Relançado pelo governo federal, o Programa de
Aceleração do Crescimento, em suas versões anteriores, iniciadas em 2007 e
2010, deixou no Rio Grande do Norte um montante de R$ 491 milhões em obras
paralisadas, segundo monitoramento do Tribunal de Contas da União. O valor é
relativo a obras que foram iniciadas com recursos do programa, mas até hoje não
foram entregues. As obras iniciadas pelo PAC e que estão paradas consumiram
mais da metade dos recursos previstos em seu orçamento. Foram gastos quase R$
500 milhões e o orçamento total é de R$ 924 milhões.
No Estado, do estoque de obras remanescentes do
Programa, há 98 paralisadas e 62 em execução. Os dados são do Tribunal de
Contas da União (TCU) e correspondem ao último levantamento realizado em abril
de 2023. Não há no painel de monitoramento da Corte de Contas da União
informações sobre as obras concluídas pelo Programa desde 2007, pois a
auditoria se deteve unicamente no que ainda estava por executar. No rol de
projetos do PAC listados pelo TCU na auditoria, há ações de responsabilidade da
União, Estado e municípios.
Já de acordo com informações do site da Casa Civil
do governo federal, o novo PAC, anunciado na última segunda-feira pela
governadora Fátima Bezerra, tem pelo menos 85 ações relativas à retomada de
obras – incluindo ampliação de projetos anteriormente iniciados. A reportagem
da TRIBUNA DO NORTE procurou a Casa Civil e o Governo do RN para obter mais
informações acerca da retomada das obras. A Casa Civil disse que não poderia
responder os questionamentos no prazo. A secretária de Planejamento do RN,
Virgínia Ferreira, afirmou que estava em Brasília e não poderia responder os
questionamentos da reportagem em tempo hábil.
De acordo com o levantamento do TCU, do total de 98
obras paralisadas, a maior parte é voltada ao setor da educação básica, com 77
projetos, seguido de saneamento básico que contabiliza 17 obras. Na
sequência, aparecem habitação e “outros” com duas obras cada. No total, são
mais de 30 cidades do Estado com projetos paralisados, dentre as quais estão
Natal, Mossoró, Macaíba, Parnamirim, Extremoz, São Gonçalo, Currais Novos, São
Tomé, Felipe Guerra, Rio do Fogo e Santo Antônio. Em todo o Estado, há 62
projetos em andamento, o que corresponde a 38,8% do total. No cenário nacional,
mais de 8 mil obras estão paralisadas.
O professor Marconi Macedo, do Departamento de
Administração Pública e Gestão Social da UFRN, esclarece que os processos de
elaboração dos projetos das obras, aliado ao cenário político e econômico dos
últimos com a pandemia da covid-19, são alguns fatores que podem explicar as
paralisações no Estado. “Outro problema é o fato do Estado ainda não ter
qualificado e capacitado o suficiente o pessoal do Governo que atua na condução
da execução e do acompanhamento dessas obras”, complementa.
Isso porque, explica, as atividades de condução no
setor público, sobretudo as com altos recursos financeiros, foram aprimoradas.
O resultado disso foi a necessidade de pessoal qualificado e morosidade para
formalização e posterior execução das obras públicas. Conforme mostram os dados
do TCU, entre os motivos apontados como causa da paralisação das 98 obras,
podem ser observadas dificuldades técnicas, rescisão de contratos, medidas
administrativas e problemas de infraestrutura.
Em avaliação realizada pela auditoria do Órgão em
2018, o mau planejamento foi considerado o fator primordial para a
recorrência do problema em todo o país, que tem como principais resultados os
custos com desgaste e manutenção, comprometimento dos serviços já executados e
os prejuízos às pessoas que poderiam ser beneficiadas pelos projetos. Após a
primeira auditoria, o TCU mantém um painel de monitoramento atualizado sobre o
tema.
Municípios listam dificuldades
O presidente da Federação dos Municípios do Rio
Grande do Norte (Femurn), Luciano Santos, aponta que o abandono de
construtoras também foi um problema visível em várias cidades do Estado.
O entrave, afirma, foi motivado pela demora nos processos licitatórios das
obras, na ordem de execução e posterior repasse dos recursos federais que
levaram empresas a desistirem dos projetos. Entre as cidades mais
impactadas, ele destaca Mossoró, Parnamirim, Natal e Caicó.
Embora reconheça a importância do novo PAC para o
avanço econômico do Rio Grande do Norte, nesse sentido, o professor Marconi
Macedo defende que dois pontos precisam ser levados em consideração no terceiro
programa. O primeiro é a elaboração de um planejamento estratégico que priorize
as obras que serão retomadas, a exemplo da Barragem de Oiticica há quase 10
anos em andamento, além da distribuição de acompanhamento das ações nas
secretarias do Governo do RN. O segundo é a maior articulação da gestão junto
ao setor privado, a fim de fomentar a permanência de organizações
privadas no Estado.
O novo PAC foi lançado no dia 11 de agosto e
prevê investimentos de R$ 1,7 trilhão em todos os estados do Brasil, dos
quais R$ 45,1 bilhões serão voltados ao Rio Grande do Norte. O valor reúne
recursos destinados pelo Orçamento Geral da União (OGU), por empresas estatais,
setor privado e de financiamento. O programa está organizado em medidas
Institucionais e nove eixos de Investimento, tais como saúde, educação, defesa
e infraestrutura hídrica.
De acordo com dados da Casa Civil sobre o novo PAC,
pelo menos 85 obras previstas para o Estado estão inseridas nas modalidades de
“retomada e conclusão” e “retomada, conclusão e novas obras”, integrando eixos
com foco em saúde, sustentabilidade, educação e infraestrutura. Dos trabalhos
que deverão ser concluídos, a maioria integra o programa “Minha Casa, Minha
vida”, com 47 projetos distribuídos na capital e municípios do interior do
Estado.
Segundo o Governo do RN, os projetos de maior foco
do Estado na terceira versão do programa são a duplicação da BR-304, construção
de um novo hospital de Urgências e Emergências em Trauma e Neurocirurgia na
Grande Natal; Porto-Indústria Verde; Minha Casa Minha Vida e Infovia Potiguar,
Ramal do Apodi da Transposição, Projeto Seridó e Barragem Oiticica. No caso das
três últimas, os trabalhos foram retomados do PAC anterior.
Na avaliação do professor Marconi Macedo,
dificilmente será possível concluir todas as obras previstas no Programa
até 2026. “A gente tem nesses últimos anos uma série de crises políticas e
econômicas e o cenário em que estamos hoje aponta para uma necessidade de
cautela. A economia não está recuperada e temos um cenário internacional que
ainda aponta para dificuldades. Então, é importante temperar o otimismo e focar
nos projetos que podem efetivamente dar retorno para a capacidade produtiva do
Estado”, destaca.
Luciano Santos, por sua vez, reitera que a Femurn
tem “esperança” de que as obras retomadas sejam concluídas com o novo PAC, mas
aguarda maior detalhamento do Governo Federal em relação ao processo de repasse
de recursos federais por meio da legislação orçamentária. De acordo com ele, a
maior precisão sobre a origem dos recursos é um dos pontos de preocupação da Federação.

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