Felipe Salustino
Repórter
O rendimento real médio habitual do trabalho no Rio
Grande do Norte caiu de R$ 3.023 no segundo trimestre de 2025 (2025.T2) para R$
2.861 no mesmo período de 2026 (2026.T2), o que representa uma redução de 5,4%
no período, a maior do Nordeste. As informações constam no Boletim Macro
Regional, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio
Vargas (FGV Ibre) com dados do IBGE/Pnad Contínua.
Também com base na Pnad, a Fecomércio RN estima que
a queda de rendimento equivale a uma perda de cerca de R$ 4,9 bilhões em 12
meses. Analisando a capital isoladamente, as perdas para a economia somam R$
421 milhões mensais, acima do estado.
Segundo o IFC, o resultado de Natal se justifica
porque o trabalhador local perdeu quatro vezes mais em rendimento do que a
média total do RN – a queda, neste caso, foi de 20,8% em um ano (de R$ 4.810
para R$ 3.809). O instituto explicou que, como a média do RN é a combinação de
Natal com o restante do estado, no resultado final o Rio Grande do Norte apresentou
redução menor, compensado pelo interior, onde o rendimento do trabalho teve
lucro líquido de R$ 62 milhões por mês, no período analisado.
Segundo a FGV Ibre, no comprativo com o primeiro
trimestre de 2026, quando o rendimento do RN ficou em R$ 3.022, a queda foi de
5,3%, também a mais alta do NE, juntamente com o Piauí. No comparativo
interanual, além do RN, outros dois estados registraram redução no rendimento
real médio habitual do trabalho: Pernambuco (-3,3%) e Alagoas (-2,9%). A média
do Nordeste registrou alta de 4,9%.
Já na comparação com o primeiro trimestre deste ano,
depois do RN e do Piauí, Pernambuco (-4,4%) e Paraíba (-2,5%) também
apresentaram queda. Apenas dois estados da região – Ceará e Bahia – registraram
alta, de 2,7% e 1,1%, respectivamente. A média da região ficou positiva (1,2%)
no recorte. De acordo com o IBGE, o rendimento real médio habitual do trabalho
é o valor recebido pelos trabalhadores no mês decorrente da principal fonte de
renda, ajustado para descontar a inflação.
O movimento registrado no RN em um ano mostra que o
estado segue também na direção contrária à do país, onde o redimento habitual
teve alta de 2,8% na comparação entre o segundo trimestre de cada ano, e de
1,5% quando se observa os dados dos dois primeiros trimestres de 2026. Apesar
disso, o valor médio de rendimento real do trabalhador potiguar (de R$ R$
2.861) no segundo tri deste ano foi o segundo mais alto do Nordeste.
Apenas Sergipe (R$ 3.042) superou o rendimento
potiguar no trimestre encerrado em junho passado. O resultado no RN, segundo o
economista Cassiano Trovão, professor da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN) é puxado pelos trabalhadores informais do setor privado
(excluindo-se o trabalhador doméstico), cujo rendimento caiu de R$ 1.707 no
2025.T2, para R$ 1.544 no 2026.T2, (variação de -9,5%), segundo o IBGE.
Outro grupo que contribuiu fortemente para a redução
foi o dos empregados no setor público (militares e estatutários), cujo
rendimento caiu de R$ 7.261 para R$ 6.342 em um ano (variação de -12,6%). O
desempenho de atividades econômicas como Indústria, Comércio e Serviços também
impactaram nos dados sobre renda.
Cassiano Trovão explica que o entendimento sobre se
o movimento de queda é permanente depende das especificidades de cada
atividade.
“Na Administração Pública, não acredito que seja
algo estrutural, uma vez que o rendimento médio nesse segmento tem aumentado no
longo prazo, com alguns sobressaltos ao longo do tempo. Para a Indústria, até o
primeiro trimestre de 2023, o segmento havia mantido o rendimento estável, com
alta após esse período e uma queda significativa recentemente. É uma questão
que tem a ver com a retomada da capacidade de investimento no estado”, detalhou
o economista.
Rendimento: perdas mensais no RN são de
R$ 405 milhões
De acordo com um levantamento feito pelo Instituto
Fecomércio, da Fecomércio RN, as perdas para a economia potiguar com a redução
do rendimento médio habitual do trabalho chegam a R$ 4,9 bilhões em 12 meses
(cerca de R$ 405 milhões mensais) em toda a economia do estado. A análise foi
feita com os dados da Pnad Contínua.
