Felipe Salustino
Repórter
O índice de confiança (ICER) dos empresários do
setor de energias renováveis do Rio Grande do Norte ficou em 46,0 pontos neste
mês, o menor nível desde o início da contagem, há quatro anos. O resultado vem
após uma leve melhora em março último (55,9 pontos), na comparação com a
contagem anterior, divulgada em novembro de 2025, que registrou 52,5 pontos. Os
dados são da Comissão Temática de Energias Renováveis (Coere), da Federação das
Indústrias do RN (Fiern).
Em junho de 2022, quando a sondagem foi iniciada, o índice era de 86,1 pontos.
O melhor resultado da série foi observado em setembro daquele ano (87,9
pontos). Sérgio Azevedo, presidente da Coere, classificou como preocupante a
redução de 9,9 pontos no comparativo entre as duas últimas sondagens. “Mais do
que uma oscilação do indicador, ela demonstra uma perda efetiva de confiança
dos agentes do setor de energias renováveis”, disse.
Para ele, um dos fatores que explicam a queda do índice é o curtailment (cortes
de geração de energia determinados pelo Operador Nacional do Sistema - ONS),
seguido da redução de investimentos.
“O principal fator é o curtailment. O RN, que possui uma das maiores
capacidades de geração renovável do país, convive hoje com cortes expressivos
de geração. Entre janeiro e 20 de julho deste ano, o indicador [de perda de
energia] chegou a 23,2% no Estado, acima da média nacional, de 19,1%. Estamos
diante de uma grande contradição: temos um dos melhores recursos renováveis do
mundo, investimentos realizados e parques instalados, mas parte dessa energia
deixa de ser aproveitada”, complementa Sérgio Azevedo.
Ele abordou também a retração dos investimentos e de novos projetos enquanto
causa para o cenário atual medido pelo ICER. “A suspensão anunciada de R$ 38,8
bilhões em investimentos renováveis no Nordeste é um alerta importante. No Rio
Grande do Norte, já observamos redução do pipeline de projetos, especialmente
no segmento solar”, analisa.
Sérgio Azevedo cita também a insegurança regulatória e a falta de
previsibilidade no setor. “Quando não existe clareza sobre as regras e sobre
como os problemas estruturais serão solucionados, o investidor posterga
decisões ou direciona recursos para outros mercados. Por fim, temos entraves
regulatórios e ambientais e uma crescente preocupação com a competitividade do
RN frente a outros estados”, indica. “Portanto, os 46 pontos não representam
apenas pessimismo. São um alerta de que o ambiente de negócios das energias
renováveis se deteriorou e exige respostas rápidas”, complementa.
O presidente da Associação Potiguar de Energias Renováveis (Aper), Williman
Oliveira, explica que quem mais sofre com os gargalos são os grandes projetos
centralizados. Ele defende uma rápida mobilização para a resolução dos problemas,
a fim de reverter também os índices de confiança em queda.
“São soluções que não acontecem do dia para a noite, mas é preciso resolver,
dentre outros aspectos, a questão da morosidade dos licenciamentos. E para isso
é preciso que todos trabalhem juntos, com a participação dos legisladores
locais”, pontua.
Darlan Santos, presidente do do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e
Energia (Cerne), avalia, por sua vez, que as medidas possíveis para reverter o
cenário no curto prazo já estão em execução, representadas pelo leilão para
aquisição e instalação de compensadores síncronos (equipamentos que aumentarão
a possibilidade de escoamento de energia e melhora na qualidade de energia) e a
proposta do Ministério de Minas e Energia (MME) sobre a compensação das perdas
pelas empresas.
“Importante destacar que, mesmo que ocorram outras ações, os impactos serão
sentidos apenas no prazo de, pelo menos, dois anos. A fim de amenizar questões
estruturais, apenas um planejamento de longo prazo e em conjunto com toda a
região Nordeste será suficiente, dado que não há solução prolongada em relação
a apenas um estado”, analisa Darlan Santos.
Perda de competitividade
De acordo com Sérgio Azevedo, da Coere/Fiern, o
principal risco para o setor de energias renováveis no RN, além das questões de
confiança, é o reflexo na competitividade que o estado construiu ao longo de
décadas. “Somos referência nacional em energia renovável e temos hoje 10,7 GW
eólicos e 2,1 GW solares em operação. Essa liderança trouxe investimentos,
empregos, arrecadação, desenvolvimento para o interior e uma cadeia empresarial
especializada. Mas liderança passada não garante investimento futuro”, falou.
“Se outros estados oferecerem maior segurança
jurídica, processos mais rápidos, infraestrutura adequada e melhores condições
para novos negócios, o capital irá para esses estados. E os efeitos não ficam
restritos às empresas de energia: atingem construção civil, engenharia,
fornecedores, serviços, logística, municípios, empregos e arrecadação. Nesse
aspecto, temos uma preocupação adicional. O RN ainda não possui uma
regulamentação específica e competitiva para atração de data centers e, no caso
dos sistemas de armazenamento por baterias, temos exigências e restrições que
podem nos colocar em desvantagem em relação a estados vizinhos”, destaca Sérgio
Azevedo.
Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico
do RN (Sedec) afirmou que o estado atua “de forma firme e contínua com o
objetivo de viabilizar a modernização e a ampliação da rede elétrica de
transmissão, buscando aumentar a capacidade de escoamento da energia gerada
pelos empreendimentos de fontes renováveis e, simultaneamente, proporcionar
maior segurança operacional e resiliência ao sistema elétrico”.
A pasta citou como exemplo de atuação a participação
do Estado no Grupo de Estudos da Transmissão (GET Nordeste), criado para
apresentar um diagnóstico regional e subsidiar o planejamento do
desenvolvimento energético. “Por meio do GET Nordeste, o RN acompanha dados de
carga, estudos de escoamento da energia gerada, obras necessárias e seus respectivos
volumes de investimento, leilões de transmissão, além das projeções de
carregamento de trechos críticos da rede de transmissão no Estado”, escreveu a
Sedec.

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