domingo, 16 de agosto de 2026

Mercado de crédito de carbono na Caatinga tem potencial não explorado

 


Felipe Salustino
Repórter

Com vegetação formada por arbustos espinhosos, de pequena estatura e que têm como uma das características mais marcantes a queda das folhas no período de seca, a Caatinga apresenta potencial inimaginável até pouco tempo atrás. O ecossistema é considerado o mais eficiente do mundo no sequestro de carbono, com absorção de aproximadamente 70 toneladas por hectare ao ano. A descoberta abre caminho para um mercado que ainda busca se consolidar no Brasil: o de crédito de carbono. O Rio Grande do Norte, que possui 91% do território coberto pela Caatinga, pode contribuir e ganhar muito com o avanço desse mercado.

A conclusão sobre o potencial do bioma é fruto de diversos estudos desenvolvidos ao longo dos últimos 10 anos. O professor Cláudio Moisés, do Departamento de Ciências Atmosféricas e Climáticas da UFRN, está entre os 160 pesquisadores de diferentes universidades e instituições que analisam a capacidade deste e de outros biomas de captar carbono. Segundo ele, desde 2016, mais de 30 artigos sobre o tema já foram publicados. O resultado das análises contraria a percepção de que um bioma pouco exuberante teria menor importância ambiental.

“A Caatinga é o ecossistema mundial mais eficiente em armazenar carbono”, afirma o pesquisador. Segundo ele, a explicação para tal conclusão está no comportamento do bioma. “A quantidade de carbono absorvida é resultado de um equilíbrio entre fotossíntese e respiração, ou seja, entre produção e consumo de energia. A planta controla a respiração e precisa fazer fotossíntese para não morrer. Na Caatinga, as árvores absorvem o carbono por meio da fotossíntese principalmente no período chuvoso, mas respiram o mínimo, ou seja, gastam pouca energia, mesmo com a perda das folhas”, descreve o professor.

O pesquisador ressalta que esse mecanismo de resiliência existente na Caatinga não é observado em nenhum outro bioma brasileiro. “A Amazônia, por exemplo, não tem a mesma capacidade. Com a perda das folhas, as plantas desse ecossistema morrem. Então, embora ele consiga captar muito mais carbono, uma vez que é um bioma gigantesco, é pouco eficiente em armazená-lo. Para se ter uma ideia, um hectare de Caatinga retém 10 vezes mais carbono do que um hectare da Amazônia”, detalha Cláudio Moisés.

Segundo o professor, os estudos iniciados por volta de 2016 vieram para fechar uma lacuna sobre o potencial da Caatinga, e surgiram a partir de questionamentos quanto à resiliência do bioma ao clima semiárido do Nordeste. O bioma está presente nos nove estados da região e em áreas de Minas Gerais e do Espírito Santo. “A gente precisava entender qual era o mecanismo que tornava esse ecossistema resiliente à seca e colocamos a Caatinga no mapa dos estudos mundiais”, fala.

O acompanhamento é feito por meio de uma torre de fluxo instalada na região de Assú, que mede, dentre outros aspectos, a concentração de carbono no solo. “Um equipamento no topo da torre faz a medição do fluxo – o que entra de carbono, a floresta está absorvendo, e o que sai é o que é emitido. O processo de absorção é analisado pelo balanço que ocorre a partir da fotossíntese menos a respiração”, descreve o pesquisador.

Temática ganha grupo de trabalho

Com as descobertas da capacidade de armazenamento pela Caatinga, o Rio Grande do Norte vislumbra um novo caminho, capaz de garantir renda para os pequenos produtores, com foco na preservação ambiental. É o mercado de crédito de carbono. De acordo com Roberto Wagner, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do RN (CREA-RN), as articulações em torno do tema já saíram do campo das intenções e estão consolidadas em um Grupo de Trabalho de Crédito de Carbono na Caatinga.

A iniciativa reúne, além do CREA, instituições, secretarias e entidades como a UFRN, a Associação Norte-Rio-Grandense de Engenheiros Agrônomos (ANEA/RN), o Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), Incra, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Secretaria de Desenvolvimento Rural e da Agricultura Familiar (Sedraf) e Secretaria de Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec).

Segundo Roberto Wagner, o próximo passo é transformar a mobilização em um programa estruturado por três frentes simultâneas. A primeira é um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) a ser celebrado entre UFRN, CREA-RN, PAX e uma empresa privada, para a formalização de papéis, responsabilidades e o compartilhamento do conhecimento científico com as capacidades técnica e de mercado. “É esse acordo que dá segurança jurídica e perenidade à iniciativa, tirando-a da dependência de vontades individuais”, esclarece o presidente do CREA.

