domingo, 4 de outubro de 2026

Rendimento médio do trabalho no RN cai 5,4% e gera perdas de R$ 4,9 bi

 


Felipe Salustino
Repórter

O rendimento real médio habitual do trabalho no Rio Grande do Norte caiu de R$ 3.023 no segundo trimestre de 2025 (2025.T2) para R$ 2.861 no mesmo período de 2026 (2026.T2), o que representa uma redução de 5,4% no período, a maior do Nordeste. As informações constam no Boletim Macro Regional, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) com dados do IBGE/Pnad Contínua.

Também com base na Pnad, a Fecomércio RN estima que a queda de rendimento equivale a uma perda de cerca de R$ 4,9 bilhões em 12 meses. Analisando a capital isoladamente, as perdas para a economia somam R$ 421 milhões mensais, acima do estado.

Segundo o IFC, o resultado de Natal se justifica porque o trabalhador local perdeu quatro vezes mais em rendimento do que a média total do RN – a queda, neste caso, foi de 20,8% em um ano (de R$ 4.810 para R$ 3.809). O instituto explicou que, como a média do RN é a combinação de Natal com o restante do estado, no resultado final o Rio Grande do Norte apresentou redução menor, compensado pelo interior, onde o rendimento do trabalho teve lucro líquido de R$ 62 milhões por mês, no período analisado.

Segundo a FGV Ibre, no comprativo com o primeiro trimestre de 2026, quando o rendimento do RN ficou em R$ 3.022, a queda foi de 5,3%, também a mais alta do NE, juntamente com o Piauí. No comparativo interanual, além do RN, outros dois estados registraram redução no rendimento real médio habitual do trabalho: Pernambuco (-3,3%) e Alagoas (-2,9%). A média do Nordeste registrou alta de 4,9%.

Já na comparação com o primeiro trimestre deste ano, depois do RN e do Piauí, Pernambuco (-4,4%) e Paraíba (-2,5%) também apresentaram queda. Apenas dois estados da região – Ceará e Bahia – registraram alta, de 2,7% e 1,1%, respectivamente. A média da região ficou positiva (1,2%) no recorte. De acordo com o IBGE, o rendimento real médio habitual do trabalho é o valor recebido pelos trabalhadores no mês decorrente da principal fonte de renda, ajustado para descontar a inflação.

O movimento registrado no RN em um ano mostra que o estado segue também na direção contrária à do país, onde o redimento habitual teve alta de 2,8% na comparação entre o segundo trimestre de cada ano, e de 1,5% quando se observa os dados dos dois primeiros trimestres de 2026. Apesar disso, o valor médio de rendimento real do trabalhador potiguar (de R$ R$ 2.861) no segundo tri deste ano foi o segundo mais alto do Nordeste.

Apenas Sergipe (R$ 3.042) superou o rendimento potiguar no trimestre encerrado em junho passado. O resultado no RN, segundo o economista Cassiano Trovão, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) é puxado pelos trabalhadores informais do setor privado (excluindo-se o trabalhador doméstico), cujo rendimento caiu de R$ 1.707 no 2025.T2, para R$ 1.544 no 2026.T2, (variação de -9,5%), segundo o IBGE.

Outro grupo que contribuiu fortemente para a redução foi o dos empregados no setor público (militares e estatutários), cujo rendimento caiu de R$ 7.261 para R$ 6.342 em um ano (variação de -12,6%). O desempenho de atividades econômicas como Indústria, Comércio e Serviços também impactaram nos dados sobre renda.

Cassiano Trovão explica que o entendimento sobre se o movimento de queda é permanente depende das especificidades de cada atividade.

“Na Administração Pública, não acredito que seja algo estrutural, uma vez que o rendimento médio nesse segmento tem aumentado no longo prazo, com alguns sobressaltos ao longo do tempo. Para a Indústria, até o primeiro trimestre de 2023, o segmento havia mantido o rendimento estável, com alta após esse período e uma queda significativa recentemente. É uma questão que tem a ver com a retomada da capacidade de investimento no estado”, detalhou o economista.

Rendimento: perdas mensais no RN são de R$ 405 milhões

De acordo com um levantamento feito pelo Instituto Fecomércio, da Fecomércio RN, as perdas para a economia potiguar com a redução do rendimento médio habitual do trabalho chegam a R$ 4,9 bilhões em 12 meses (cerca de R$ 405 milhões mensais) em toda a economia do estado. A análise foi feita com os dados da Pnad Contínua.

