segunda-feira, 20 de abril de 2026

Thomas Traumann - O Paradoxo da Mobilidade: o filho da faxineira ganhou diploma, não achou emprego e está frustrado com Lula

 


Toda campanha do PT tem uma propaganda mostrando um jovem que se tornou o primeiro de sua família a ter um diploma universitário. O slogan “o filho da faxineira virou doutor” exemplifica os impressionantes resultados dos programas educacionais de expansão do ensino técnico, ProUni, política de cotas e Fies, criados nos governos Lula 1 e 2. Uma pesquisa exclusiva Genial/Quaest indica, no entanto, que o governo Lula 3 está pagando pela desilusão dos doutores filhos de faxineira.

De acordo com a pesquisa, eleitores que ascenderam estão mais insatisfeitos com o governo Lula e com os rumos do país do que aqueles que não tiveram avanço.

— É o paradoxo da mobilidade. Esses eleitores tiveram uma forte ascensão de status, porém não vivenciaram ascensão de classe. Eles se beneficiaram de importantes iniciativas governamentais, mas, ao contrário do que imaginavam, não acharam um lugar no mercado de trabalho. Eles investiram tempo e energia para ter um diploma, mas isso não lhes garantiu um salário melhor, apenas frustração. É verdade que o filho da faxineira virou doutor, mas ele não conseguiu emprego na sua área e sobrevive como motorista de aplicativo — afirma Felipe Nunes, diretor da Quaest.

A pesquisa usou uma premissa conhecida da sociologia, a de que a diferença de educação entre a mãe e seu filho e filha é um indicador de mobilidade social. As escolaridades de mães e filhos foram convertidas para uma escala numérica de 1 (analfabeto) a 10 (ensino superior), na qual o avanço entre as duas gerações seria considerado alto se fosse igual ou maior que 5, médio de 3 a 4, nulo de zero a 2 e negativo se o filho ou filha tivesse estudado menos que a mãe.

A pesquisa mostrou que 22% dos eleitores tiveram mobilidade alta; 24% média, 47% nula e 7% negativa. Isso significa que 46% dos eleitores superaram a escolaridade de suas mães — dado revelador tanto da desigualdade na educação como do esforço das novas gerações em estudar.

Compare as opiniões dos que tiveram mobilidade alta, os mais beneficiados pelas políticas públicas dos governos anteriores, com aqueles que não tiveram ascensão:

Situação econômica é pior que esperava

Mobilidade alta: 47%

Sem mobilidade: 33%

Situação econômica é melhor que esperava

Mobilidade alta: 51%

Sem mobilidade: 66%

Políticas públicas do governo não lhe ajudam em nada

Mobilidade alta: 34%

Sem mobilidade: 33%

Políticas públicas do governo ajudam tanto a você quanto a maioria da população

Mobilidade alta: 29%

Sem mobilidade: 33%

Avaliação negativa do governo Lula

Mobilidade alta: 49%

Sem mobilidade: 41%

Avaliação positiva do governo Lula

Mobilidade alta: 23%

Sem mobilidade: 34%

O Brasil está na direção certa

Mobilidade alta: 29%

Sem mobilidade: 38%

O Brasil está na direção errada

Mobilidade alta: 65%

Sem mobilidade: 55%

Os resultados desta pesquisa são muito ruins para a campanha de reeleição de Lula, porque indicam que a atual crise de popularidade não é um problema de comunicação, um mau humor momentâneo com os preços nos supermercados ou um problema que pode ser resolvido com mais gasto público. A decepção desta geração é estrutural.

O PT viveu um momento comparável em 2013, quando um protesto da esquerda radical contra o aumento do preço das passagens de ônibus se transformou em gigantescas manifestações populares. À época, o marqueteiro João Santana concluiu que o brasileiro médio estava satisfeito com os bens de consumo que havia comprado nos governos do PT, mas irritado com os serviços básicos de saúde, transporte e educação. Havia um evidente sentimento de fadiga de material depois de três governos petistas, e a solução de Santana foi fazer a própria campanha da reeleição de Dilma Rousseff se dizer a favor das mudanças. O slogan da campanha foi “mais mudanças, mais futuro”. Deu certo inicialmente, Dilma conseguiu se reeleger, mas a frustração popular foi canalizada para a campanha do impeachment.

 Lula tem hoje um desafio similar, mas, depois de 18 anos de governos do PT, não pode se dizer o candidato antissistema. A sua campanha terá de entender a desilusão do primeiro doutor da família da faxineira.

Thomas Traumann - O Globo

 

 

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