sábado, 9 de maio de 2026

Opinião do Estadão: A AGU testa a paciência do Brasil

 


Há muito tempo, os integrantes das carreiras jurídicas do serviço público deixaram de se enxergar como parte de uma estrutura maior submetida aos princípios republicanos para agirem como uma casta de intocáveis. Os doutos parecem convencidos de que toda vantagem possível, sobretudo pecuniária, lhes é devida. Para sustentá-la, basta uma fina demão de verniz técnico-normativo. O escândalo envolvendo a Advocacia-Geral da União (AGU) e seu Conselho Curador de Honorários Advocatícios (CCHA), publicado pelo Estadão, é a manifestação mais recente desse ethos extrativista que corrói a própria essência do que é servir ao País.

Como publicamos, o CCHA, entidade privada que administra os honorários de sucumbência pagos à advocacia pública federal, ampliou tanto o rol de benefícios como de beneficiários do auxílio-saúde pago aos membros da AGU e seus familiares. Pela nova regra, seriam passíveis de reembolso, pasme o leitor, despesas com academia e práticas esportivas, medicamentos não contínuos e até fertilização in vitro – e não só para os servidores, como também para seus cunhados, sogros, noras e genros, entre outros “parentes por afinidade”. No espírito “se colar, colou”, o CCHA só suspendeu a esbórnia diante do escândalo causado pela reportagem deste jornal.

A extravagância parte de um pecado original, qual seja, a compreensão distorcida segundo a qual os honorários de sucumbência – pagos pela parte contrária ao final de ações vencidas pela União – pertenceriam aos advogados públicos, não ao Tesouro. Isso é uma aberração conceitual. Os membros da AGU, a começar por seu chefe, Jorge Messias, não atuam como advogados privados remunerados pelo êxito em causas particulares. São servidores públicos, aprovados em concurso e remunerados pelos contribuintes para representar judicialmente a União. Não faz sentido que o dinheiro obtido em litígios envolvendo o interesse público seja apropriado por servidores que recebem excelentes salários justamente para exercer essa função.

Para piorar, ao mesmo tempo em que o CCHA tentava ampliar os penduricalhos da AGU, avançava na Câmara a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 17/2024, que visa a conceder autonomia administrativa e orçamentária à Advocacia Pública, tratada nos artigos 131 e 132 da Constituição. Se aprovada, a PEC garantirá repasses mensais em duodécimos à AGU e às Procuradorias-Gerais dos Estados (PGEs). Ademais, reduzirá drasticamente a capacidade de controle do Poder Executivo sobre esses órgãos. Mais bem dito: a AGU e as PGEs estariam livres das poucas amarras que ainda as mantêm sob algum controle da Presidência da República e dos governos estaduais.

A ofensiva para consolidar esse poder independente não parou por aí. A Câmara também aprovou a admissibilidade de um projeto de lei que autoriza os advogados públicos federais a exercer advocacia privada fora do expediente. É a institucionalização do “bico”. É difícil imaginar algo mais imoral do que membros da AGU, que já gozam de estabilidade, altos salários, honorários de sucumbência e penduricalhos diversos, terem a possibilidade de auferir renda adicional na iniciativa privada, o que seria uma usina de conflitos de interesses.

Este jornal não ignora que as carreiras jurídicas do serviço público, todas elas, são relevantíssimas para o tônus do Estado Democrático de Direito. Tampouco se discute aqui a importância de uma remuneração digna para os servidores, compatível com suas responsabilidades. O busílis é que essa contrapartida já existe – mas, ao que parece, é vista como insuficiente. O que a elite do funcionalismo parece almejar é uma condição de aristocracia burocrática praticamente imune ao teto constitucional e ao escrutínio público, decerto por se sentir amparada por uma suposta legalidade formal que mal disfarça a engenharia de benesses para a qual foi concebida.

A administração pública não pode operar sob o signo da esperteza. Há medidas que até podem passar por uma interpretação conveniente das normas, mas fracassam fragorosamente no teste da decência pessoal e da moralidade pública. E sem o freio moral, a autonomia reivindicada seguramente será convertida em instrumento para aprofundar privilégios incompatíveis com a mera ideia de República.

Opinião do Estadão

 

 

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