O Supremo Tribunal Federal (STF) continua no centro
dos debates eleitorais, num péssimo sinal de que se tornou um partícipe
importante do jogo político nacional. A direita, que engole a candidatura de
Flavio Bolsonaro por não ter alternativa melhor para tentar derrotar Lula,
circula nas redes o perigo de um quarto governo do petista pela possibilidade
de que ele possa vir a indicar mais quatro ministros para o STF, dominando
assim a maioria do plenário onde atualmente se decidem as questões fundamentais
do país.
Já foram decididas pelo Presidente da República,
quando o Executivo mandava e desmandava. Já foi o Legislativo o dono do jogo,
especialmente no período em que o então presidente Jair Bolsonaro, preocupado
com a preparação de tentativa de golpe, delegou ao Legislativo as decisões.
Veio daí a consolidação das emendas parlamentares como fonte de poder, e o
aumento inacreditável dessa receita que sangra os cofres públicos e enfraquece
o governo eleito pelo povo.
Agora o Supremo, com vários inquéritos contra
políticos, especialmente do Centrão, manipula os cordéis políticos a seu bel
prazer. Por isso é grave a informação do jornalista Caio Junqueira de que a
manobra dos partidos do Centrão de se anunciarem neutros na eleição
presidencial se deve também a uma pressão de setores do STF a favor de Lula,
com ameaças de que os inquéritos contra parlamentares andariam mais rápido se
eles apoiassem o candidato de oposição Flavio Bolsonaro.
A pesquisa Quaest encomendada pelo Grupo Globo
divulgada na sexta-feira, que mostra um empate técnico entre Lula e Flávio no
segundo turno, revela um comportamento do eleitor bastante fluído, voltando a
uma situação em que a avaliação do incumbente voltou a cair, apesar de todos os
programas sociais anunciados atabalhoadamente para respeitar o prazo legal. Não
dá para cravar a vitória de um ou outro, justamente porque os dois são
cancelados na mesma proporção por mais da maioria do eleitorado. Temos então
candidatos que são aceitos como tais por menos da metade dos eleitores, e
desses, cerca de dez por cento se diz disposto a não votar. Se não fosse
obrigatório o voto no Brasil, provavelmente teríamos uma ida às urnas com
índices baixíssimos.
A disputa pela soberania nacional, por exemplo, que
deverá ser um dos temas mais debatidos, diante do avanço da política externa
americana na América Latina, pode ser um trunfo para Lula, mas não a ponto de
aglutinar o apoio decisivo dos chamados eleitores independentes. Na eleição de
2022, o ambiente era outro. Termináramos um governo que se esforçou ao máximo
para reverter a ordem vigente, culminando com uma tentativa de golpe gestada
diuturnamente durante o governo. Lula tinha um papel talhado pela sua imagem de
líder popular: defensor da democracia, capaz de fazer um governo de união
nacional para resistir aos ataques.
Assim como é difícil para Flavio Bolsonaro hoje
convencer que ele é o membro da família mais equilibrado e democrático, é
difícil também para Lula insistir nessa história de união nacional, que não se
concretizou em seu terceiro governo. O PT continuou sendo hegemônico na
formação do estado brasileiro, e a linha populista de governo levou ao perigo
de uma crise econômica grave, como já aconteceu com o governo Dilma, conforme
alertou o economista Armínio Fraga.
A política externa continuou com uma clara tendência
à esquerda, o que leva a que o apoio do governo americano de Trump aos
Bolsonaro seja visto por parte da elite de direita como uma compensação às ações
do governo brasileiro. Numa região que, neste momento, tende à direita, pode
crescer entre os independentes a ideia de que essa onda direitista é o melhor.
Na América Latina, há 12 países governados pela direita, sendo que só na
América do Sul temos 7.
Merval Pereira - O Globo

Nenhum comentário:
Postar um comentário