A tragédia de Igapó, que levou à morte de 26 pessoas
na Avenida Bacharel Tomaz Landim, aconteceu há quase 45 anos, mas a memória do
acidente permanece entre os potiguares que perderam familiares e daqueles que
sobreviveram àquele dia.
Era o início da manhã de 29 de novembro de 1982, por
volta das 5h, quando pessoas que saíam de casa para trabalhar e seguir para o
ponto de ônibus foram surpreendidas por um acidente. Uma Kombi desgovernada
atingiu um poste na Avenida Bacharel Tomaz Landim e provocou a queda de um fio
de alta tensão de 69 mil volts que levou à vida de 26 potiguares.
Pessoas que se aproximaram para tentar ajudar ou apenas observar o acidente também foram atingidas pelas descargas elétricas. Além das mortes, o ocorrido deixou mais de 80 feridos.
Entre os sobreviventes estava a dona Francinete
Araújo, 66. Na época com 22 anos, estava em casa com a mãe quando ouviu os
gritos: “eu acordei justamente com ela clamando: ‘Nossa Senhora, que Deus acuda
aquele povo’”, relembra. A mãe tentou impedir que Francinete saísse de casa:
“Minha mãe falou para mim: ‘Minha filha, não vá’ mas bati o pé e desobedeci.”
Segundo ela, ao chegar no local havia muitas pessoas na região, assim como ela,
movidas pela curiosidade mas o que chamou sua atenção foram os corpos no chão.
Ela conta que, depois de observar a cena, sentiu que
deveria voltar para casa: “Aquela coisa tocou meu coração e disse para mim: ‘Vá
para casa’. Foi igual a um cochicho no ouvido.”. Mas não houve tempo para
voltar, Francinete foi atingida pela descarga elétrica.
Quando caiu no chão perdeu parte da consciência mas
ainda conseguiu ouvir o estrondo provocado pela descarga. Dona Francinete
permaneceu no chão enquanto era atingida pela descarga elétrica, mas a roupa
vermelha que usava naquele momento acabou ajudando a ser identificada por um
amigo da família que alertou seu padrasto que estava no local e retirou seu corpo
do chão: “Foram os dois anjos que Deus usou pra me salvar”.
“Eu já estava sem sentido. Era como se eu soubesse
que ia morrer e não podia fazer nada.”, afirmou Francinete. Depois de ser
retirada da área de risco, foi levada para o Hospital Walfredo Gurgel apesar da
descarga elétrica, não ficou com sequelas.
A sobrevivência, porém, só ganhou outra dimensão
quando Francinete tomou conhecimento do número de mortos. Para ela, ter
escapado da tragédia não é apenas uma lembrança, mas uma razão para continuar
contando o que aconteceu. “Foram 26 caixões, ia ser 27 com o meu, mas Deus não
quis. Não era a minha hora.”, refletiu.
Ao relembrar o episódio, Francinete se emociona. Quase
45 anos depois, ela ainda atribui a sobrevivência às pessoas que entraram no
local para retirá-la e a fé: “Eu tinha que ficar viva, que era para contar essa
história.”.
Para dona Francinete, sobreviver à tragédia
significa carregar consigo a memória daqueles que hoje não podem contar aquela
história. Uma dessas pessoas é Severino Ramos, na época com 30 anos, estava
passando na avenida no dia o acidente, e movido por uma determinação de ajudar
as vítimas que estavam no chão acabou morrendo assim que recebeu as descargas
elétricas.
Antes de sair de casa para trabalhar, Severino
acordou os cinco filhos e, como fazia diariamente, pediu a bênção. Entre eles
estava Ivonete, que tinha apenas nove anos e era muito apegada ao pai.
A filha conta que a mãe ainda tentou convencer Severino a não sair de casa:
“Ele disse: ‘Não, eu vou, que eu preciso trabalhar pra dar de comer a meus
filhos’.”
No caminho, Severino passou pelo local do acidente,
decidiu descer do veículo para tentar ajudar as pessoas que estavam caídas na
rua. Segundo a filha, Severino foi arremessado contra uma cerca de arame e
ainda tentou se levantar, mas acabou atingido por outra descarga.
A notícia chegou à família pouco tempo depois. Aos
nove anos Ivonete não conseguiu aceitar a notícia da morte do pai. “Eu saí
escondida da minha mãe, fui correndo lá pro caminho do acidente, que eu queria
ver meu pai, que eu me desesperei.”, relembrou Ivonete.
Anos depois, Ivonete reconhece que ter sido impedida
de chegar ao local pode ter salvado sua vida. A morte de Severino deixou Maria
de Lourdes viúva e com cinco filhos pequenos. Ele era o único responsável pela
renda da casa. Sem o marido, ela precisou encontrar uma forma de sustentar a
família. A família recebeu uma indenização, mas, segundo Maria de Lourdes, o
valor foi insuficiente para garantir o sustento dos filhos.
Ela passou a vender alimentos nas ruas e contou com
a ajuda de outras pessoas para conseguir criar as crianças. Ivonete também
começou a acompanhá-la: “Eu comecei a ajudar ela a vender também, deixei até de
estudar”. Ivonete recorda o enterro do pai e a quantidade de caixões no
cemitério naquele momento.
“Naquele dia que meu pai morreu pra mim, acabou o mundo pra mim. Ainda sinto a
falta dele ainda. É triste a pessoa perder um pai”, refletiu.
Para a família, a dor também veio acompanhada da
sensação de que a tragédia nunca teve uma resposta definitiva. A família afirma
que gostaria de ver o motorista da Kombi responsabilizado pelo acidente, o qual
nunca foi identificado.
Enquanto Ivonete e Maria de Lourdes carregam a
ausência de Severino, Francinete carrega a lembrança de ter escapado de uma
tragédia que matou 26 pessoas. Sobreviver, para ela, também significa contar
aquilo que muitos não tiveram a oportunidade de contar:“Eu tinha que ficar
viva, que era pra contar essa história.”.
Quase 45 anos depois, a Tragédia de Igapó permanece
na memória de quem sobreviveu e, principalmente, de quem precisou aprender a
viver depois dela. São histórias de perda, sobrevivência e ausência que
atravessaram gerações e continuam sendo lembradas por quem estava ali naquela
manhã de 29 de novembro de 1982.

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