A semana política brasileira foi dominada por um
único assunto: o áudio em que o senador Flávio Bolsonaro cobra do banqueiro
Daniel Vorcaro, preso por suspeita de fraudes bilionárias no Banco Master, o
financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A revelação do
Intercept Brasil consumiu praticamente toda a cobertura jornalística,
monopolizou os debates nas redes sociais e virou combustível para uma avalanche
de análises, repercussões internacionais e especulações eleitorais. Enquanto
isso, a pergunta que ficou sem resposta na maioria das redações foi: o que
aconteceu do outro lado do tabuleiro?
Aconteceu muita coisa. Na terça-feira (12), o
presidente Lula assinou uma Medida Provisória revogando a chamada "taxa
das blusinhas", o imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$
50 que ele mesmo sancionou em 2024. Uma medida que, em quase dois anos,
arrecadou cerca de R$ 10 bilhões aos cofres públicos e que agora, a cinco meses
das eleições, foi convenientemente enterrada. O próprio Lula, que defendeu a
taxação, passou a chamá-la de "desnecessária". A mudança de discurso
é evidente: o que era política fiscal virou cálculo eleitoral, e mais de 50
entidades da indústria e do comércio brasileiro já haviam alertado que a
revogação pode custar empregos e bilhões em perdas para o setor produtivo
nacional.
No mesmo dia, durante o lançamento do programa
"Brasil Contra o Crime Organizado", Lula fez declarações que em
qualquer outro contexto teriam dominado o noticiário. O presidente culpou
abertamente o Poder Judiciário pela insegurança no país, afirmando que "as
polícias prendem os bandidos e uma semana depois o bandido está solto".
Foi além: disse que o crime organizado "muitas vezes está no Poder
Judiciário e no Congresso Nacional". São falas gravíssimas de um chefe de
Estado, que atacam diretamente a independência entre os Poderes, mas que
passaram quase despercebidas em meio ao frenesi midiático em torno de Flávio
Bolsonaro.
E como se não bastasse, na mesma semana, a Justiça
determinou a soltura do dono do perfil Choquei, Raphael Sousa Oliveira, preso
havia quase um mês na Operação Narcofluxo. A defesa sustenta que ele prestava
serviços publicitários legítimos, e o próprio STJ reconheceu excesso na prisão.
Um influenciador digital com milhões de seguidores, preso em unidade de
segurança máxima por quase 30 dias, solto com medidas cautelares brandas. Um
caso que levanta questionamentos sérios sobre proporcionalidade e liberdade de
expressão, mas que, mais uma vez, foi engolido pela cobertura massiva do caso
Vorcaro.
O padrão se repete e já é conhecido: quando a
esquerda precisa aprovar medidas impopulares, recuar de promessas ou
simplesmente agir sem holofotes, basta que surja um escândalo envolvendo a
direita para que toda a atenção da imprensa se volte para o outro lado. Não se
trata de defender ou absolver Flávio Bolsonaro, que deve, sim, prestar
esclarecimentos à sociedade. Trata-se de cobrar equilíbrio. Jornalismo de
verdade não é escolher qual escândalo cobrir com base em preferência
ideológica. É cobrir todos eles, com a mesma intensidade, ao mesmo tempo.
Porque enquanto o país inteiro olhava para um áudio, Lula revogava impostos por
conveniência eleitoral, atacava o Judiciário e o sistema soltava um preso de
alta repercussão sem que quase ninguém notasse.

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