A segunda frente tem a ver com a estruturação do financiamento, para a qual existe uma articulação junto ao Banco do Nordeste, à Sedraf e à Sedec com vistas a uma estratégia conjunta de financiamento que envolva o Fundo Clima, recursos multilaterais e bancos de desenvolvimento para custear os estudos técnicos, o inventário de carbono, a certificação internacional e a implantação dos projetos. A terceira e última frente é a execução de um projeto-piloto.

“Com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, vamos preparar o território para submissão às certificadoras e padrões internacionais, gerando os primeiros créditos de carbono de alta integridade. O piloto não é um fim em si: é a prova de viabilidade que nos permitirá replicar e ampliar o modelo para as demais regiões do RN, afinal, é importante lembrar que a presença desse bioma no nosso território corresponde a cerca de 51 mil km²”, aponta Roberto Wagner.

Camila Pimentel, consultora em Relações Governamentais e Institucionais do Mercado de Carbono, destaca que o segmento está diretamente ligado à redução de emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, mas é preciso que o carbono se torne antes um ativo financeiro em processo de monitoramento por certificadoras que irão atestar a redução de CO2 na atmosfera. O monitoramento pode durar de 12 a 18 meses. Após isso, é necessário um rastreamento e um gerenciamento para que o crédito seja comercializado.

Em dezembro de 2024, o governo brasileiro promulgou o Sistema Brasileiro de Comércio de Carbono, que regulamenta as emissões de gases de efeito estufa no país e promove a comercialização de ativos como cotas de redução e créditos de carbono. Segundo a lei, setores produtivos que emitem acima de 25 mil toneladas por ano devem reduzir uma porcentagem. Camila Pimentel afirma que a lei ajuda, mas aponta que um desafio é a submissão dos projetos às certificadoras, algo que não é barato.

“A certificação pode variar de US$ 100 mil a US$ 300 mil. Sem o cadastro na certificadora, o projeto não vira ativo financeiro. Então, é preciso que haja financiamento. Portanto, o projeto-piloto aqui do RN precisa ser levado às certificadoras para que a Caatinga seja reconhecida como bioma eficiente no armazenamento de carbono. Isso é muito importante também no sentido de retirar a imagem de escassez atribuída a esse ecossistema”, avalia Camila Pimentel.

O desenvolvimento do projeto-piloto dependerá do andamento de questões burocráticas. Os impactos financeiros para as regiões geradoras de crédito de carbono ainda não são conhecidos, uma vez que estas são informações dependentes de dados como a área alcançada por uma determinada iniciativa. “O que nós temos até o momento são tabelas gerais, que mostram, por exemplo, que um crédito de carbono (uma tonelada de hectare por ano) custa US$ 15. Se ele for associado a um replantio, esse valor sobe”, afirma o professor Cláudio Moisés.

Regularização fundiária

Outro aspecto fundamental para o mercado de crédito de carbono é evitar a perda de credibilidade. Neste sentido, segundo as fontes ouvidas, a regularização fundiária é crucial. Por isso, a articulação feita pelo CREA-RN para o projeto-piloto tem priorizado, inicialmente, áreas com segurança jurídico-fundiária, sobretudo terras públicas e privadas, além dos assentamentos regularizados, para evitar os problemas de grilagem e conflitos que já comprometeram a credibilidade de créditos em outros biomas.

“A regularização fundiária é a espinha dorsal da integridade de qualquer crédito de carbono. Sem ela, não há como provar quem é o dono do ativo, quem tem direito ao benefício e quem responde pelo compromisso de conservação. E é exatamente aí que nascem as fraudes, os conflitos e a descredibilização do mercado”, ressalta Roberto Wagner, presidente do CREA-RN. Para a consultora Camila Pimentel, este é mais um desafio a ser superado pelo mercado.

“A grilagem em terras públicas é algo muito grave, especialmente no Nordeste. Por isso, um dos focos do projeto-piloto é a agricultura familiar, ou seja, o agricultor que tem a posse da terra garantida pelo Estado. Isso, além de mitigar o risco de insegurança jurídica, vai gerar renda para o pequeno agricultor”, diz. A presidente da ANEA/RN, Silvana Patrícia, destaca que o mercado de crédito de carbono no RN, apesar dos desafios, representa uma esperança para a conservação do bioma e para a geração de renda das famílias inseridas nesse ecossistema.

A ANEA desenvolve trabalhos de fortalecimento da agricultura familiar no Rio Grande do Norte. “É uma grande oportunidade para a agricultura familiar, tanto na vertente da preservação ambiental quanto da agregação de renda. A perspectiva é a de uma política de concepção do crédito de carbono e a monetização do agricultor familiar, que deverá se converter em uma importante contribuição para o Estado brasileiro”, sublinha a presidente da ANEA.

 

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