Cláudio Oliveira e Felipe Salustino
Repórteres
A entrada em operação do novo sistema de esgotamento
sanitário da Zona Norte de Natal permitirá a cobrança da tarifa de esgoto nos
bairros que passarão a ser atendidos, o que pode elevar o valor total da conta
de água em até 70%. Hoje, a maior parte da região não paga pelo serviço porque
ainda não dispõe de rede de coleta e tratamento. Com o início da operação da
Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Jaguaribe, a tarifa passará a ser
incluída nas faturas das áreas atendidas. Atualmente, a zona Norte tem cerca de
3% de esgotamento sanitário, índice que deve chegar a 95%, gradativamente, com
a operação da ETE Jaguaribe, segundo a Caern.
Segundo a Caern e a Arsban, o aumento está amparado
no Marco Legal do Saneamento e em normas nacionais e locais, que estabelecem a
cobrança pela disponibilidade do serviço de coleta e tratamento de esgoto, após
comunicação prévia aos usuários. Nos sistemas convencionais, esse percentual é
de 70% do que a unidade consome. Já nos sistemas condominiais, a cobrança é
reduzida para 35%. Na prática, isso significa que um consumidor que hoje paga a
tarifa básica de R$ 51 pode passar a pagar, após cumpridos todos os prazos
legais, cerca de R$ 86, caso esteja em área atendida por sistema convencional.
“A afirmação de que a conta aumentará até 70% só é
correta quando se trata de sistema convencional; para áreas atendidas por
sistema condominial, o aumento será inferior”, esclareceu a Agência Reguladora
de Saneamento Básico de Natal (Arsban).
A ligação do imóvel à rede coletora é obrigatória
onde houver disponibilidade do serviço. Mesmo assim, a cobrança da taxa pode
ocorrer ainda que o morador não tenha realizado a ligação interna, desde que o
sistema esteja disponível e os procedimentos legais tenham sido cumpridos. “Em
regra, a cobrança está associada à disponibilidade do serviço na área
atendida”, destacou a Arsban, ao explicar que a adequação interna do imóvel
costuma ser de responsabilidade do proprietário, enquanto a interligação
externa segue padrões definidos pela Caern.
Esse entendimento está alinhado às normas nacionais.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) aprovou, em novembro
passado, norma que define regras para a estrutura tarifária do setor e
estabelece critérios para cobrança pela disponibilidade dos serviços de água e
esgoto, mesmo quando o imóvel ainda não está conectado à rede. O objetivo é
estimular a conexão e acelerar a universalização do saneamento.
De acordo com a Arsban, os consumidores serão
informados com antecedência mínima de 90 dias, por meio de notificações
diretas, ações educativas e divulgação institucional.
“Para os imóveis do setor efetivamente colocado em
operação, a cobrança do serviço de esgotamento sanitário passa a ser realizada
após 90 dias do início da operação correspondente”, informou a ARSBAN. O prazo
é destinado à comunicação e orientação dos consumidores.
A Caern também orienta que os moradores não façam a
ligação por conta própria antes do comunicado oficial, já que o sistema ainda
passa por fase de testes e estabilização. “O morador só deve realizar a ligação
após receber este aviso formal. A conexão antecipada pode causar retornos de
esgoto para dentro dos imóveis e problemas técnicos no sistema”, alertou a
companhia.
O início dessa nova fase está ligado à operação da
Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Professor Cícero Onofre de Andrade Neto,
a ETE Jaguaribe, que começa a receber esgoto da Zona Norte após obter, no
último dia 30, a chamada Autorização de Testes Operacionais (ATO), emitida pelo
Idema/RN.
Caern não detalha impacto
A Caern não confirmou o número de unidades
consumidoras que serão impactadas pelo acréscimo na conta de água e nem deu
detalhes sobre prazos. “Ainda é muito cedo para falar em cobrança, pois todo
este novo sistema de tratamento, das ligações que ainda nem foram feitas até o
funcionamento da própria ETE, ainda está iniciando sua fase de testes”, disse em
nota.
Além disso, ressaltou a necessidade de se levantar
quantas moradias estariam dentro do programa de Tarifa Social. “E o principal:
aguardar alguma definição sobre pelo menos dois ou três projetos de lei que
tramitam no Congresso Nacional e que, em suas proposituras, vedam qualquer
cobrança extra pelo esgotamento sanitário.”
Atualmente, Natal possui 91.828 economias, que são
unidades de consumo faturadas, já atendidas por rede de esgotamento sanitário
em funcionamento e que, portanto, já pagam o percentual referente à coleta e
tratamento do esgoto. Desse total, apenas 6.035 estão localizadas na Zona
Norte, onde a cobertura histórica sempre foi baixa.
