Espremendo-se o noticiário que envolve Fábio Luís
Lula da Silva, vulgo Lulinha, o que se tem de concreto a apontar malfeitos do
filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é muito pouco. Aqui e ali,
pipocam fragmentos de diálogos extraídos do celular da lobista Roberta
Luchsinger, amigona de Lulinha, que mostram sua desenvoltura nas tratativas
para tentar emplacar negócios de seus clientes no governo Lula por meio do
filho do presidente. “Eu sou o Fábio”, jactou-se Roberta. Mas, até onde se sabe,
nenhum contrato foi firmado pelo governo com esses clientes. Se provas há, por
ora, é de que Roberta fala muito e entrega pouco e que Lulinha precisa escolher
melhor suas amizades.
Diante disso, a campanha petista deveria estar
relaxada, mas, ao que consta, não está: há crescente preocupação com os efeitos
do caso na candidatura Lula. Afinal, os vazamentos das investigações da Polícia
Federal, a conta-gotas, atendendo a sabe-se lá que interesses, tendem a manter
no ar a sensação de que o filho de Lula tem culpa no cartório. É difícil
controlar danos quando não se controla o noticiário.
Mas o prejuízo é maior por uma razão de fundo: a
corrupção, no imaginário popular, é como se fosse uma segunda pele do Partido
dos Trabalhadores (PT). Qualquer fiapo de desvio ético de petistas, mesmo
assentado em evidências frágeis, é desde logo tratado como confirmação
incontestável dessa natureza. Pudera: depois dos escândalos do mensalão e do
petrolão, o PT não tem mais o benefício da dúvida.
Não se chega a esse lugar à toa. O PT nasceu e
cresceu politicamente como uma espécie de antítese moral da assim chamada
política tradicional brasileira. Com a redemocratização do País, o partido
cultivou com desvelo a aura de força renovadora, avessa ao fisiologismo do
Centrão e aos escândalos de corrupção que marcaram o alvorecer da Nova
República. No início dos anos 2000, uma de suas peças de propaganda mais
célebres mostrava a Bandeira Nacional sendo corroída por ratos, em alusão
explícita aos políticos de outras legendas que vandalizavam o Orçamento da
União. O PT se vendia – e em boa medida era percebido – como o “partido da
ética na política”.
Essa fantasia foi rasgada mal o primeiro governo
Lula chegara à metade. Em 2005, veio a público o escândalo do mensalão, esquema
de compra de apoio parlamentar que culminou na condenação, pelo Supremo
Tribunal Federal (STF), de uma pletora de lideranças históricas do PT e de seus
associados, jogando o partido na vala comum da má política que sempre condenou.
Para piorar, os petistas jamais admitiram os malfeitos – pelo contrário, os
condenados no caso foram tratados pelo partido como “guerreiros do povo
brasileiro”.
Depois, como se sabe, veio o petrolão, o assalto à
Petrobras para financiar campanhas do PT e, como ninguém ali era de ferro,
enriquecer ilicitamente alguns de seus mais graduados filiados, além de
diretores da própria empresa. Novas e pesadas condenações de petistas
sobrevieram na esteira da Operação Lava Jato. Condenado em primeira e segunda
instâncias, ninguém menos do que Lula passou 580 dias na prisão, até ser solto
por decisão do STF, que, em 2019, mudou seu entendimento sobre o marco inicial
da execução da pena. Tudo isso deixou marcas profundas na opinião pública e
criou uma má reputação que precede o que quer que o PT venha a fazer para
tentar atenuá-la.
Em razão desse histórico, é no mínimo cínico que
dirigentes, parlamentares e apoiadores do PT se incomodem com o fato de que um
caso como o de Lulinha seja capaz de atrapalhar a candidatura de Lula à
reeleição. A reputação que precede o partido não foi construída de fora para
dentro: foi forjada por sua própria trajetória no Poder Executivo. É isso o que
se colhe quando um partido se apresenta como vestal da moralidade pública e,
depois, protagoniza grossos escândalos de corrupção, sem jamais ter pedido
desculpas por isso.
Opinião do Estadão
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