terça-feira, 19 de maio de 2026

Oposição planeja estratégia eleitoral em 4 Estados do Nordeste e PT pode perder hegemonia

 


A oposição nos Estados governados pelo PT no Nordeste já definiu os principais “telhados de vidro” que devem ser explorados na tentativa de impedir o partido de manter seu domínio no Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Bahia.

O principal deles será a segurança pública, uma área em que o PT sempre patinou. Os quatro Estados superaram a taxa média de homicídios dolosos do Brasil em 2024, que ficou em 16,64 mortes por 100 mil habitantes, segundo o Mapa da Segurança Pública 2025, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O Piauí registrou taxa de 17,3, enquanto a do Rio Grande do Norte foi de 18,46 e a da Bahia, de 28,32. O Ceará obteve a pior taxa do País, de 34,42 mortes por 100 mil habitantes.

Procurado, o governo da Bahia disse que “trata a redução da violência letal como compromisso permanente, com metas, monitoramento e prestação de contas” (veja a íntegra da resposta mais abaixo). Os demais Estados não responderam.

Duas das capitais, Fortaleza e Salvador, aparecem entre os cinco municípios com maiores números de homicídios dolosos em 2024. Além disso, Bahia (40,6) e Ceará (37,5) ocupam, respectivamente, a segunda e terceira colocação entre os Estados com mais mortes violentas por 100 mil habitantes, segundo os dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2025.

Mesmo antes do início formal da campanha os dados negativos já são explorados por oposicionistas nas redes sociais.

Principal adversário de Jerônimo Rodrigues (PT) ao governo da Bahia, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) ataca a política de segurança do petista. “Eu tenho rodado o interior da Bahia e ouvido relatos que tiram o sono. O medo chegou onde antes as portas ficavam abertas, as crianças brincavam na rua e as famílias viviam com tranquilidade. Isso não é exagero. É a vida real de muitas cidades baianas”, disse em vídeo postado nas redes sociais.

 Na avaliação de aliados de ACM Neto, essa é a melhor oportunidade que o grupo tem contra o PT, que pode vencer a sexta eleição consecutiva para o governo do Estado. “Eles já estão há 20 anos no poder e todos os indicadores sociais pioraram”, disse o deputado federal Paulo Azi (União-BA). “É o campeão nacional de mortes violentas. Na Bahia morrem muito mais gente do que em São Paulo e no Rio de Janeiro, Estados muito maiores que a Bahia.”

Pesquisa Genial/Quaest divulgada no final de abril mostra empate técnico entre os dois. Neto aparece numericamente à frente, com 41% dos votos ante 37% de Jerônimo. A margem de erro é de três pontos porcentuais.

No Ceará, o discurso é parecido. Principal adversário do governador Elmano de Freitas (PT), o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) se alinhou ao bolsonarismo no Estado para tentar derrotar o petista. Uma das principais fragilidades que ele explora em seus discursos também é a crise na segurança pública cearense.

“As facções tomaram conta do Estado. O Ceará subiu para um dos primeiros Estados do Brasil no cometimento de crimes”, disse o pré-candidato durante ato de campanha no Ceará neste final de semana.

Pesquisa da Genial/Quaest também do final de abril mostra outro cenário de empate técnico, mas apenas quando o adversário é o ex-ministro da Educação Camilo Santana. Num eventual segundo turno, Camilo aparece com 44%, ante 39% de Ciro. Quando a simulação é com Elmano, o tucano tem 46%, ante 35% do petista.

Bahia e Ceará aparecem entre os Estados com piores indicadores de segurança pública. O tema também é explorado pela oposição ao governo Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte.

“Estamos assistindo o pior governo do Rio Grande do Norte. A criminalidade, a marginalidade, o tráfico de drogas rola solto aqui no RN. Os cidadãos inseguros, as facções tocando o terror, incendiando ônibus, promovendo assaltos continuamente sem que o governo do Estado tenha uma ação eficiente e coloque a polícia nas ruas”, disse Álvaro Costa Dias (PL), candidato do bolsonarismo no Estado.

O deputado General Girão (PL-RN) vê desgaste natural “enorme” de Fátima Bezerra. “Os índices de educação são os piores possíveis do Brasil já há mais de três anos. Os índices da economia idem, o Estado está cheio de buracos nas estradas”, afirma.

