O Governo do Rio Grande do Norte estima arrecadar R$
27,35 bilhões no próximo ano, valor abaixo da despesa de R$ 28,55 bilhões
fixada para o período, deixando um déficit de R$ 1,19 bilhão no orçamento
público. Do total das despesas, quase 70% são direcionados para pessoal e
encargos sociais, o equivalente a R$ 19,58 bilhões. É o que aponta o Projeto de
Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2027, elaborado pela Secretaria de Estado do
Planejamento, do Orçamento e Gestão (SEPLAN), encaminhado para avaliação na
Assembleia Legislativa (ALRN).
O projeto foi recebido pela ALRN na última
terça-feira (15) e a matéria deve ser enviada nos próximos dias para a Comissão
de Finanças e Fiscalização (CFF) da Casa. Segundo a instituição, a análise do
projeto vai depender do parecer da CFF para que o presidente planeje a
deliberação em plenário.
O PLOA 2027 foi publicado no Diário Oficial da ALRN
desta quinta-feira (17). Na mensagem encaminhada à Casa, a governadora Fátima
Bezerra aponta que as ações presentes na proposta orçamentária estão de acordo
com as diretrizes estratégicas e os macro objetivos previstos. “O PLOA 2027
segue o modelo de realismo orçamentário que vem sendo adotado por este Governo
desde o seu início, que não esconde o quadro delicado das contas públicas do
Estado, assumindo o Poder Executivo o compromisso firme de adotar medidas
contínuas de otimização da arrecadação, controle e eficiência dos gastos ao
longo da execução orçamentária, com vistas ao gradual reequilíbrio das contas
públicas”, aponta.
Segundo o economista Robespierre do Ó, o
comprometimento de quase 70% do orçamento com pessoal e encargos reduz a margem
para investimentos. “Como essas despesas são obrigatórias, qualquer frustração
de receita tende a atingir primeiro as despesas discricionárias, especialmente
obras, equipamentos e novos projetos. O histórico reforça essa preocupação: em
2025, dos R$ 1,79 bilhão autorizados para investimentos, aproximadamente R$ 605
milhões foram efetivamente liquidados”, completa.
O economista Helder Cavalcanti concorda que o
comprometimento prejudica a aplicação de recursos próprios pelo Estado, mas
destaca que parte deles pode ser financiada por convênios, operações de crédito
e transferências federais. “Na prática, faltará espaço para ampliar estradas,
segurança, hospitais, escolas, saneamento, tecnologia e políticas de
desenvolvimento econômico. E há um efeito ainda mais preocupante: quando o
dinheiro se torna insuficiente, o governo tende a adiar a manutenção daquilo
que já existe”, aponta.
A conta da previdência estadual segue como o
principal gargalo das finanças do Rio Grande do Norte. Para bancar os R$ 8,9
bilhões previstos para aposentadorias e pensões em 2027, a arrecadação própria
do setor não é suficiente. Com isso, o Tesouro Estadual precisará cobrir uma
diferença de mais de R$ 4,6 bilhões com recursos de impostos pagos pela
população — dinheiro que poderia ser aplicado no asfaltamento de estradas,
reformas de escolas e reforço na saúde.
Robespierre do Ó pontua que o déficit previdenciário
reduz o espaço de outras políticas públicas, uma vez que o Tesouro passa a
aplicar uma parcela significativa de seus recursos no custeio de aposentadorias
e pensões. O problema, avalia, exige a adoção de medidas como a avaliação
atuarial, censo previdenciário e um plano de amortização sustentável. “Sem
enfrentar a causa estrutural, os aportes tendem a crescer e a comprimir ainda
mais os investimentos”, aponta.
Na avaliação de Helder Cavalcanti, além de adotar
ações que olhem para o problema de forma estrutural, é necessário evitar
soluções ‘aparentemente fáceis’, como utilizar os recursos previdenciários para
cobrir despesas correntes sem uma estratégia atuarial eficaz.
“O déficit previdenciário é hoje uma das principais
fontes de pressão sobre as contas do Rio Grande do Norte. Se a despesa
previdenciária projetada alcança R$ 8,9 bilhões e o Tesouro precisa aportar
aproximadamente R$ 4,6 bilhões, significa que uma parcela expressiva dos
impostos pagos por toda a sociedade está sendo utilizada para completar o
pagamento de aposentadorias e pensões”, ressalta.
LDO prevê superávit
Em julho, a previsão apresentada pelo Executivo na
Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) prometia um superávit primário de R$
549,3 milhões. Na LDO, foi projetada uma receita total de R$ 22,7 bilhões,
desconsideradas as fontes do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). Desse
montante, R$ 22,2 bilhões correspondem às receitas primárias, sendo R$ 21,9
bilhões provenientes de receitas correntes e R$ 386 milhões de receitas de
capital.
Na época de discussão da LDO, o relatório apontou
que o alcance do superávit primário dependeria de uma reversão fiscal superior
a R$ 2 bilhões em um único exercício, redução expressiva das despesas de
custeio, absorção contínua do déficit previdenciário e não concretização de
riscos fiscais não detalhados no projeto.
Robespierre do Ó explica que o superávit primário da
LDO e o déficit orçamentário global do PLOA são indicadores diferentes e não
devem ser comparados de forma automática. Isso porque o resultado primário
exclui juros, amortizações e outras operações financeiras, enquanto o déficit
orçamentário considera uma abrangência maior.
“A primeira providência deve ser verificar qual
resultado primário está efetivamente projetado no PLOA e quais fontes
financiarão o déficit de R$ 1,19 bilhão. Se a meta primária também tiver sido
reduzida, o Governo deverá demonstrar se isso decorre de menor arrecadação,
crescimento da folha, previdência, precatórios ou novas despesas. A
credibilidade fiscal não é prejudicada apenas pela revisão da meta, mas pela
ausência de explicação, de memória de cálculo e de medidas concretas para
corrigir o desequilíbrio”, finaliza o economista.
Já Helder Cavalcanti pontua que, apesar das
diferenças conceituais, o sinal de alerta não deve ser eliminado para a
situação fiscal do estado. “Entre a elaboração da LDO e a apresentação do PLOA,
as projeções são atualizadas. Podem mudar as estimativas de arrecadação, folha
de pessoal, previdência, transferências federais, precatórios, custeio e
crescimento econômico. O problema aparece quando a meta da LDO dependia de
receitas muito otimistas ou de cortes de despesas que não se mostraram
sustentáveis na elaboração do orçamento anual”, destaca.

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