Com as instalações das Comissões Permanentes da
Assembleia Legislativa, a partir de 24 de fevereiro, o deputado estadual Luiz
Eduardo (PL) disse que a bancada de oposição deve fechar questão na convocação
do secretário estadual da Fazenda, Carlos Xavier, para que explique os
recorrentes atrasos nos repasses de descontos salariais de servidores, oriundos
de empréstimos consignados em folha: “Já há um consenso de que eu serei o
presidente da Comissão de Finanças e Fiscalização, e, logo que esteja em
trabalho efetivo, colocarei em pauta essa questão da convocação do secretário
Cadu para dar explicações sobre os consignados”. O Sindicato dos Trabalhadores
do Serviço Público da Administração Direta do Estado do Rio Grande do Norte
(Sinsp-RN) estima dívida em R$ 450 milhões.
O deputado Luiz Eduardo faz coro com o requerimento
datado do dia 5 e já encaminhado nesse sentido pelo deputado estadual Gustavo
Carvalho (PL) ao presidente da Assembleia Legislativa, deputado Ezequiel
Ferreira (PSDB).
Gustavo Carvalho encontra-se viajando, mas informou
que depois do Carnaval “anunciará o posicionamento que adotará” em relação a
esses atrasos, vez que o parlamentar ainda sugeriu a criação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o que considera crime de apropriação
indébita dos recursos pertencentes ao funcionalismo público.
Durante encontro da governadora com jornalistas, dia
11, Cadu Xavier não expôs, ao falar sobre a situação fiscal do Estado, a
questão desse atraso, mas informou que em abril, a folha de pessoal do
funcionalismo deve chegar a R$ 700 milhões, “somados os consignados, a R$ 780
milhões”.
Luiz Eduardo já havia levado secretários
responsáveis pelas pastas de áreas administrativa e financeira do governo
Fátima Bezerra a explicarem essa situação dos empréstimos consignados na
Comissão de Administração, Serviços Públicos, Trabalho e Segurança Pública da
Casa: “Vou trabalhar para que o Governo seja responsabilizado por esse
problema. E individualizar os culpados. Venho atuando desde que o secretário do
Governo era Pedro Lopes, antes de Cadu. E de lá para cá já denunciamos por
peculato e apropriação indébita esse comportamento do governo.”
No entendimento de Luiz Eduardo, primeiramente,
“precisamos atestar que essa questão dos consignados é grave. Muito grave.
Trata-se de peculato e apropriação indébita. Não é só uma questão meramente
contábil ou administrativa. É caso de Código Penal”.
O parlamentar lembrou que o secretário Cadu Xavier,
“ deu entrevista recentemente na TRIBUNA DO NORTE, e praticamente fez uma
admissão de culpa de que o dinheiro dos consignados não está sendo repassado. A
culpa já está configurada. Vamos avaliar agora o dolo”.
Luiz Eduardo disse, ainda, que não participou, até o
momento, de debates internos de CPI – “por isso, não posso falar neste momento
sobre o tema”.
Mas confirmou “a gravidade do problema e a
necessidade de aprofundamento político e jurídico sobre o tema. O Governo
Fátima Bezerra retém o dinheiro do servidor, não repassa aos bancos e acha que
isso é algo normal. Reter o dinheiro alheio de forma reiterada. Uma situação
que vem se repetindo há tempos”.
Na opinião de Luiz Eduardo, “os danos do não
pagamento dos consignados são gravíssimos. Perde o Governo, que fica sem moral.
Perdem os servidores, que ficam sem a chance de renovar empréstimos em um
momento de eventual necessidade. Perde o comércio, privado do giro financeiro
que novos empréstimos podem ter na economia”.
Finalmente, Luiz Eduardo declarou ter informação,
que “será checada”, de que desde de julho que não repassam o dinheiro do
consignado para o Banco do Brasil. “Não podemos normalizar o desmantelo, o
errado”, concluiu.
Sinsp
O Sinsp-RN estima os atrasos nos repasses dos
valores descontados dos contracheques dos funcionários públicos do Estado, não
repassados aos bancos, ultrapassam a R$ 450 milhões.
A presidente do Sinsp-RN, Janeayre Almeida de Souto,
disse que desde julho de 2025, que o Governo do Estado desconta do contracheque
do servidor a parcela do consignado e não faz repasse às instituições
financeiras.
“Hoje chegamos ao mês de fevereiro, carnaval
chegando, e o Governo do Estado continua sem pagar às instituições
financeiras”, alertou a sindicalista, que continuou: “E o Banco do Brasil, que
é onde a maioria dos servidores tem consignado e conta bancária, que recebe o
seu salário, o Banco do Brasil está descontando do servidor, recebeu seu
salário, a parcela do consignado que o Estado não repassa para o banco. Isso é
grave, isso é apropriação indébita”.