Ele também cita o aumento do endividamento do Estado na gestão Bezerra. “O governo (do ex-presidente Jair) Bolsonaro pagou corretamente o fundo de participação dos Estados. Agora, nem com o pagamento de dívidas que ela (Fátima) tem, dívidas com a Previdência, que o governo federal resolveu ajudar ela pagando precatórios, nem com isso daí ela tá conseguindo acertar as dívidas, as contas do Estado. Por quê? Porque ela gasta mais do que arrecada”, afirma.

O Rio Grande do Norte possui a situação mais delicada para o PT nos quatro Estados. O vice-governador rompeu com Fátima Bezerra, que agora trabalha para emplacar o ex-secretário da Fazenda Cadu Xavier, que aparece atrás nas pesquisas. Levantamento do Real Time Big Data de dezembro mostra o prefeito de Mossoró Allyson Bezerra (União) na frente, com 42% das intenções de voto, seguido pelo também oposicionista Álvaro Dias (17%). Cadu Xavier tem 11%.

“Segurança pública será o principal tema praticamente em todas as eleições estaduais. Agora isso pode ter um efeito ampliado nesses Estados porque não pega só as gestões estaduais do PT mas atinge o presidente Lula, porque o partido governa a nível nacional”, afirmou Marco Antônio Carvalho Teixeira, cientista político da Fundação Getulio Vargas.

Dos quatro Estados, o Piauí tem a situação menos preocupante para o partido e mais difícil para a oposição. Além de ter os melhores indicadores entre esses quatro Estados, o atual governador, Rafael Fonteles (PT), lidera as pesquisas de intenção de votos com sobras e tem propostas do campo da da segurança pública como carro-chefe de campanha.

Um deles é um novo esquema de investigação que permitiu recuperar milhares de celulares roubados e abaixou os números de roubos e furtos na capital e no interior do Estado.

O grande case de sucesso piauiense incorporado pelo governo federal foi o programa Protege Celular, iniciado em janeiro de 2023, que rastreia e identifica celulares furtados e reduziu os dados relativos a esse tipo de crime no Estado. Inspirado por essa iniciativa, o governo federal lançou o programa Celular Seguro em dezembro de 2023.

Como resultado dos bons números divulgados das iniciativas piauienses, o então secretário de Segurança Pública do Estado, Chico Lucas, virou secretário nacional de Segurança Pública no Ministério da Justiça no começo deste ano.

No Piauí, a oposição trabalhará com a principal mensagem de que há um Estado vendido na TV e nas redes sociais e há o Estado real. “O que a gente está fazendo é o seguinte. A gente vai assentar no problema que o governador vende uma imagem que não existe”, disse o deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI).

Oposicionistas mencionam como principais críticas a lentidão da construção do porto de Luís Correia e sobre as promessas de campanha sobre o hidrogênio verde. “O porto inaugurou mas sem nada, sem estrutura. O hidrogênio verde, que seria a maior sensação do Piauí, que daria um passo no mundo, e nunca aconteceu, nunca deu no papel”, afirmou.

A oposição está dividida entre dois principais nomes neste momento: pleiteiam o cargo no Piauí o ex-prefeito de Floriano Joel Rodrigues (PP) e o jornalista Toni Rodrigues (PL). A situação é muito favorável para o PT no Estado. Pesquisa AtlasIntel de março indica vitória no primeiro turno para Fonteles, que aparece com 57% das intenções de voto.

A pesquisa não analisou um cenário com Joel Rodrigues. “Nosso candidato é imponderável. Pode dar certo. Se cair na graça popular, pode dar certo. Quem quer ele é o povo”, disse Arcoverde.

Para Vitor Sandes, cientista político da Universidade Federal do Piauí (UFPI), parte do sucesso de Fonteles se deve ao fato de ele avançar em temas que o PT deixa de lado. “Ele adota aspectos do lulismo no campo social, mas avança em temas mais caros à direita, como a segurança pública e desenvolvimento”, disse. “Os investimentos em segurança deram certo porque virou uma marca da campanha logo no início.”

Governo da Bahia rebate críticas

Por meio de nota, o governo da Bahia disse que não comenta estratégias eleitorais. A administração estadual informou, no entanto, que “trata a redução da violência letal como compromisso permanente, com metas, monitoramento e prestação de contas”.

O governo informa ainda ter ampliado o efetivo policial, a estrutura, a tecnologia, a inteligência e a presença territorial. A administração estadual sustenta ainda que em 2025 a Bahia “registrou redução de 13,1% nas mortes violentas, o melhor resultado dos últimos 19 anos, e Salvador alcançou o menor número de mortes violentas dos últimos 25 anos”. O mesmo movimento de redução teria ocorrido no início deste ano.

Estadão

 

 

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