O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do
Banco Master, afirmou em depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do
Supremo Tribunal Federal (STF), que sua tentativa de firmar uma delação
premiada com a Polícia Federal (PF) não avançou porque as informações que pretendia
apresentar envolveriam o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, além de
outras figuras ligadas ao atual governo. A oitiva ocorreu em 27 de agosto,
durou cerca de uma hora e quarenta minutos e foi conduzida por um juiz auxiliar
do gabinete de Mendonça, sem a presença de integrantes da PF.
Delação travada há meses
Segundo relatou, a negociação para uma colaboração
premiada estaria paralisada havia cerca de nove meses. Vorcaro disse sentir-se
"desconfortável" em propor um novo acordo justamente por ter mantido,
no passado, uma relação próxima com Andrei Rodrigues, segundo ele, o
diretor-geral da PF teria participado de eventos e viagens ligados ao
crescimento do banco, inclusive um evento em Londres custeado pelo Master. Para
o ex-banqueiro, esse vínculo anterior explicaria o desinteresse da cúpula da
corporação em avançar com o acordo.
"Não tem a menor chance disso se viabilizar e
dar certo", disse Vorcaro no depoimento, ao descrever a dificuldade de
apresentar uma colaboração que atingiria a própria autoridade que a receberia.
Citação a Andrei Rodrigues e a
"núcleo do poder"
Vorcaro afirmou ainda dispor de informações sobre
supostas irregularidades envolvendo pessoas do que chamou de "núcleo do
atual governo", sem detalhar publicamente nomes ou provas concretas até o
momento. Ele mencionou despesas e viagens que teriam sido custeadas em favor de
Andrei Rodrigues, mas não apresentou documentação na ocasião, segundo relatos
do depoimento.
Procurado por interlocutores, Andrei Rodrigues negou
proximidade com o ex-banqueiro, afirmando ter se encontrado com ele apenas uma
vez. Ainda segundo pessoas próximas ao diretor-geral da PF, ele teria reagido
com indignação à citação de seu nome, questionando por que Vorcaro não buscou
fechar o acordo diretamente com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e
classificando a atitude do ex-banqueiro como desonesta.
Ameaças relatadas na custódia
No depoimento, Vorcaro também relatou ter sofrido
ameaças durante o período em que esteve sob custódia, associando os episódios à
sua relação com o que descreveu como o núcleo de poder atual, incluindo a
própria PF. A defesa do ex-banqueiro já havia alegado anteriormente, em
manifestação enviada ao STF, que ele vinha sofrendo "graves
intimidações". Vorcaro não identificou, contudo, um mandante direto das
ameaças.
PGR pede arquivamento das denúncias
A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu, na
quarta-feira (2), o arquivamento das denúncias apresentadas por Vorcaro. Em
manifestação enviada ao STF, o procurador-geral Paulo Gonet afirmou que o
ex-banqueiro não apresentou fatos concretos nem elementos mínimos capazes de
sustentar as acusações. Segundo Gonet, tanto a autoridade policial quanto a
própria PGR já haviam recusado anteriormente propostas de colaboração de
Vorcaro por considerá-las sem conteúdo informativo inédito.
Investigadores da Polícia Federal também refutam a
tese de que o caso estaria sendo direcionado por motivações políticas,
sustentando que o ex-banqueiro não indicou fatos novos ou meios de prova que
justificassem o interesse na colaboração premiada.
Nota do gabinete de Mendonça
Em nota, o gabinete do ministro André Mendonça
confirmou a realização do depoimento e informou que a oitiva foi feita a pedido
da própria defesa de Vorcaro. Segundo o gabinete, a PF não participou do ato
porque uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) veda a presença de
investigadores em depoimentos como esse, para preservar a integridade física e
psicológica do depoente.
Contexto
As declarações ocorrem em meio ao avanço das
investigações sobre o Banco Master e à divulgação de mensagens extraídas do
celular de Vorcaro, que teriam apontado contatos entre o ex-banqueiro e
autoridades dos três Poderes. O episódio se soma a um período de atrito entre o
diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o ministro André Mendonça, e ocorre em
meio a articulações de outros ministros do STF para equacionar a crise em torno
do caso.
Procuradas, a defesa de Daniel Vorcaro não quis se
manifestar sobre o depoimento, que corre em sigilo. Andrei Rodrigues também não
se pronunciou oficialmente até a publicação desta reportagem.

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