A grande surpresa do longo e pouco empolgante
pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão
gasto quanto capcioso para tentar explicar as recentes derrotas no Congresso e
a dificuldade de implementar sua agenda de governo: na falta de outra
justificativa, o presidente resolveu culpar o “sistema”.
Não dá para colocar na conta de um desabafo
circunstancial tamanha inflexão política e retórica. Afinal, se há um político
que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é
Luiz Inácio Lula da Siva. Ele refundou um sindicato, fundou uma central
sindical, depois um partido, foi candidato em quase todas as eleições
presidenciais desde a redemocratização, foi deputado constituinte… Na última
campanha, fez um apelo justamente ao “sistema”, encampando a defesa de
instituições que haviam sido atacadas, perseguidas ou enfraquecidas por Jair
Bolsonaro.
No cenário internacional, Lula tem tentado se
diferenciar de Donald Trump e similares ao pregar o fortalecimento de
organismos multilaterais, justamente o “sistema” erigido após a Segunda Guerra
Mundial para reconstruir a governança global e reconfigurar as relações entre
países e blocos geopolíticos.
Tudo o que o PT e a esquerda vêm denunciando nas
últimas eleições é o risco de fatias cada vez maiores do eleitorado serem
seduzidas por discursos que pregam a redução drástica do Estado e dos impostos
ou soluções fáceis e baseadas na apologia do individualismo, justamente por
parte daqueles aventureiros que usam a lábia “antissistema” com forte apelo nas
redes sociais.
Portanto, cabe entender que sistema é esse de que
Lula se queixa por não deixá-lo governar. Suas recentes derrotas graves no
Congresso se devem ao fato de, além de não ter conseguido eleger coalizão
majoritária, ter perdido apoio ao longo dos anos, por uma ruptura cada vez
maior entre sua agenda e a do Parlamento.
Isso pode até incomodar Lula, mas atribuir um dos
pilares de qualquer democracia — a divisão de Poderes e o papel do Legislativo
como parte da tomada de decisões — a um complô de um sistema obscuro é
simplificador e denota enorme vazio de ideias e de capacidade de reação por
parte dele.
O outro pilar da democracia é o voto, e as pesquisas
mostram que Lula ainda lidera, mas enfrenta enormes dificuldades na busca do
quarto mandato. Começar, a cinco meses da eleição, a enxergar fantasmas para
explicar o humor do eleitor não é nem de longe um caminho de fortalecimento da
institucionalidade. Basta lembrar que o último presidente que se vendeu como
antissistema, e trabalhou de fato para levar o arcabouço institucional ao
colapso, chegou a colocar em dúvida a lisura das eleições.
A falta de governabilidade de Lula tem várias
razões, todas elas concretas: o descasamento de sua vitória e da escolha de
Câmara e Senado predominantemente conservadores, a ineficiência da articulação
política montada pelo próprio Lula, sua capitulação diante do deslocamento de
poder do Executivo ao Legislativo graças às emendas, a arrogância de achar que
poderia enfiar um nome como Jorge Messias goela abaixo de um Senado com esse
perfil, e por aí vai.
O presidencialismo de coalizão implica negociação
constante com um Congresso cada vez mais fragmentado. A dificuldade não é nova
nem exclusiva deste mandato, mas tende a ser crescente. Nos mandatos
anteriores, Lula operou com habilidade dentro desse mesmo “sistema” e terminou
seu segundo governo com níveis recordes de aprovação, superiores a 80%.
As principais mudanças desde então foram, além da
farra das emendas, o deslocamento da mobilização política das ruas e sindicatos
para as redes sociais e a guinada conservadora da sociedade brasileira. Lidar
com essas variáveis é o que se espera de qualquer um que deseje comandar o país
e inseri-lo num mundo igualmente sujeito a essas condições.
Ao se colocar como vítima de “forças ocultas” que
não o deixam entregar resultados, Lula acaba investindo contra a política
formal em que foi forjado e prosperou. Dos vários sinais de enfraquecimento que
vem dando, esse é um dos mais notáveis.
Vera Magalhães - O Globo

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