Enquanto os holofotes das campanhas eleitorais
brilham sobre as cores vibrantes das vestimentas ciganas e as audiências
públicas produzem fotos impecáveis para redes sociais, a realidade no Rancho
dos Ciganos, em Tangará (RN), é pintada com tons de lama, exclusividade e
abandono.
Há mais de um quarto de século, a comunidade Calon
de Tangará resiste. Não é uma resistência poética de livros de história, mas
uma sobrevivência brutal. São 25 anos vivendo em barracas de
lona e madeira, sem o básico para a dignidade humana. Quando as nuvens carregam
e a chuva cai, o que para muitos é alívio, para essas famílias é o início de um
pesadelo: a lama invade os lares, as doenças proliferam e a insegurança se
torna vizinha de quarto.
A Voz das Mulheres: O Relato da Dor Real
Recentemente, a União dos Ciganos deu
um passo decisivo. Através de um vídeo contundente, as mulheres da comunidade
quebraram o silêncio. São elas que sentem na pele a dificuldade de manter a
higiene dos filhos sem saneamento, que tentam proteger o pouco que têm da fúria
das águas e que veem seus maridos e anciãos serem ignorados pelo poder público.
“Nossa cultura é usada para dar destaque a político em época de eleição, mas quando a urna fecha, a lona da nossa barraca continua rasgada”, relata uma das lideranças, evidenciando o uso oportunista da identidade cigana.
Um Ciclo de Promessas Vazias
O histórico de Tangará com a comunidade cigana é um
museu de grandes novidades que nunca chegam.
- Em
2019, sob a gestão de Jorginho Bezerra, a II
Audiência Pública prometia “discussão habitacional”.
- Em
gestões anteriores, como as de Gija e Alcimar
Germano, comitivas, secretarias de assistência social e representantes da
Defesa Civil visitaram o local.
- Homenagens
e datas comemorativas rendem placas e
discursos bonitos na Câmara Municipal, mas o chão onde as crianças brincam
continua sendo o barro batido e insalubre.
Cultura que Resiste, Estado que Omite
O Rancho de Tangará é um território de história
e saberes. Ali se preserva a espiritualidade, a língua e a tradição de um
povo que ajuda a construir a identidade do Rio Grande do Norte. No entanto, o
reconhecimento cultural não pode servir de anestesia para a falta de
infraestrutura.
A pergunta que fica para as autoridades municipais,
estaduais e para o Ministério Público é: Até quando a tradição será
usada como desculpa para a negligência? Viver em barracas por opção
cultural é uma coisa; viver em condições sub-humanas por falta de políticas
habitacionais é violação de direitos humanos.
O Que a Comunidade Exige:
1.
Dignidade Habitacional: Projetos
concretos de moradia que respeitem a cultura cigana, mas garantam saneamento e
proteção contra as chuvas.
2.
Acesso Real a Serviços: Saúde
e educação que cheguem ao acampamento de forma efetiva, não apenas em visitas
esporádicas.
3.
Fim do Uso Político: Que
a cultura Calon seja respeitada o ano todo, e não apenas em maio (Mês do
Cigano) ou em anos de eleição.
As famílias do Rancho dos Ciganos de Tangará não
querem mais homenagens em papel. Elas querem teto, chão firme e
respeito. A história viva de Tangará está gritando por socorro. Quem vai
ter a coragem de, finalmente, ouvir?

Nenhum comentário:
Postar um comentário