Após conseguir aval do governo federal para tomar um
empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos, os Correios apresentaram um
plano de reestruturação no qual reconhecem a necessidade de uma injeção
adicional de recursos de R$ 8 bilhões em 2026. A forma como isso deverá ocorrer
ainda não foi definida, mas uma reportagem publicada pelo
jornal Valor revelou que a estatal conta com um aporte de recursos da
União de ao menos R$ 4,5 bilhões, podendo chegar a R$ 6 bilhões.
A priori, ninguém pode se dizer surpreso com a
informação. Afinal, o valor inicial do empréstimo pleiteado pelos Correios era
de R$ 20 bilhões, e a operação só não foi aprovada pelo Executivo porque os
juros pedidos pelos bancos superavam o limite estabelecido pelo Tesouro
Nacional para operações com garantia soberana. Uma nova rodada de negociações
com outras instituições financeiras, incluindo dois bancos públicos, reduziu as
taxas, mas o volume do empréstimo também caiu.
A necessidade da empresa, portanto, continua a
mesma. O presidente da estatal, Emmanoel Rondon, até considera a possibilidade
de que os recursos possam ser obtidos por outros meios, como aumento de receitas
ou um novo empréstimo, mas o fato é que o aporte parece a alternativa mais
provável diante da desafiadora situação da empresa.
O plano de recuperação prevê o desligamento de 15
mil empregados por meio de um Plano de Demissão Voluntária (PDV) em dois anos.
Trata-se de uma meta ambiciosa, tendo em vista a baixa adesão verificada em
programas anteriores. Há ainda previsão de venda de imóveis sem uso, fechamento
de mil agências e a reformulação das regras do plano de saúde.
No conjunto, são medidas acertadas, mas chegam tarde
e, por isso mesmo, parecem insuficientes para reequilibrar os Correios. Sem as
medidas de ajuste, o prejuízo seria de R$ 23 bilhões no ano que vem. Lucro, na
melhor das hipóteses, somente em 2027, mas os resultados ainda vão piorar antes
de começarem a melhorar.
Até lá, os Correios esperam formar parcerias com a
iniciativa privada para ampliar receitas e, eventualmente, até atrair capital
privado para se tornarem uma sociedade de economia mista, a exemplo da
Petrobras e do Banco do Brasil. Mas é difícil acreditar nessa possibilidade
diante da leniência do governo Lula com as estatais, de forma geral, e com os
Correios, em particular.
Basta lembrar que a empresa recorreu a uma manobra
contábil para reduzir provisões relacionadas a um passivo trabalhista de R$ 1
bilhão para R$ 18 no balanço de 2023, conforme uma auditoria realizada pela
Controladoria-Geral da União (CGU). Não foi a única inconsistência apurada pelo
órgão.
E em meio à maior crise financeira de sua história,
os Correios ainda enfrentaram uma paralisação de alcance nacional. Mesmo sem
ter estabilidade, pois não são funcionários públicos, os empregados entraram em
greve no dia 16 de dezembro por não concordar com a proposta de reajuste
salarial que os Correios apresentaram. É o tipo de coisa que explica por que o
fôlego dado pelo empréstimo terá curta duração.
Opinião do Estadão

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