O PT decidiu oferecer ao Brasil mais uma amostra de
seu peculiar conceito de democracia. Em contribuição enviada ao Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) no âmbito do debate sobre as regras das eleições de
2026, o partido pediu a retirada da norma que autoriza o impulsionamento, nas
redes sociais, de conteúdos críticos ao desempenho de governos durante a
pré-campanha. Trata-se do período que antecede formalmente a campanha
eleitoral, no qual ainda não é permitido pedir votos, mas em que partidos,
pré-candidatos e a sociedade em geral debatem políticas públicas, avaliam
gestões, apresentam diagnósticos e testam narrativas.
Em termos claros, o ideal petista de liberdade
política admite debate, pluralismo e circulação de ideias – desde que, ora
vejam, ninguém fale mal do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A
proposta é reveladora. Não se trata de aperfeiçoar regras para garantir isonomia,
transparência ou integridade do processo eleitoral, objetivos legítimos e
necessários de qualquer democracia representativa. Trata-se, isso sim, de
restringir o alcance de críticas políticas justamente quando o eleitor começa a
confrontar promessas com resultados, comparar trajetórias administrativas e
formar juízos sobre continuidades e alternativas de poder.
O argumento do PT sustenta-se na ideia de que o
impulsionamento de críticas poderia desequilibrar a disputa e ferir a igualdade
entre pré-candidatos. É uma inversão lógica notável. A própria jurisprudência
eleitoral tem se esforçado para diferenciar crítica política legítima de
propaganda antecipada, reconhecendo que o debate público não se confunde com
pedido de voto. Ainda assim, quem ocupa o poder já dispõe, por definição, de
vantagens estruturais consideráveis: visibilidade permanente, palanque
institucional, acesso cotidiano aos meios de comunicação e capacidade de pautar
o debate público com anúncios, programas e atos oficiais, além da recorrente
confusão entre comunicação de governo e propaganda política. Blindar a gestão
contra críticas impulsionadas é converter a assimetria natural do poder em
privilégio político.
Mais grave ainda é o pressuposto heterônomo e
dirigista embutido na proposta. Parte-se do princípio de que críticas a
governos, quando amplificadas por meios digitais, seriam ilegítimas ou
perigosas, como se o eleitor fosse incapaz de discernir argumentos, avaliar
dados ou distinguir crítica política de desinformação deliberada. Eis aí o
velho cacoete paternalista lulopetista, que desconfia da sociedade, relativiza
a autonomia do cidadão e prefere substituí-la por um discricionarismo
regulatório exercido a partir de tribunais, resoluções administrativas e órgãos
de controle.
A excrescência torna-se ainda mais evidente quando
se considera o alcance geral da regra pretendida. A vedação ao impulsionamento
de críticas não atingiria apenas o governo federal, hoje comandado por Lula,
mas também governos estaduais e municipais. O mesmo PT que pede proteção contra
críticas à gestão federal poderia, em tese, ver-se impedido de impulsionar
conteúdos críticos ao governo paulista de Tarcísio de Freitas ou a políticas
públicas conduzidas por outros partidos. A lógica é inconsistente e oportunista,
revelando mais um cálculo político circunstancial do que uma preocupação
institucional.
Não é por acaso que esse impulso censor surge num
momento em que o partido volta a flertar com concepções iliberais de regulação
do discurso político. Sob o pretexto de combater abusos, “discursos de ódio” ou
supostos desequilíbrios, o que se observa é a tentativa reiterada de estreitar
o espaço do dissenso e de submeter o debate democrático a filtros definidos por
quem está no poder ou por instituições pressionadas por ele.
O Brasil já pagou caro por soluções autoritárias
travestidas de boas intenções. A democracia só se fortalece com mais
transparência, mais confronto de ideias e mais confiança no eleitor. Cabe ao
TSE resistir a propostas que transformam a legislação eleitoral em instrumento
de proteção governamental ou convertam a Justiça Eleitoral em bedel do debate
público.
Liberdade política com ressalvas, pluralismo com
exceções e debate público vigiado não são atributos de uma democracia madura.
São, no máximo, o retrato fiel da democracia eleitoral petista.
Opinião do Estadão

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