O Ministério Público Federal (MPF) abriu
procedimento para
investigar uma possível conexão do Brasil com a rede do criminoso sexual
condenado Jeffrey Epstein.
Um dos casos investigados que veio à tona, após a
divulgação dos milhões de novos documentos pelo governo americano nas últimas
semanas, envolve uma mulher de Natal.
Uma denúncia foi registrada no MPF do Rio Grande do
Norte, e caso passou a ser analisado pela Unidade Nacional de Enfrentamento do
Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC), em
Brasília.
O MPF não deu detalhes do caso e informou que as
investigações correm em sigilo, "dada a sensibilidade do tema e a
necessidade de proteção das vítimas".
"A UNTC acompanha a divulgação dos arquivos do
caso e está atenta aos fatos que envolvem cidadãos brasileiros ou que tenham
sido praticados no Brasil", informou o MPF.
A UNTC é a estrutura especializada do MPF que
centraliza todas as investigações e ações judiciais do país relacionadas a
tráfico internacional de pessoas e contrabando de migrantes, diante da
complexidade dos casos.
Denúncia foi feita ao MPF no RN
Uma
reportagem da BBC News Brasil mostrou que uma troca interna de ofícios teve
início depois de o procurador-chefe Gilberto Barroso de Carvalho Júnior
comunicar ter recebido informações "dando conta do aliciamento e envio de
mulher residente nos arredores de Natal/RN possivelmente para a prática de atos
sexuais com a pessoa de Jeffrey Epstein, nos EUA".
Datadas de 2011, as mensagens não confirmam se houve
aliciamento, nem revelam a idade da pessoa citada. Mas mostram o interesse de
Epstein em uma brasileira após ela ser apresentada por uma conhecida. Mostram
também que esta ponte no Brasil também tentou apresentá-lo a outras amigas.
Os diálogos detalham a organização para a emissão de
passaporte, o plano de levá-la aos EUA e pedidos explícitos de Epstein por fotos
em trajes de banho e lingerie.
Apresentação de mulher de Natal
Os milhões de novos documentos sobre Jeffrey Epstein
divulgados nas últimas semanas mostram que ele manteve relações pessoais com
modelos brasileiras, ajudou-as financeiramente e até pode tê-las empregado em
algum momento como assistentes. Há conversas datadas pelo menos desde 2006 nos
arquivos, antes de ele ter sido preso pela primeira vez.
A apuração da BBC News mostra que uma brasileira que
aparece com frequência nos arquivos mantinha uma relação de proximidade e
dependência financeira com Jeffrey Epstein.
Entre 2009 e 2013, as mensagens mostram que ela não
apenas solicitava recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos,
mas também apresentava outras mulheres ao bilionário.
O papel da brasileira na intermediação de contatos
consta em registros de janeiro de 2011, quando ela tratou da ida de uma jovem
de Natal para os Estados Unidos — é esse o caso que trata o MPF no procedimento
aberto.
Em uma mensagem, ela descreveu que a moça não falava
o idioma, nunca havia viajado e vinha de uma família simples, sugerindo que ela
viajasse no mesmo voo para facilitar o trajeto. A idade da jovem não é
mencionada nos registros.
Acompanhando o relato, a brasileira enviou fotos da
jovem e afirmou que Epstein iria "adorá-la". A resposta de Epstein
foi um pedido por mais imagens, especificando que deveriam ser de
"lingerie ou biquíni".
Embora o bilionário tenha escrito posteriormente que
a ajuda poderia ser "mal interpretada", a brasileira continuou a
sugerir o encontro, propondo que ocorresse em Paris e reforçando que a jovem
era o "tipo" dele.
Natal é mencionada também em outro contexto, quando
o agente de modelos Jean-Luc Brunel diz a Epstein que esteve na cidade, em
2010. Brunel era um conhecido parceiro de Epstein.
Brunel foi encontrado morto na prisão em Paris, na
França, em 2022. Estava detido desde o início de uma investigação formal, após
ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens com idades entre 15 e 18
anos na França. Ele negava as acusações.
O caso Epstein
O escândalo envolvendo Jeffrey Epstein tramitava há
anos na Justiça americana. As primeiras denúncias formais contra o bilionário
surgiram em 2005, quando a polícia de Palm Beach, na Flórida (EUA), o
investigou por abuso sexual de menores.
Na época, ele afirmou que os encontros foram
consensuais e que acreditava que as vítimas tinham 18 anos.
Segundo a acusação, o bilionário abusou de menores
ou recrutou garotas para atos sexuais entre 2002 e 2005. Em 2008, ele se
declarou culpado pelo crime de exploração de menores e firmou um acordo para
cumprir 13 meses de prisão e pagar indenizações às vítimas.
Em fevereiro de 2019, um juiz distrital da Flórida
considerou o acordo ilegal. Em julho do mesmo ano, Epstein foi preso e
formalmente acusado de abuso de menores e de operar uma rede de exploração
sexual.
Segundo a acusação, entre 2002 e 2005, Epstein
pagava centenas de dólares para que meninas fossem até seus imóveis e
realizassem atos sexuais. As jovens também eram incentivadas a recrutar outras
garotas com o mesmo objetivo.
Dezenas de mulheres acusaram Epstein de forçá-las a
prestar serviços sexuais a ele e a convidados em uma ilha particular no Caribe
e em casas que ele mantinha em Nova York, na Flórida e no Novo México.
De acordo com o governo dos EUA, o bilionário
explorou sexualmente mais de 250 meninas menores de idade.
À época, promotores federais defenderam que Epstein
deveria permanecer preso até o julgamento. Eles afirmaram que a “riqueza
exorbitante” do empresário, além da posse de aviões privados e dos laços
internacionais que mantinha, poderia facilitar uma fuga.
Epstein foi encontrado morto na prisão em agosto de
2019. A autópsia concluiu que ele tirou a própria vida. Dois dias antes de
morrer, o bilionário assinou um testamento deixando um patrimônio avaliado em
mais de US$ 577 milhões.
Após a morte do empresário, as acusações contra ele
foram retiradas. No entanto, procuradores afirmaram que poderiam
responsabilizar outras pessoas envolvidas no esquema. Advogados das vítimas
também prometeram buscar indenizações na Justiça.

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