“Toda redução de renda impacta a atividade econômica, e no comércio e nos serviços o efeito é imediato, porque é ali que a renda das famílias se transforma em consumo”, disse o IFC em nota. Ao mesmo tempo, a redução no rendimento foi puxada diretamente pelo desempenho dos Serviços e Comércio em algumas ocasiões, segundo o Instituto.

Segundo o FGV Ibre, os serviços registraram queda de 3,3% no RN na comparação anual (junho de 2025 e junho de 2026). Já o Comércio Ampliado, que inclui o varejo restrito mais veículos, motocicletas, material de construção e atacado especializado em produtos alimentícios, teve variação mensal negativa de 1,5% em junho de 2026 na comparação com o mês anterior (maio de 2026). O IFC esclareceu que, apesar da ligação direta com a redução de renda dos potiguares, os números acima precisam ser lidos com amplitude.

“A queda, apesar de percentualmente significativa, parte de uma alta base de comparação. O RN tinha a maior renda média do Nordeste no 2025.T2 e, no 2026.T2, mesmo após a queda, tem a segunda maior renda média regional (R$ 2.861), 8,2% acima da média do Nordeste (R$ 2.645). O estado também foi o que observou a maior queda na taxa de desemprego, registrando hoje a segunda menor da região (5,6%), bem inferior ao NE (7,6%) e próxima à média nacional (5,4%)”, disse o instituto.

O IFC projeta um melhor cenário para os próximos resultados. “O segundo semestre traz boas perspectivas, principalmente por concentrar as principais datas para o comércio, como Dia das Crianças, Black Friday e Natal, com contratações de temporários e geração de renda. O ambiente macroeconômico ajuda. A Selic acumula cinco cortes seguidos e a inflação perdeu força”, detalha o IFC.

Ainda segundo o Instituto Fecomércio, os serviços já dão sinal de reação no estado. “Em julho, o volume do setor cresceu 7,1% sobre o mesmo mês de 2025, e as atividades turísticas tiveram o maior crescimento do país, de 9,9%. Esse conjunto permite esperar o início de uma reversão ainda neste semestre”, disse o IFC.

Indústria: recuos afetam os maiores salários no RN

Em 12 meses (no período encerrado em junho de 2026), a ocupação na economia do RN (agropecuária, indústria em geral e de transformação, construção, comércio, serviços e serviços domésticos), teve retração de 3,1%, segundo a Pnad Contínua.

Desse grupo, a indústria em geral foi a que apresentou maior queda no número de ocupação (-12,7%). Além disso, de acordo com o Boletim Macro Regional do FGV Ibre, a produção e faturamento da atividade no estado recuou 9,4% no acumulado de 12 meses e 13,1% no 1º semestre de 2026, fatores que ajudaram a puxar para baixo a renda média.

Segundo Roberto Serquiz, presidente da Fiern, o principal elemento de avaliação reside no tipo específico de indústria que registrou queda, como a fabricação de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-32%); petróleo e gás (-11) e móveis e produtos de madeira (-7%).

“Foram quedas relevantes em setores com os maiores salários médios. Petróleo e gás chama atenção por representar uma das nossas grandes locomotivas econômicas”, avalia Roberto Serquiz.

O economista Cassiano Trovão diz que a queda observada na indústria potiguar tem a ver com elementos conjunturais e sazonais e reforça a necessidade de o estado recuperar a capacidade de investimentos. “Retomar essa capacidade é um elemento central para dinamizar a indústria do estado. Isso envolve planejamento e investimentos estratégicos em infraestrutura econômica e social.”

Ediran Teixeira, supervisor técnico do Dieese, também aponta a indústria e o setor público como os segmentos com maior influência nos resultados. “É na indústria e no setor público (que compõem os serviços) que pagam os melhores salários”, explica.

Depois de trabalhar por seis anos no setor de serviços como cozinheira, a hoje dona de casa Maria das Graças, 51, teve de sair do emprego em dezembro do ano passado para cuidar do pai. “Com isso, o rendimento lá de casa encolheu, já que meu salário era de R$ 2 mil. Hoje, restam o salário do meu pai e a pensão que ele recebe pela morte da minha mãe. O que eu ganhava faz muita falta, principalmente por conta dos custos que a saúde dele requer”, relata.

Rendimento real médio do trabalho no rn (2026.T2)

SE: R$ 3.042
RN: R$ 2.861
PB: R$ 2.799
PE: R$ 2.771
CE: R$ 2.727
AL: R$ 2.578
BA: R$ 2.563
PI: R$ 2.547
MA: R$ 2.284

Fonte: FGV Ibre

 

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