“Toda redução de renda impacta a atividade
econômica, e no comércio e nos serviços o efeito é imediato, porque é ali que a
renda das famílias se transforma em consumo”, disse o IFC em nota. Ao mesmo
tempo, a redução no rendimento foi puxada diretamente pelo desempenho dos
Serviços e Comércio em algumas ocasiões, segundo o Instituto.
Segundo o FGV Ibre, os serviços registraram queda de
3,3% no RN na comparação anual (junho de 2025 e junho de 2026). Já o Comércio
Ampliado, que inclui o varejo restrito mais veículos, motocicletas, material de
construção e atacado especializado em produtos alimentícios, teve variação
mensal negativa de 1,5% em junho de 2026 na comparação com o mês anterior (maio
de 2026). O IFC esclareceu que, apesar da ligação direta com a redução de renda
dos potiguares, os números acima precisam ser lidos com amplitude.
“A queda, apesar de percentualmente significativa,
parte de uma alta base de comparação. O RN tinha a maior renda média do
Nordeste no 2025.T2 e, no 2026.T2, mesmo após a queda, tem a segunda maior
renda média regional (R$ 2.861), 8,2% acima da média do Nordeste (R$ 2.645). O
estado também foi o que observou a maior queda na taxa de desemprego, registrando
hoje a segunda menor da região (5,6%), bem inferior ao NE (7,6%) e próxima à
média nacional (5,4%)”, disse o instituto.
O IFC projeta um melhor cenário para os próximos
resultados. “O segundo semestre traz boas perspectivas, principalmente por concentrar
as principais datas para o comércio, como Dia das Crianças, Black Friday e
Natal, com contratações de temporários e geração de renda. O ambiente
macroeconômico ajuda. A Selic acumula cinco cortes seguidos e a inflação perdeu
força”, detalha o IFC.
Ainda segundo o Instituto Fecomércio, os serviços já
dão sinal de reação no estado. “Em julho, o volume do setor cresceu 7,1% sobre
o mesmo mês de 2025, e as atividades turísticas tiveram o maior crescimento do
país, de 9,9%. Esse conjunto permite esperar o início de uma reversão ainda
neste semestre”, disse o IFC.
Indústria: recuos afetam os maiores
salários no RN
Em 12 meses (no período encerrado em junho de 2026),
a ocupação na economia do RN (agropecuária, indústria em geral e de
transformação, construção, comércio, serviços e serviços domésticos), teve
retração de 3,1%, segundo a Pnad Contínua.
Desse grupo, a indústria em geral foi a que
apresentou maior queda no número de ocupação (-12,7%). Além disso, de acordo
com o Boletim Macro Regional do FGV Ibre, a produção e faturamento da atividade
no estado recuou 9,4% no acumulado de 12 meses e 13,1% no 1º semestre de 2026,
fatores que ajudaram a puxar para baixo a renda média.
Segundo Roberto Serquiz, presidente da Fiern, o
principal elemento de avaliação reside no tipo específico de indústria que
registrou queda, como a fabricação de equipamentos de informática, produtos
eletrônicos e ópticos (-32%); petróleo e gás (-11) e móveis e produtos de
madeira (-7%).
“Foram quedas relevantes em setores com os maiores
salários médios. Petróleo e gás chama atenção por representar uma das nossas
grandes locomotivas econômicas”, avalia Roberto Serquiz.
O economista Cassiano Trovão diz que a queda
observada na indústria potiguar tem a ver com elementos conjunturais e sazonais
e reforça a necessidade de o estado recuperar a capacidade de investimentos.
“Retomar essa capacidade é um elemento central para dinamizar a indústria do
estado. Isso envolve planejamento e investimentos estratégicos em
infraestrutura econômica e social.”
Ediran Teixeira, supervisor técnico do Dieese,
também aponta a indústria e o setor público como os segmentos com maior
influência nos resultados. “É na indústria e no setor público (que compõem os
serviços) que pagam os melhores salários”, explica.
Depois de trabalhar por seis anos no setor de
serviços como cozinheira, a hoje dona de casa Maria das Graças, 51, teve de
sair do emprego em dezembro do ano passado para cuidar do pai. “Com isso, o
rendimento lá de casa encolheu, já que meu salário era de R$ 2 mil. Hoje,
restam o salário do meu pai e a pensão que ele recebe pela morte da minha mãe.
O que eu ganhava faz muita falta, principalmente por conta dos custos que a
saúde dele requer”, relata.
Rendimento real médio do trabalho no rn
(2026.T2)
SE: R$ 3.042
RN: R$ 2.861
PB: R$ 2.799
PE: R$ 2.771
CE: R$ 2.727
AL: R$ 2.578
BA: R$ 2.563
PI: R$ 2.547
MA: R$ 2.284
Fonte: FGV Ibre

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