Aprovado no 8.º Congresso Nacional do PT, sob
aplausos de sua ao mesmo tempo assustada e tinhosa militância, o manifesto do
partido foi apresentado como uma bússola para o País. Nada mais petista do que
o que se viu naquele encontro, realizado em Brasília. O documento tem título
curioso – “Construindo o futuro” –, ao projetar-se para adiante enquanto
revisita longamente o passado sob domínio da legenda. Combina, de forma
previsível, o triunfalismo em torno do que Lula teria realizado com o alerta de
tom sombrio sobre o que pode nos acontecer caso ocorra o que, para a
companheirada, seria impensável: sua derrota em outubro. Fala em longo prazo
com retórica inflamada, mas permanece preso ao curtíssimo prazo – a reeleição
do presidente. O futuro, aqui, não passa de um nome elegante dado a uma
necessidade imediata.
A leitura do manifesto não tarda a revelar o roteiro
conhecido. Logo de saída, o PT se entrega ao que sabe fazer como poucos: um
longo, minucioso e quase obsessivo arrazoado comparativo entre o terceiro
mandato de Lula e a gestão de Jair Bolsonaro. Páginas e páginas são dedicadas a
reiterar a velha cantilena de que o País foi entregue em frangalhos, devastado,
destruído, uma terra arrasada que só agora estaria sendo reconstruída sob a
liderança iluminada do lulopetismo. Há, evidentemente, fatos que não podem ser
ignorados. O governo Bolsonaro promoveu desmontes relevantes, sobretudo em
educação, ciência e meio ambiente, com custos reais. Também é justo reconhecer
resultados pontuais do atual governo. Mas nada disso autoriza o exagero de
pintar o Brasil pré-2023 como cenário apocalíptico.
É nesse ponto que emerge o velho vício petista,
cultivado desde 2003 como tradição: a “herança maldita”. A lógica é simples. Se
o governo vai bem, o mérito é do PT; se vai mal, a culpa é sempre do
antecessor. Foi Fernando Henrique Cardoso ontem, é Jair Bolsonaro hoje, será
qualquer outro amanhã. Trata-se de um expediente tão repetido que já não
convence além dos convertidos. Ao recorrer mais uma vez a essa muleta retórica,
o partido revela menos sobre o passado que critica e mais sobre o presente que
tenta justificar.
Esse padrão se completa com o maniqueísmo de sempre.
Na cosmologia petista, o mundo segue dividido entre o bem (o próprio partido) e
o mal, ocupado por qualquer adversário. Não há nuances nem autocrítica, apenas
a reafirmação de uma superioridade moral que, de tanto repetida, já perdeu
eficácia. O problema é que o tempo passou. Lula está em seu terceiro mandato, o
PT acumula décadas no centro do poder, e a insistência em se apresentar como
vítima de heranças alheias soa cada vez mais deslocada. Um governo que ainda
precisa se explicar pelo passado revela, por contraste, a dificuldade de
sustentar um legado próprio.
Quando o manifesto se volta ao futuro, o quadro
pouco muda. A lista de propostas é extensa, mas familiar. Passa por
reindustrialização conduzida pelo Estado, protagonismo estatal em setores
estratégicos, planejamento econômico robusto e soberania produtiva. Tudo
embalado em linguagem atualizada, mas ancorado no repertório de sempre. É o
desenvolvimentismo clássico reapresentado como novidade. Falta-lhe, sobretudo,
concretude. Nesse vazio, cresce a impressão de que o governo Lula 3 ainda não
encontrou suas próprias marcas. Administra, reage, ajusta, mas não imprime
direção clara. Longe de dissipar essa percepção, o manifesto acaba por
cristalizá-la.
Não por acaso, o texto surgiu “amaciado”,
desidratado de temas espinhosos. Evitam-se conflitos, suavizam-se formulações,
calibram-se palavras, de modo a conciliar a grita habitual da militância do
partido enquanto seus morubixabas tentam compensar as agruras políticas do
atual mandato à construção de alianças convenientes País afora. O objetivo é
não criar ruídos desnecessários, para não comprometer o projeto central. Qual
projeto? A reeleição, naturalmente.
No fim, o manifesto cumpre o papel involuntário de
expor o esgotamento de uma fórmula e escancara a dificuldade do lulopetismo de
sair de si mesmo. O futuro que anuncia não chega a ser uma promessa. É, quando
muito, uma reprise, cuidadosamente empacotada, mas reconhecível desde as
primeiras linhas.
Opinião do Estadão

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