alcolumbre exibiu-se disposto a fumar o cachimbo da paz, mas não sem
mostrar-se pintado para a guerra.
Ricardo Corrêa - Estadão

Nenhum comentário:
Postar um comentário