A dificuldade para contratar e reter trabalhadores
tem atingido principalmente os setores de serviços, comércio e construção
civil, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getúlio Vargas. No Rio Grande do Norte, representantes dessas áreas ouvidos
pela TRIBUNA DO NORTE afirmam que o cenário acompanha a tendência nacional e
apontam entre os principais fatores para o problema a baixa qualificação da mão
de obra, migração de profissionais para outras áreas, mudança no perfil das
novas gerações, além de maior exigência das empresas e baixa atratividade de algumas
vagas.
Os dados do IBRE/FGV constam no estudo “Sondagens Empresariais: Escassez de mão
de obra”, publicado em janeiro deste ano, e foram levantados junto às empresas
das bases das Sondagens Empresariais da instituição. Em 2025, segundo o
levantamento, mais de 60% de todos os empreendimentos consultados, com exceção
das associadas à Indústria de Transformação, relataram desafios com a escassez
de mão de obra.
O setor com o maior percentual de empresas que afirmaram ter problemas para
contratar ou reter funcionários foi o da construção, com 69,1%, que também
registrou o maior aumento em relação a 2024. Na sequência, aparecem comércio
(65,5%) e serviços (64,8%).
A diretora-executiva do Sinduscon-RN, Ismália Carvalho, esclarece que a
realidade no Estado acompanha a tendência nacional de dificuldade na
contratação e retenção de mão de obra na construção. O problema é motivado,
dentre outros pontos, pelo déficit de formação técnica e profissional, pela
migração de trabalhadores para outras atividades econômicas e mudanças no
perfil das novas gerações em relação ao mercado de trabalho.
“Nos últimos anos, a construção civil voltou a apresentar crescimento,
ampliação de investimentos e aumento da demanda por obras, o que naturalmente
elevou a necessidade de profissionais qualificados em diferentes áreas da
cadeia produtiva. No entanto, o setor enfrenta desafios importantes
relacionados à formação, capacitação e permanência dessa mão de obra”, destaca
a diretora-executiva.
Apesar do Sinduscon/RN não dispor de um levantamento sobre a escassez de mão de obra no Estado, Ismália Carvalho afirma que o problema tem impactado diretamente prazos, custos e produtividade das obras das empresas associadas à instituição.
No Sistema Nacional de Emprego (SINE) do Rio Grande do Norte, o setor de
construção civil está entre os principais responsáveis pelo volume de vagas
ofertadas no Estado. Contudo, as oportunidades são as menos procuradas pelos
candidatos. É o que aponta o coordenador da Subsecretaria do Trabalho e Emprego
da Secretaria do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (SETHAS) do
Estado, Eduardo Barbosa.
“O empregador está cada vez mais exigente na hora da contratação para cargos
específicos. O SINE oferta vagas de variados perfis e, de modo geral, a
dificuldade está alicerçada na qualificação profissional necessária para
ocupação do cargo”, completa o subsecretário.
Eduardo Barbosa ressalta que o cenário não está restrito ao setor de construção
civil, sendo possível observar maior exigência técnica em áreas do setor de
serviços. Para vagas como a de garçom e atendente, por exemplo, ele destaca que
as empresas têm buscado cada vez mais funcionários com habilidades para
manusear ferramentas digitais.
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio)
do Rio Grande do Norte, Marcelo Queiroz, observa que os obstáculos para
contratar e reter mão de obra não apenas no setor de serviços, mas também de
comércio, resulta de um conjunto de fatores. Além da necessidade de fortalecimento
de políticas de qualificação profissional, a escassez de mão de obra pode ser
explicada pela melhora do mercado de trabalho local.
“A taxa de desemprego no Rio Grande do Norte caiu pela metade, de 13,5% para
6,7%, na comparação entre os últimos quatro meses de 2018 e o mesmo período de
2025. Em um ambiente de economia em crescimento, com menor desemprego, a
escassez de mão de obra tende a aumentar. Além disso, a economia potiguar vem
gerando empregos de forma contínua há cinco anos”, esclarece.
Na avaliação da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtas)
de Natal, por outro lado, a vacância em algumas funções também é motivada pela
falta de atratividade para manter o interesse dos profissionais. Neste ano, a
pasta aponta que as oportunidades com maior dificuldade de preenchimento no
Sine Natal são as que oferecem salários baixos, remuneração por hora trabalhada
e maior tempo de experiência profissional.
A Semtas não deixa de considerar, contudo, que o baixo nível de instrução permanece
sendo um desafio para muitos setores: “De maneira geral, empresas que oferecem
melhores salários, jornadas de trabalho mais atrativas e benefícios adicionais
conseguem preencher suas vagas com maior rapidez. Da mesma forma, trabalhadores
com maior nível de formação e experiência comprovada tendem a se inserir mais
rapidamente no mercado de trabalho”.
Formação e conexão com o setor produtivo
O diretor de educação profissional do Serviço
Nacional de Aprendizagem Comercial do Rio Grande do Norte (Senac/RN), Leandro
Trigueiro, reitera que a dificuldade de ocupação de vagas no mercado de
trabalho é motivada, sobretudo, pela falta de qualificação profissional. Ele
destaca, no entanto, que a exigência já não é mais apenas pelo conhecimento
técnico, mas também pela presença de competências comportamentais.
O diretor aponta que aspectos como comunicação, postura e forma de se
apresentar influenciam diretamente na percepção dos recrutadores sobre os
candidatos durante entrevistas e seleções. Aliado a isso, atualmente existem
ferramentas de avaliação que auxiliam as empresas na análise simultânea das
competências técnicas e comportamentais dos profissionais.
Para o presidente da Fecomércio, Marcelo Queiroz, o fortalecimento de políticas
de qualificação profissional, com cursos mais alinhados às necessidades reais
das empresas, além da ampliação de parcerias entre o setor produtivo e
instituições de ensino, é fundamental para incentivar a contratação e retenção
de mão de obra. “Também é importante estimular a formação continuada, a
inclusão produtiva dos jovens e a valorização de trajetórias que facilitem a
entrada e a permanência no mercado de trabalho”, completa.
Uma perspectiva semelhante é repercutida pela diretora-executiva do
Sinduscon-RN, Ismália Carvalho. Segundo ela, o Sindicato mantém parceria
constante com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Estado
(SENAI-RN) para promoção de cursos, capacitações e formação de profissionais
voltados às necessidades reais da construção civil. Aliado a isso, a entidade
vem desenvolvendo iniciativas para valorização da construção civil como um
setor que oferece oportunidades reais de crescimento profissional e
desenvolvimento de carreira.
No âmbito estadual, o coordenador da Subsecretaria do Trabalho e Emprego da
Sethas, Eduardo Barbosa, aponta que atualmente a pasta está trabalhando no
desenvolvimento de uma plataforma moodle, com o objetivo de ofertar cursos de
qualificação na modalidade EAD e ampliar a oferta de cursos de qualificação.
“Também seguimos em uma busca contínua de parcerias para aumentar a oferta de
capacitação e garantir que os trabalhadores potiguares estejam prontos para
ocupar as vagas que são ofertadas”, destaca.
Em Natal, a Semtas conta com um departamento específico voltado ao planejamento
e à execução de cursos de qualificação profissional. As principais áreas
contempladas são de imagem pessoal, alimentação, serviços, informática e
administração. Aliado a isso, a pasta desenvolve o projeto EJA Qualifica,
realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SME).
“A iniciativa integra cursos de qualificação profissional às atividades da
Educação de Jovens e Adultos (EJA), ofertadas nas escolas da rede municipal,
ampliando as oportunidades de formação e inserção no mercado de trabalho para
os participantes”, aponta.

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