Com informações de O Globo
Apesar da fuga de dois detentos da Penitenciária
Federal de Mossoró (RN) na semana passada ter sido a primeira do sistema
federal, o problema é comum nas prisões estaduais. No ano passado, houve ao
menos 333 fugas no Brasil, ou quase uma por dia, de acordo com levantamento do
jornal ‘O Globo’ junto a governos de 18 estados. As evasões, explicam
especialistas, são possibilitadas pela corrupção de agentes penitenciários e
pelo domínio de facções do crime nas unidades prisionais. Os planos das organizações
criminosas envolvem pagamentos, planejamento, acesso a ferramentas e logística
minuciosa para evitar que os fugitivos sejam recapturados.
Em outubro, um caso no presídio de Trindade, na
Região Metropolitana de Goiás, mostrou como as facilitações internas se
associam às fugas. Após 14 detentos terem escapado, um agente penal e um
vigilante temporário foram presos. Cada fugitivo teria pago R$ 10 mil aos dois,
que deixaram a porta da cela aberta. Em seguida, todos saíram por um buraco no
telhado do corredor. Um dos presos recapturados contou em depoimento que os
pagamentos foram feitos dentro do presídio, por pix, durante o banho de sol na
unidade.
Em 2023, Goiás teve 27 fugas, mas 23 foram
recapturados. Líder no ranking das fugas ao lado do Pará, Santa Catarina
informou ter conseguido recapturar a maioria dos foragidos: 39 dos 56 detentos
que saíram foram encontrados e levados de volta à prisão. Em setembro, seis
deles escaparam da Penitenciária de Itajaí, no litoral catarinense, mas quatro
foram presos novamente em 24 horas. No mesmo mês, nove detentos conseguiram
escapar da unidade de Santa Izabel do Pará, na Região Metropolitana de Belém,
sem que houvesse uma recaptura imediata.
O estado de São Paulo informou que não houve fugas
em unidades de regime fechado, mas 14 detentos que estavam em unidades de
regime semiaberto deixaram a prisão. Normalmente, esses casos não são
consideradas evasões, porque costumam acontecer quando o detento não retorna à
unidade, depois do dia de trabalho ou de estudo. Mas não foi o caso destes 14:
ao menos metade deles escapou em dezembro do Centro de Detenção Provisória
(CDP) do Belém, na Zona Leste da capital, após danificar um alambrado e render
um segurança.
O Rio informou apenas três fugas. Mas entre os que
escaparam, está um preso de alta periculosidade: Jean Carlos Nascimento dos
Santos, antigo chefe do tráfico no Morro do Dezoito, em Água Santa, na Zona
Norte. Jean cumpria pena de 66 anos, mas escapou da penitenciária Lemos Brito,
em Bangu, com dois comparsas, enquanto duas guaritas estavam sem policiais
penais e as câmeras, desligadas, por causa de uma queda de energia durante uma
chuva. O Ministério Público investiga o caso.
Os dados oficiais da Secretaria Nacional de
Políticas Penais (Senappen) apontam apenas o universo de “abandonos” dos
presídios. A maioria desses casos — foram 7.630 no primeiro semestre de 2023,
segundo o último relatório disponível — é de presos que não retornaram às
unidades após saídas autorizadas por juízes. Os pesquisadores enxergam uma
possibilidade de as direções de unidades prisionais quererem mascarar os
números de fuga, em sigilo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário