JOSIAS DE SOUZA
As manifestações antissanitárias deste domingo foram
marcadas por uma novidade. Jair Bolsonaro e seus apoiadores extremistas
ganharam no Rio de Janeiro e em São Paulo o contraponto das extremadas torcidas
organizadas de futebol, que se dispõem a sair no braço contra a volta da
ditadura.
Na Avenida Paulista, a Polícia Militar dispersou os
antípodas com uma chuva de bombas de gás. O pedaço do Brasil que se esconde do
vírus constata de longe a falta que faz a sensatez. Bolsonaro ainda não notou.
Mas a política da raiva vai chegando ao seu limite.
O presidente tem diante de si duas decisões duras para
tomar. Primeiro precisa resolver que preço está disposto a pagar para fugir das
investigações que o enroscam. Depois, tem que decidir o que vai fazer com seus
filhos.
No primeiro caso, Bolsonaro está numa situação
delicada. Ainda não apareceu ninguém capaz de convencê-lo de que, ao regatear a
crise, eleva o tamanho do prejuízo. No segundo, tem dificuldades para admitir
que os filhos viraram fardos. Sabe que Flávio, Carlos e Eduardo encrencaram-se
por agir em seu benefício.
Com uma ignição instantânea instalada na aorta, o mais
provável é que Bolsonaro reaja às adversidades com mais raiva. Para se blindar
de eventuais pedidos de impeachment ou denúncias criminais, pagará mais caro
pela proteção do centrão.
Os filhos, alvejados no inquérito sobre a PF e no caso
das fake news, serão usados como peças do enredo em que Bolsonaro faz o papel
de vítima de perseguição.
Bolsonaro prioriza o destempero imaginando que, quando
a poeira da pandemia baixar, o desemprego cairá no colo dos governadores. Aí
estão, a um só tempo, seu erro e sua insensatez.
Com os mortos do coronavírus roçando a casa dos 30 mil
e o desemprego vitimando 13 milhões de pessoas, essa ideia de que o presidente
não pode fazer nada além de expressar sua raiva está corroendo aos poucos a
paciência nacional. Formam-se longe das ruas movimentos e alianças de
resistência.
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