Janeayre Souto cobra dos órgãos de controle externo,
como o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) e Tribunal de Contas do
Estado (TCE), uma fiscalização e responsabilização do Executivo, porque
“apropriação indébita é crime, é ato de irresponsabilidade administrativa”.
Além disso, segundo a sindicalista, o Banco do
Brasil “está levando os servidores a serem negativados e muitos servidores pelo
Estado, retirado o contracheque, não fazendo repasse às instituições
financeiras e, ao receber, no dia do depósito de salário, tem servidor que tem
a conta quase que zerada, chegando, chorando muitas vezes no Sindicato, pedindo
ajuda”.
A presidente do Sinsp-RN também cobra do governo do
Estado que “tenha responsabilidade e respeito para com os servidores públicos”,
entendendo que “isso é o que eu chamo de má gestão”.
Para a sindicalista, “quem governa sete anos,
olhando pelo retrovisor, quando olha para o para-brisa, capota, então o Estado
desde julho confisca parcela do salário dos servidores para fazer a gestão do
Estado e isso é um absurdo, isso é crime”.
Segundo ela, em agosto quando foi à Assembleia
Legislativa, o secretário Cadu Xavier, prometeu pagar os atrasados dos
consignados até dezembro do ano passado.
“Nós pedimos socorro aos órgãos de controle do
Estado para tomar uma posição sobre isso. É uma falta de respeito, é deixar
faltar comida, remédio, pagar água de luz e mais ainda ser negativado, receber
carta do Serasa de uma conta que não deve”, finalizou.
Secretários visitam ALRN para prestar
contas
Secretários da área econômica do Governo do Rio
Grande do Norte compareceram à Assembleia Legislativa ao menos três vezes desde
2023 para prestar esclarecimentos sobre atrasos nos repasses de valores
descontados dos salários de servidores públicos referentes a empréstimos
consignados.
Os recursos envolvem principalmente instituições
financeiras, com destaque para o Banco do Brasil, que é por onde passam os
recursos de arrecadação na chamada conta única do Estado.
Em 24 de maio de 2023, o o então secretário estadual
de Administração, Pedro Lopes, foi convocado para explicar a situação dos
repasses.
Na ocasião, ele revelou que o Estado acumulava uma dívida de aproximadamente R$
180 milhões com instituições financeiras, resultado de pagamentos que deixaram
de ser realizados integralmente desde agosto de 2022.
Pedro Lopes dizia, na época, que o maior débito era
com o Banco do Brasil, estimado em cerca de R$ 150 milhões, além de R$ 1,6
milhão com a Caixa Econômica Federal e valores também em aberto com o Bradesco.
A convocação partiu do deputado estadual Luiz
Eduardo (SDD). Pedro Lopes atribuiu os atrasos às dificuldades fiscais enfrentadas
pelo governo desde o início do primeiro mandato da governadora Fátima Bezerra
(PT).
Nova rodada de esclarecimentos ocorreu em 6 de
setembro de 2023, desta vez com a presença do secretário estadual da Fazenda,
Carlos Eduardo Xavier, também convocado por iniciativa do deputado Luiz
Eduardo.
O secretário informou que, além do Banco do Brasil,
o Estado acumulava atrasos de cerca de R$ 96 milhões com o Banco BMG, dívida
que estava em negociação para pagamento parcelado, além de uma pendência de R$
6 milhões com o Banco Industrial.
Carlos Eduardo Xavier ainda explicava, naquele ano,
que a venda da folha de pagamento da conta única ao Banco do Brasil permitiu a
quitação integral do débito com a instituição. O acordo foi fechado no valor de
R$ 383 milhões, referentes a 86 meses de administração da folha, dos quais R$
200 milhões ficaram retidos pelo banco para a eliminação da dívida, enquanto
cerca de R$ 100 milhões seriam repassados ao Estado até o final do ano.
Já em 27 de agosto de 2025, Carlos Eduardo Xavier
voltou a detalhar o cenário dos consignados no serviço público estadual.
De acordo com o secretário, o Rio Grande do Norte
contava com cerca de 106 mil servidores ativos, sendo que aproximadamente 50
mil possuem algum tipo de consignação em folha, incluindo empréstimos,
contribuições sindicais e descontos de associações.
Até seis meses atrás, nas contas de Cadu Xavier, que
foi escolhido para concorrer à sucessão de Fátima Bezerra pelo Partido dos
Trabalhadores nas eleições de outubro deste ano, os consignados somavam 259 mil
operações, movimentando recursos da ordem de de R$ 96 milhões por mês.
O Banco do Brasil concentrava 82% dos recursos – R$
73,5 milhões, enquanto outros bancos respondem por R$ 8,2 milhões, e sindicatos
e associações, por R$ 7,5 milhões mensal.

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