Antes da mudança do delegado que coordenava as
investigações de desvios no Instituto Nacional do Seguro Social, a Polícia
Federal avançava na apuração de informações relacionadas aos negócios de Fábio
Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Lula. Para isso, a equipe de
investigadores marcou para o próximo dia 20 o depoimento da empresária Roberta
Luchsinger, investigada sob suspeita de intermediar pagamentos a Lulinha.
Procurada, a defesa de Lulinha afirmou que já se
colocou à disposição para prestar esclarecimentos e disse que ele não tem
relação com os desvios do INSS. “Acho que interessa ao Fábio e a nós todos que
esses esclarecimentos sejam feitos o quanto antes, sabemos que isso tem uma
dimensão eleitoral e não queremos permitir que isso seja usado porque o
comportamento do Fábio é muito diferentemente dos filhos do Bolsonaro. Essa
mudança de delegado seguramente não tem relação com esses fatos, o sigilo dele
foi vazado e ninguém conseguiu achar nada, pelo simples motivo que não tem
nada”, afirmou o advogado Marco Aurélio de Carvalho. A defesa de Roberta não se
manifestou.
A determinação para o depoimento de Roberta e de
outros investigados foi feita em abril, quando o inquérito ainda tramitava sob
o comando do delegado-chefe da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários.
No início deste mês, a PF tomou uma medida que substituiu o coordenador do
caso: tirou o inquérito dessa divisão e o enviou para a estrutura da
Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de
Dinheiro, onde tramitará sob o comando de outro coordenador.
O delegado substituído tinha o conhecimento completo
do caso, assinava peças da investigação, participava de depoimentos e também da
negociação de acordos de colaboração. Por isso, sua troca gerou desconfiança no
gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e em
políticos da oposição, que pediram esclarecimentos à PF.
Mas a equipe de delegados e agentes responsáveis
pelo caso foi mantida e manteve a colheita de depoimentos já agendada, seguindo
as linhas de investigação já definidas anteriormente. A cúpula da PF afirma que
a troca no comando do inquérito não vai impactar no andamento das investigações
e permitirá conceder maior estrutura ao caso, com a manutenção do restante da
equipe.
Em nota, a PF afirmou que decidiu transferir o
inquérito do INSS do setor no qual ele tramitava, a divisão de repressão a
crimes previdenciários, para a Coordenação de Inquéritos nos Tribunais
Superiores (CINQ/CGRC/DICOR/PF), dentro da área de repressão a corrupção,
crimes financeiros e lavagem. Com isso, o delegado que coordenava o caso acabou
sendo substituído. A PF afirma que fez a mudança para dar maior estrutura à
investigação.
“A transferência foi concebida para assegurar maior
eficiência e continuidade às investigações, uma vez que a CINQ (a nova área)
possui estrutura permanente voltada justamente à condução de operações
sensíveis e complexas com tramitação perante o Supremo Tribunal Federal.
Ressalta-se que não houve alteração na equipe que conduz as investigações”,
disse.
Lulinha na mira dos depoimentos
Nos depoimentos já colhidos, a equipe da Polícia
Federal tem realizado perguntas sobre os negócios de Lulinha. Procurada, a
defesa do filho do presidente afirmou que não há elementos de prova contra ele
no inquérito e segue à disposição para prestar esclarecimentos.
Os depoimentos do caso têm sido conduzidos pela
equipe de delegados que atuava na antiga equipe, mas já sem a participação
direta do antigo coordenador.
Fontes que acompanham os depoimentos afirmam que
alguns dos investigados foram questionados se tinham conhecimento sobre os
negócios de Lulinha com o empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS,
apontado como líder do esquema de desvios.
Um dos focos da PF tem sido apurar as circunstâncias
de uma viagem de Lulinha a Portugal, que ele mesmo admitiu ter sido bancada
pelo Careca do INSS. A defesa de Lulinha afirmou ao Supremo Tribunal Federal
(STF) que a viagem ocorreu para prospectar um negócio na área de cannabis
medicinal, mas que não foi concretizado e disse que Lulinha não firmou nenhum
contrato com o Careca do INSS.
Essa relação entre os dois deve ser aprofundada
ainda mais no depoimento de Roberta Luchsinger, marcado para ocorrer na próxima
semana. Inicialmente, como mostrou o Estadão, sua defesa havia optado por
apenas prestar depoimento por escrito e não comparecer perante um delegado, mas
os advogados mudaram de estratégia e pediram para que ela fosse ouvida.
Os investigadores devem perguntar a Roberta se
Lulinha fechou negócios na área de cannabis medicinal com o Careca do INSS e
recebeu pagamentos do empresário. A própria defesa de Lulinha disse que ela foi
a responsável por apresentá-lo ao empresário. Procurada, a defesa de Roberta
não se manifestou.
O Careca do INSS contratou Roberta para atuar como
lobista junto a órgãos do governo federal na área da cannabis medicinal e pagou
R$ 1,5 milhão a ela pelos serviços. Uma das suspeitas da investigação é que
parte do dinheiro servia como mesada a Lulinha. A informação foi apresentada à
PF por um ex-funcionário do Careca do INSS, que prestou depoimento e disse ter
ouvido dizer que o empresário pagava essa mesada ao filho do presidente.
As quebras de sigilo bancário das contas pessoais do
filho do presidente, porém, não demonstraram nenhum pagamento direto
proveniente do Careca ou de Roberta. Os investigadores ainda analisam o
conjunto das movimentações financeiras. A PF também está analisando os dados da
quebra do sigilo telemático.
Na petição enviada ao STF, Lulinha diz que foi
apresentado ao Careca do INSS por meio de sua amiga Roberta Luchsinger em 2024
“como um bem-sucedido empresário do mercado farmacêutico”. Lulinha afirma que
não tinha conhecimento, na ocasião, da atuação dele junto ao INSS.
“Era com esse ANTÔNIO CAMILO, suposto empresário de
sucesso da área farmacêutica e parceiro comercial de sua amiga, que o
peticionário teve relação esporádica e de natureza social. FÁBIO LUÍS jamais
firmou qualquer tipo de relação comercial com ANTÔNIO CAMILO, tampouco tinha
conhecimento sobre fraudes no INSS ou outras ilegalidades”, afirmou a defesa ao
STF.
A PF intimou mais de 30 investigados para prestar
depoimento sobre os desvios no INSS, mas parte deles optou por não falar. O
trabalho ainda está em curso e a expectativa é que, depois dessas oitivas, a PF
finalize uma primeira parte do inquérito sobre os desvios.
Agência de viagens
Uma das suspeitas da apuração, como revelou o
Estadão, é que os pagamentos do Careca do INSS a Roberta tiveram como destinatário
final uma agência de viagens usada por Lulinha.
Seus advogados, porém, já afirmaram ao STF que os
pagamentos dela à agência de viagens foram anteriores ao contrato firmado com o
Careca do INSS.
“Se por um lado seria absolutamente risível a tese
de que se tentou ‘lavar dinheiro’ por meio de viagens ao exterior - o que
representaria a fruição do valor e não sua circulação para fins de ocultação ou
dissimulação - por outro, vê-se que a premissa adotada no relatório e vazada à
imprensa é absolutamente falsa”, afirmou a petição da defesa, protocolada após
a reportagem do Estadão.
Blog Fausto Macedo - Estadão

Nenhum comentário:
Postar um comentário