Dados de uma ação que cobra o abastecimento da rede
hospitalar estadual mostram que as despesas pagas em saúde no Rio Grande do
Norte despencaram 68% no primeiro semestre de 2025, o que representa R$ 673,3
milhões a menos que no ano passado. Em 2024, o RN pagou R$ 988,1 milhões em
despesas de saúde. No mesmo período de 2025, esse valor caiu para R$ 314,7
milhões.
Em decisão desta quarta-feira (27), a juíza Maria
Cristina Menezes de Paiva Viana, da 5ª Vara da Fazenda Pública de Natal,
apontou um “cenário de colapso progressivo” na saúde, agravado por déficit de
R$ 141 milhões nos repasses da Fazenda para o Fundo Estadual de Saúde, que
coloca o estado na penúltima posição nacional em gastos próprios com saúde.
Por conta do cenário caótico, a Justiça determinou
que o governo estadual terá 15 dias para apresentar um relatório detalhado
sobre a situação dos hospitais, incluindo a lista de medicamentos e insumos em
falta, o percentual de abastecimento de cada unidade, o valor necessário para
regularizar os estoques e o cronograma de medidas a serem adotadas nos próximos
90 dias. A decisão foi proferida após manifestação do Ministério Público,
através da Promotoria da Saúde, que apurou os dados da crise financeira pela
qual passa o setor. A Promotoria da Saúde pediu à Justiça estadual a designação
de uma audiência de conciliação.
Na decisão, a juíza rejeitou a designação imediata
de audiência de conciliação, entendendo que seria “improdutiva qualquer
tentativa de composição sem elementos concretos”. A magistrada advertiu que, em
caso de descumprimento, poderá determinar a suspensão de pagamentos de despesas
não essenciais até que a regularização seja feita, além de aplicar multa
pessoal a gestores responsáveis. “Apresentadas as informações de forma integral
e demonstrado interesse efetivo na solução do problema, será designada
audiência de conciliação”, escreveu.
Essas determinações decorrem de uma Ação Civil
Pública movida pelo Ministério Público do RN (MPRN) em 2012, que resultou em
sentença definitiva em 2023 obrigando o Estado a garantir o fornecimento
contínuo de insumos e medicamentos. Passados três anos do trânsito em julgado,
a Justiça aponta que o problema não só persiste como se agravou. “O Estado
permanece sistematicamente omisso, não apresentando sequer informações básicas
sobre as providências adotadas para cumprimento das ordens judiciais”, destacou
a juíza.
O MPRN apresentou na manifestação dados que apontam
uma queda de 26,63% nos empenhos da saúde em 2025 em relação a 2024, com um
déficit de R$ 395 milhões, além de uma redução de 68% nos pagamentos efetivos.
A rede estadual de saúde do Rio Grande do Norte conta atualmente com 21
unidades, muitas delas enfrentando desabastecimento crônico de insumos e
medicamentos essenciais, segundo a manifestação do Ministério Público Estadual
(MPRN), que detalha o impacto direto nos hospitais.
O Walfredo Gurgel, maior pronto-socorro do estado,
acumula dívidas de R$ 11 milhões com fornecedores e enfrenta falta de itens
básicos, como luvas, álcool, lençóis e medicamentos — materiais que, em alguns
casos, vêm sendo adquiridos pelos próprios familiares de pacientes. O Hospital
José Pedro Bezerra (Santa Catarina) registrou em janeiro um índice de ruptura
de estoque de 41,33%, enquanto o Hospital João Machado chegou a ter recomendações
de bloqueio de leitos por falta de condições mínimas de segurança, conforme
reportagem da TRIBUNA DO NORTE da edição do último dia 19, mencionada pelo MPRN
no processo.
No Hospital Maria Alice Fernandes, a falta de
suprimentos, associada a problemas na escala médica, levou ao bloqueio de sete
leitos de UTI neonatal e pediátrica, medida adotada em conjunto com o Conselho
Regional de Medicina (CREMERN), a Defensoria Pública e o próprio MPE para
garantir a estrutura mínima de atendimento.
Já o Hemonorte, unidade central de hemoterapia,
solicitou 41 itens à Unicat, mas recebeu apenas 9, precisando recorrer a
empréstimos de outros hospitais e hemocentros de estados vizinhos para suprir
faltas críticas. Entre os medicamentos e insumos em falta estão antibióticos de
alto risco, anestésicos, analgésicos, luvas, lençóis e ventiladores, cuja
ausência eleva o risco de infecções hospitalares, aumenta a mortalidade e
prolonga internações, conforme aponta a manifestação do MPRN.
Sesao afirma estar recompondo estoques
Em
nota, a Secretaria de Saúde reconheceu a queda nos repasses financeiros
apontada pelo MP, mas afirmou que o processo de recomposição de estoques já
está em andamento. “O abastecimento nas principais unidades hospitalares do
estado vem sendo recomposto recentemente, com o pagamento que vem sendo feito
junto a fornecedores contratados”, informou a pasta. A Secretaria da Fazenda
foi procurada para comentar o assunto, mas não deu retorno até o fechamento
desta edição. O espaço continua aberto.
A Sesap disse ainda que realiza “monitoramento
diário dos estoques dos hospitais, bem como das entregas realizadas pelos
fornecedores, com o objetivo de otimizar o abastecimento de toda a rede” e
citou o pagamento de compras prioritárias, negociação de entregas mais rápidas
e até o uso de requisições administrativas em casos extraordinários.
Segundo o MP, a crise tem afetado não apenas as
rotinas assistenciais, mas também contribuído para o aumento de infecções
hospitalares. Entre as causas, aponta dívidas herdadas de anos anteriores,
dificuldades de negociação com fornecedores pela perda de credibilidade
financeira da Sesap e “excessiva burocracia nos processos de compras”. O órgão
ainda registrou que, segundo dados do SIOPS, o Rio Grande do Norte ocupa hoje a
penúltima posição no ranking nacional de gastos próprios com saúde, sendo o
último colocado entre os estados do Nordeste.
O documento também registra que o próprio Secretário
de Saúde confirmou que a escassez se deve à falta de pagamento a fornecedores,
reforçando a urgência de medidas emergenciais para regularizar o abastecimento
em toda a rede.
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