Tribuna do Norte
Historicamente atravessada por variáveis sociais, a
tuberculose apresenta taxa de incidência de 37 casos para cada 100 mil
habitantes no Rio Grande do Norte. O índice ocupa a terceira posição entre os
maiores do Nordeste, sendo inferior apenas ao de Pernambuco (52,8) e Sergipe
(38,3). De 2021 para 2022, o número de casos cresceu 27,2% no Estado, saindo de
1.353 para 1.721. No mesmo período, as infecções em pessoas de 20 a 39 anos
aumentaram em 150 casos, partindo de 671 para 821. O público corresponde ao
mais atingido pela doença e soma 3.037 diagnósticos confirmados ao longo dos
últimos quatro anos. No país, o total é de 172.449.
Os dados são do Sistema de Informação de Agravos de
Notificação (Sinan Net) do Ministério da Saúde, tabulados pelo DataSus, e do
último Boletim Epidemiológico da pasta referente ao ano de 2022. Neste último
caso, o documento aponta que os números foram extraídos e qualificados em
fevereiro de 2023, sendo preliminares e sujeitos a alteração. Segundo a médica
infectologista Maria do Carmo, o crescimento da doença no Estado pode ser
explicado pela demanda reprimida de notificações ao longo dos últimos anos pela
ausência de diagnósticos. “A gente está vendo uma explosão acumulada de casos
ao longo do tempo que está repercutindo agora para a gente. Porque houve essa
lacuna de casos que ficaram represados”, complementa.
De acordo com dados da Coordenação Estadual do
Controle da Tuberculose, da Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte
(Sesap) e cedidos à infectologista, a taxa de incidência da doença no Estado é
de 43,39 casos para 100 mil/hab. O número é maior do que o registrado pelo
Ministério da Saúde. De acordo com a especialista, isso ocorre porque os
cálculos foram tomados com base na população do Estado segundo o censo 2021. As
informações, nesse sentido, vão passar por atualização e mudanças poderão ser
observadas.
Para 2023, aponta Maria do Carmo, a expectativa é de
aumento no índice. Isso porque os casos represados de pessoas infectadas após a
pandemia e que não foram diagnosticadas nos últimos dois anos devem passar a
surgir neste ano. Atualmente, de acordo com os dados da Coordenadoria da
Sesap, a média de casos notificados por mês no Estado é de 120.
A média de casos anuais no Rio Grande do Norte, por
sua vez, vem se mantendo. “Até 2019, o nosso Estado sempre teve uma média de
casos novos notificados em torno de 1.200 e 1.300. Então essa é a média de
casos novos notificados todo ano no Rio Grande do Norte”, esclarece. Ainda,
segundo ela, os números contemplam tanto a tuberculose pulmonar (responsável
pela transmissão) quanto a extrapulmonar que ocorre em outros órgãos. Do total
de casos, pontua, aproximadamente 800 são de pessoas acometidas com a
doença no pulmão.
No recorte por faixa-etária, conforme a
infectologista Maria do Carmo, o número de adultos jovens atingidos está
associado majoritariamente aos recortes sociais. Estatisticamente, esclarece, o
impacto da tuberculose neste público sempre foi uma realidade tanto no Estado
quanto nacionalmente. Isso porque a faixa-etária corresponde aos grupos em
situação de vulnerabilidade social e privados de liberdade.
Giselda
No Hospital Giselda Trigueiro, referência do Rio
Grande do Norte no atendimento de casos graves de tuberculose, o público
impactado pela doença é majoritariamente formado por pessoas advindas do
Sistema Prisional e mais vulneráveis socialmente. Isso porque, uma vez sendo
transmitida pelas vias áreas, o confinamento resulta na infecção e posterior
adoecimento. “Se você coloca em uma cela uma população de 100 a 200 pessoas e
ali mesmo você tem um doente, imagine a transmissão confinada. A chance é muito
maior quando você aglomera as pessoas”, adverte.
Na unidade, além da população vulnerável, também são
assistidas as pessoas coinfectadas com HIV. Isso porque a tuberculose é a
principal causa de morte em pessoas com o vírus da imunodeficiência humana.
Embora não representem a maior parcela dos pacientes, o infectologista André
Prudente, diretor da Unidade, explica que o número é significativo. Nesse
conjunto, são observados quadros de pessoas que descobriram o HIV em um estágio
avançado da doença, abandonaram o tratamento ou por algum fator não o
realizam.
O teste para o HIV, apesar de não ser obrigatório, é
ofertado a todos os pacientes com tuberculose. O infectologista André
Prudente relembra que a maioria da população entra em contato com o bacilo da
doença ainda na infância, mas ele fica “dormindo” no pulmão e não se manifesta
em boa parte dos casos. Quando a imunidade baixa, problema enfrentado por quem
desenvolve a AIDS, o bacilo passa a se multiplicar e provoca a doença. Aliado a
isso, outras doenças associadas podem levar ao agravamento do quadro.
Segundo dados do Giselda Trigueiro, o número de
pacientes internados por tuberculose no Hospital saiu de 256, em 2021, e
atingiu 342 em 2022. A maior parte dos pacientes são de Natal, embora também
sejam atendidos pacientes de outras partes do Estado. Os números englobam casos
novos, recidivos, reingresso após abandono e pós óbito e foram compilados pelo
Núcleo Hospitalar de infectologia.
Lacunas no diagnóstico
Se, por um lado, os dados apresentam progressão, por
outro, a tuberculose ainda sofre com lacunas na identificação de casos. O
entrave, que reflete-se na imprecisão das notificações levantadas sobre a
doença, tem como principal motivação a falta de diagnósticos e impede a
chegada de muitos pacientes com padrão de resistência à tuberculose no Giselda
Trigueiro. “Esses grupos sociais de maior vulnerabilidade ( pessoas portadoras
de HIV e pessoas em situação de rua e privadas de liberdade) precisam ter um
foco voltado ao diagnóstico o mais precoce possível”, ressalta Maria do
Carmo.
Para isso, continua a infectologista, é preciso que
a população, seja ela ou não vulnerável, busque atendimento logo após a
identificação de sinais como tosses prolongadas a mais de duas semanas, febre e
perda de peso progressiva. Nas Unidades de Pronto Atendimento (Upa’s) e
Unidades Básicas de Saúde (UBS’s), adverte, a chegada de pacientes com quadros
sintomáticos avançados da doença já não é incomum. Em muitos casos, o indivíduo
está sofrendo com a doença há meses sem ter conhecimento.
A Atenção primária, reforça Maria do Carmo, abriga
todas as manifestações leves da doença. Nos casos mais graves, os pacientes são
encaminhados ao Giselda Trigueiro. Em relação aos quadros que não são
resolvidos nas UBS’s, por sua vez, a assistência pode ser realizada pelo
Ambulatório do Instituto de Medicina Tropical (IMT). A tuberculose, vale
lembrar, é causada pela bactéria conhecida como bacilo de Koch. Pela literatura
científica, conforme a especialista, uma pessoa contaminada pode transmitir a
doença a cerca de outros 16 indivíduos. lar de Epidemiologia.

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