O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria tentou
reaproximar o empresário mineiro Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, ainda antes de as investigações sobre o
Banco Master chegarem ao Supremo.
Depois de ter comprado a participação do
ministro no resort Tayayá, por meio de um fundo de investimentos, Vorcaro se
distanciou de Dias Toffoli. A relação entre os dois, até então, era descrita
como próxima. A participação de Toffoli, por meio da empresa Maridt
Participações S.A, foi vendida em setembro de 2021.
Fábio Faria se dispôs a fazer a ponte. Marcou um
encontro entre os dois fora das dependências do Supremo. Mas a conversa, em vez
de ajudar, esfriou de vez a relação. Vorcaro teria ficado incomodado com um
comentário de Toffoli envolvendo outro banqueiro.
Amigo íntimo de Vorcaro, Fábio Faria aparece
inúmeras vezes em conversas resgatadas pela Polícia Federal no celular do dono
do Master. Os dois tinham negócios em comum, e o ex-ministro das Comunicações
funcionava como uma espécie de elo entre Vorcaro e o meio político.
Em uma das mensagens encontradas pela PF e relatadas
nas 200 páginas que a corporação enviou ao Supremo nesta semana, Vorcaro
informa Fábio Faria que Toffoli poderia mudar o voto em um julgamento
envolvendo ações indenizatórias decorrentes do controle estatal de preços no
setor sucroalcooleiro nas décadas de 1980 e 1990. O caso refere-se à Usina
Alcídia, em Teodoro Sampaio (SP).
A coluna teve acesso às mensagens.
Fábio Faria pergunta a Vorcaro quem lhe repassou a
informação de que Toffoli votaria contra a usina. O banqueiro cita o advogado
Carlos Vieira Filho, especialista nesse tipo de causa. Ele é filho do
presidente da Caixa, Carlos Antônio Vieira Fernandes. Essa conversa foi no dia
13 de setembro de 2024.
Pouco antes, em 26 de agosto, Gilmar Mendes
apresentou um destaque para tirar o caso do “plenário virtual” do STF. O
julgamento começou de forma presencial, na Segunda Turma, no dia 17 de
setembro, dias após a conversa entre Vorcaro e Fábio Faria. Na ocasião, o
ministro Nunes Marques pediu vista (ou seja, pediu mais tempo para analisar o
tema). O ministro devolveu o processo pouco depois, e Segunda Turma concluiu o
julgamento em 1º de outubro de 2024.
Faria entra nessa história por ser amigo de Toffoli
e por seu escritório negociar esse tipo de ativo, que envolve bilhões de reais.
Se votar contra a usina era mesmo a intenção do
ministro, ele mudou de posição. O julgamento terminou com os votos de Edson
Fachin, Kassio Nunes Marques e Toffoli a favor da Usina Alcídia. Gilmar Mendes
e André Mendonça ficaram vencidos.
O resultado rendeu à usina R$ 1,5 bilhão a serem
pagos pela União, considerando valores atualizados pelo IPCA, do IBGE, mais
juros de 0,5% ao ano. Vorcaro não tem papéis da Usina Alcídia.
A desconfiança sobre o posicionamento de Toffoli
baseava-se no fato de o ministro, oito meses antes, ter votado contra os
interesses de outra empresa do ramo, a Raízen Energia, em um processo idêntico
ao da Usina Alcídia.
Neste último caso, Dias Toffoli entendeu que a
Raízen, hoje controlada pelo banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, não
tinha direito à indenização. A decisão fez André Esteves perder uma causa que
lhe renderia R$ 125,3 milhões em valores corrigidos.
Entre a discussão de um caso e outro, a Segunda
Turma não tratou do tema. Ou seja, Toffoli votou de um jeito em um caso e de
forma diferente em outro, idêntico. Ambos os casos já tinham tramitado por
instâncias inferiores.
Reunião no Supremo tratou de usinas
O assunto sobre os créditos das usinas foi tratado
na reunião entre os ministros do Supremo na quinta-feira (12/2). O
encontro resultou na saída de Toffoli da relatoria do caso Master. O ministro
foi cobrado a explicar as mensagens que envolvem seu voto no tema e que foram
consideradas pela PF como suspeitas de tráfico de influência.
Fábio Faria: tive relação com Vorcaro, mas não atuei
no STF
Em nota à coluna, Fábio Faria disse que conheceu
Vorcaro após deixar o cargo de ministro. Ele frisou que “nunca tratou com
nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal sobre processos judiciais, e nunca
foi responsável pelo relacionamento institucional de Daniel Vorcaro ou do Banco
Master”.
Leia abaixo a nota de Fábio Faria na
íntegra.
“Fábio Faria conheceu Daniel Vorcaro há
quase um ano após deixar a vida pública, enquanto trabalhava no Banco BTG
Pactual na função de Gerente Sênior de Relacionamento.
Teve relação pessoal com Vorcaro.
Não é advogado e nunca atuou como tal,
nem mesmo conhece o processo citado na matéria, bem como o mencionado advogado.
Nunca teve qualquer contrato ou mesmo contato com a citada usina.
O conteúdo das citadas mensagens diz
respeito a percepções sobre cenários envolvendo julgamento público. Faria nunca
tratou com nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal sobre processos
judiciais, e nunca foi responsável pelo relacionamento institucional de Daniel
Vorcaro ou do Banco Master.
Fábio Faria, após deixar a função
pública, se dedica, exclusivamente a atividades privadas, lícitas, legítimas,
balizadas pela sua aptidão e formação, em perfeita observância da legislação
vigente.
Fábio trabalha, atualmente, com consultoria
estratégica e análise de cenário institucional e como pessoa pública e
ex-ministro de Estado, mantém relações institucionais com representantes de
diversos setores da sociedade.
Por fim, reitera-se que não houve
pedido, tentativa de interlocução, intermediação, representação ou qualquer
medida concreta relacionada ao processo mencionado”.

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