Anthony Medeiros
Colaborador
no Seridó
Uma comemoração religiosa que terminou em tragédia
completou, em 2026, 52 anos. No último dia 13 de maio, Currais Novos relembrou
a morte de 24 pessoas que participavam da procissão de Nossa Senhora de Fátima,
padroeira do bairro Paizinho Maria. Um ônibus desgovernado da empresa Princesa
do Seridó atingiu o cortejo, deixando, também, mais de 70 pessoas feridas e um
desfecho trágico para um momento, até então, de fé e religiosidade. Atualmente,
a via onde o acidente aconteceu tem o nome da data da tragédia: Avenida 13 de
maio. Ela significava o início - ou final - do perímetro urbano para os que
trafegam pela BR-226.
No local onde “tombaram” as primeiras vítimas da colisão, foi instalado um
memorial com uma cruz e o nome de todas as vítimas fatais. Anualmente, um grupo
se reúne na data para orar pelas vítimas. Anteriormente, era realizada uma
missa, que foi substituída para a recitação do terço.
Neste ano, a homenagem teve início às 5h30, com pouco mais de 20 pessoas
reunidas. Geralda Souza, aposentada de 86 anos, conta que não viu o momento da
colisão. Ela disse ter ido ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima com dois de
seus filhos, quando recebeu a notícia da tragédia.
A volta até sua casa, localizada em frente ao local onde o acidente aconteceu,
foi rápida e tensa. Quando chegou, relatou que ninguém de sua família tinha
sido atingida, mas se deparou com uma cena difícil de esquecer. “Era um
silêncio. Não tinha ninguém agonizando. Quem estava perto, ficou paralisado.
Tinha pedaço de gente em todo canto e um sangue que se espalhou por toda a
via”, relata.
Ela relembra que o socorro chegou rápido. Seu marido deixou o filho mais novo
do casal, com um ano à época, sozinho em casa e foi até o Centro do município
avisar do que tinha acontecido. O socorro chegou de diversas formas. Foi
montada uma força-tarefa, recebendo profissionais da saúde de cidades como
Acari, Jardim do Seridó, Caicó e da capital. A cidade não tinha estrutura de pessoal,
nem de material. Mui Muitos dos itens utilizados no socorro dos sobreviventes
também foram doados por municípios vizinhos.
O governador da época, o currais-novense Cortez Pereira, doou os caixões de
todas as vítimas para o sepultamento, realizado no dia seguinte. A informação é
que o ônibus, perdeu o freio e o motorista, devido à via não contar com
acostamento, não conseguiu desviar para lugar algum.
A TRIBUNA DO NORTE noticiou o ocorrido à época numa reportagem do dia seguinte
com relatos do acontecido. “A polícia montou um forte dispositivo em torno do
Hospital-Maternidade (local onde as vítimas foram levadas) para evitar a
balbúrdia ao mesmo tempo que se procurava organizar os socorros médicos de
maior urgência, inclusive no tocante à doação de sangue, registrando as cenas
de maior solidariedade, pois toda a população parecia entrar em fila para
doar”, diz a matéria.
O sepultamento das vítimas também foi um momento marcante. Os mortos foram
colocados em caixões em frente à igreja Matriz de Sant’Ana. Cenário de comoção
e profunda tristeza na celebração, comandada pelo bispo Dom Manoel Tavares. O
pároco local, padre Ausônio Araújo, estava na procissão e, segundo testemunhas,
foi puxado por um popular e conseguiu escapar.
Para Dona Geralda, o local vai sempre carregar uma lembrança de dor e
sofrimento. Apesar de não ter perdido nenhum familiar, a experiência de viver
aquele dia é algo que reverbera todo mês de maio com a chegada da festa da
padroeira. Religiosa, ela segue auxiliando nas visitas da imagem da padroeira,
que segue a mesma utilizada na procissão de 1974.
O que ela pede é que as novas gerações não esqueçam a data e que demonstrem
mais respeito pelas vítimas.. “Os mais novos não tem noção do que aconteceu, as
vezes nem sabem o que houve aqui. Foi uma imagem que não vai sair nunca da
minha mente, ver a procissão terminar daquela forma”, disse.

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