Com a entrada em operação do sistema na região, esse
número tende a crescer de forma significativa. A Caern estima 71 mil novas
ligações de esgoto na ZN, o que deve elevar a cobertura total do serviço na
capital de 41% para cerca de 75%, em um avanço considerado decisivo para o
cumprimento das metas do Marco Legal do Saneamento.
Rede de esgoto será ampliada na Zona
Norte
Considerada o “coração” do novo sistema de
esgotamento da Zona Norte, a ETE Jaguaribe recebeu Autorização de Testes
Operacionais com validade de 180 dias, permitindo o início da recepção de
esgoto. A estação utiliza tratamento terciário, com processos avançados como
reatores UASB, tanques de aeração com biodiscos, remoção de fósforo por
flotação, desinfecção por raios ultravioleta, além de controle de odores e
queima de biogás.
O investimento específico na nova estação de
tratamento de esgotos de Natal foi de R$ 280 milhões, sendo R$ 148 milhões
investidos pelo Governo do RN, por meio da Caern, dentro de um montante que
ultrapassa R$ 1 bilhão aplicado no esgotamento sanitário da capital.
Segundo a Caern, a entrada em operação do sistema da
Zona Norte representa “um momento de virada histórica para a infraestrutura de
Natal” para a Natal. “Mais do que uma adequação à legislação federal, estamos
acelerando a universalização dos serviços para garantir que o cidadão de Natal
tenha acesso ao que há de mais moderno em infraestrutura”, afirmou a companhia,
destacando o alinhamento com as metas do Marco Legal do Saneamento.
A companhia diz que, com a ETE Jaguaribe em operação
e a previsão de entrega da ETE Jundiaí-Guarapes para 2027, Natal se posiciona
como uma das capitais mais avançadas no cumprimento das metas nacionais de
universalização. “O projeto promove dignidade, saúde pública, valorização
imobiliária e preservação ambiental para milhares de famílias natalenses”,
informou.
Conta também aumentou com a ETE do Baldo
Por se tratar de exigência legal, o impacto da
cobrança do esgotamento sanitário não é novidade para Natal. Em 2010, com a
entrada em operação da Estação de Tratamento de Esgotos do Baldo, na zona Leste
da cidade, moradores de 18 bairros passaram a receber o serviço e tiveram as
contas reajustadas em até 70%, conforme o sistema adotado. Na época, o índice
de coleta e tratamento de esgotos na capital subiu de 33% para 61%,
beneficiando cerca de 350 mil pessoas. Esse percentual de cobertura não
acompanhou o crescimento da cidade e atualmente está em 41%.
Outra situação recente ocorreu no fim de 2023, em
São José de Mipibu, na Região Metropolitana de Natal. Com o início da operação
do sistema de esgotamento em bairros como Centro, Quebra Fuzil e Bairro Novo,
cerca de 1.500 imóveis foram comunicados para realizar a ligação. A taxa de
esgoto passou a ser cobrada em 70% do valor da água consumida, conforme o art.
45 da Lei Federal nº 14.026/2020, que torna obrigatória a conexão à rede
pública quando o serviço está disponível. As orientações quanto ao método de
interligação na cidade foram descritas em folders entregues pela Caern nas
residências, juntamente com o comunicado.
Histórico
Em dezembro de 2016, a Caern anunciou o início das
obras da ETE Jaguaribe para janeiro de 2017, com orçamento inicial estimado em
cerca de R$ 86 milhões. Já as obras da rede de coleta foram implantadas em
paralelo.
A construção enfrentou mudanças de projeto exigidas
pelo órgão ambiental (Idema), o que impactou os prazos previstos inicialmente.
Ainda em 2017 o Ministério Público Estadual instaurou inquérito para saber se a
área era compatível e se não havia outra área. As obras foram suspensas em
abril daquele ano após denúncias e mobilização de moradores da Redinha, que
temem a contaminação do rio Potengi e eventual degradação de parte da Zona de
Proteção Ambiental 8.
Em agosto de 2020, as obras chegaram a 85% de
execução física com expectativa de conclusão para 2022 e capacidade projetada
em cinco módulos para atender até 600 mil habitantes. No ano seguinte, a
execução chegava a 96,5%, com planos de iniciar testes no primeiro semestre de
2024. O orçamento já chegava a R$ 259 milhões, sendo R$ 148 milhõesa da Caern e
do Governo do Estado. No final de 2024 foi confirmado que a estação entraria em
fase de testes com previsão de início de operações em janeiro de 2025. A
Autorização de Teste Operacionais, no entanto, só foi emitida pelo Idema no
final de janeiro de 2026 para início da operação em fevereiro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário