sexta-feira, 17 de abril de 2026

Se algum médico pedir esses exames de rotina, é melhor desconfiar; saiba os motivos e confira a lista

 


Pedir exames faz parte da prática médica, afinal, são eles que ajudam a confirmar hipóteses, afastar diagnósticos e orientar condutas. O problema começa quando os exames deixam de ser ferramenta clínica para se tornarem um “negócio”, especialmente em consultórios que também vendem a solução: soroterapia, implantes hormonais, fórmulas manipuladas e protocolos personalizados com a promessa de um atendimento mais centrado no perfil do paciente.

Nos últimos anos, especialmente com o avanço das redes sociais, uma série de exames laboratoriais ganhou popularidade fora das indicações tradicionais. Na maioria das vezes, eles são solicitados para investigar sintomas inespecíficos como cansaço, queda de libido, desânimo, dificuldade para emagrecer ou “falta de energia”. O roteiro costuma ser parecido: uma bateria extensa de testes, a identificação de um “desequilíbrio” e, em seguida, a oferta de reposições hormonais, vitaminas injetáveis ou combinações manipuladas.

O problema é que, do ponto de vista da medicina baseada em evidências, vários desses exames não têm indicação validada em diretrizes clínicas para os fins com que vêm sendo utilizados. E o prejuízo nem sempre é apenas financeiro. Resultados fora da faixa de referência, mesmo sendo clinicamente irrelevantes, podem levar a novas investigações, rótulos desnecessários e tratamentos com potenciais efeitos adversos. Em vez de simplificar, o excesso pode medicalizar sintomas comuns da vida moderna.

O endocrinologista André Gonçalves, superintendente do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) e professor na mesma instituição, fez um post em sua rede social chamando a atenção para esse movimento. “Tem sido cada vez mais comum a solicitação ampla de múltiplos exames sem um contexto clínico adequado. Isso é vendido como medicina personalizada, medicina ortomolecular, medicina de alta performance. Os nomes vão mudando, mas, na prática, é a mesma coisa”, afirma. Segundo ele, muitas vezes os exames são pedidos de forma genérica, seguindo praticamente o mesmo roteiro para todos os pacientes, apesar do discurso de individualização.

A endocrinologista Karen de Marca, presidente-eleita da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), relata ter se deparado recentemente com uma situação que ilustra o fenômeno. “Uma pessoa da minha família estava se preparando para engravidar e me mostrou uma lista de exames que pediam dosagem de endorfina, resveratrol, ômega-3. Perguntei: ‘Isso é uma prescrição?’. Ela respondeu que a ginecologista que fala de fertilidade no Instagram diz que é preciso dosar esses itens para garantir o desenvolvimento do feto.”

Karen destaca que, além de não terem nenhuma indicação clínica para investigação de fertilidade, esses exames muitas vezes não são cobertos pelos planos de saúde.

Custo além do bolso

De acordo com os especialistas, o impacto no bolso do paciente não é o único. “Às vezes, o paciente acha que não está gastando porque o plano de saúde cobre. Mas o custo daquele exame é diluído no cálculo atuarial. Se o médico pede exames indiscriminadamente, o custo para todos os usuários aumenta”, explica Gonçalves.

Karen vai além: “Quando são pedidos muitos exames, podemos encontrar alterações que, na maioria das vezes, não têm nenhum significado clínico. Aí o profissional diz que o paciente está com deficiência de ‘x’ nutriente, prescreve manipulado, protocolo da clínica, infusão”.

“Tudo que for vendido como protocolo clínico, desconfie”, alerta a médica. “Sair pedindo tudo na expectativa de encontrar e vender a solução parece ser incompetência ou abuso.”

Tarcila Campos, nutricionista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, observa que os exames inespecíficos se tornaram ferramenta de marketing também no campo da nutrição, especialmente para quem busca resultados estéticos.

“Hoje o exame virou agregador de valor. Parece que quanto mais eu procuro, mais eficiente será o tratamento. Mas, muitas vezes, o paciente não está fazendo o básico: não dorme bem, não se alimenta direito, não faz atividade física.”

Ela lembra que a prática baseada em evidências começa por uma boa anamnese. “Menos é mais. O exame não substitui a conversa, o entendimento do contexto daquela pessoa.”

A seguir, especialistas citam alguns exames que têm sido pedidos sem contexto clínico e explicam por que não devem ser solicitados de rotina.

1- T3 reverso

O T3 reverso é uma forma inativa do hormônio T4 (tiroxina). A tireoide produz principalmente o T4, que no organismo é convertido em T3 (a forma ativa, responsável por regular o metabolismo). Em algumas situações, porém, o corpo transforma o T4 em T3 reverso, que tem estrutura semelhante, mas não exerce efeito biológico relevante. Essa conversão costuma aumentar em contextos de doença grave, infecções importantes ou estresse metabólico, como parte de um mecanismo de adaptação para reduzir o gasto energético.

“Ele costuma aparecer na síndrome do eutireoidiano doente e visa poupar energia diante de uma doença aguda. Mas ele não define hipotireoidismo ou hipertireoidismo, por isso não tem indicações para ser dosado de rotina. O que define desordem na tireoide é TSH (hormônio tireoestimulante) e T4 livre”, explica Karen.

2- Serotonina plasmática

A serotonina é um neurotransmissor associado à regulação do humor, sono, apetite e bem-estar. Na prática médica, a dosagem de serotonina plasmática tem indicação bastante específica, como na investigação e no acompanhamento de tumores neuroendócrinos (especialmente a síndrome carcinoide). “Não é um exame validado para diagnosticar depressão, ansiedade ou ‘falta de felicidade’, nem para orientar suplementação de serotonina”, alerta Gonçalves.

Alguns medicamentos com efeito antidepressivo são inibidores de recaptação de serotonina, ou seja, aumentam a disponibilidade de serotonina no espaço entre os neurônios (fenda sináptica) — daí essa ligação com bem-estar e felicidade. “Mas isso não significa que sua dosagem no sangue diagnostique depressão. Os pacientes que têm dosado serotonina têm sido submetidos à reposição de serotonina no soro com a promessa de melhorar o desânimo, a tristeza”, diz.

3- Cortisol para ‘medir estresse’

O cortisol é um hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais e desempenha papel central na resposta ao estresse. Diante de uma situação desafiadora, seja ela física ou emocional, o organismo ativa o chamado eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, aumentando a liberação de cortisol para mobilizar energia, elevar a glicose no sangue e preparar o corpo para reagir.

Embora o estresse possa elevar temporariamente seus níveis, o cortisol varia naturalmente ao longo do dia (é mais alto pela manhã e cai à noite), e sua dosagem isolada no sangue não é um método confiável para “medir estresse”. O exame tem indicação específica para investigar doenças hormonais, como síndrome de Cushing ou insuficiência adrenal, e não para quantificar o estresse do cotidiano. “O estresse pode elevar o cortisol, mas não existe diretriz que mande dosar cortisol para quantificar estresse”, diz Karen.

4- Testosterona em mulheres para ‘deficiência’

A dosagem de testosterona em mulheres tem indicação restrita e deve ser pedida com cautela. Diferentemente dos homens, mulheres produzem pequenas quantidades desse hormônio, e os métodos laboratoriais nem sempre são precisos para medir níveis tão baixos. O exame costuma ser útil principalmente quando há suspeita de excesso de andrógenos, como na investigação de síndrome dos ovários policísticos ou tumores produtores de hormônio. Já para diagnosticar uma suposta “deficiência de testosterona” feminina, muitas vezes associada a queixas como baixa libido ou cansaço, não há critério bem estabelecido.

“Talvez esse seja o tema mais recorrente. A gente não consegue nem definir o que seria um hipoandrogenismo feminino”, explica Karen. Segundo ela, queixas como baixa libido e indisposição precisam ser avaliadas no contexto. “Na maioria das vezes, é queda de estrogênio ou desordem da tireoide.” Gonçalves complementa que os resultados baixos acabam sendo usados para justificar reposição hormonal, incluindo implantes e fórmulas manipuladas.

5- Lítio

A dosagem de lítio é indicada principalmente para monitorar pacientes que usam medicamentos com o elemento no tratamento de transtorno bipolar e outras condições psiquiátricas. Como o lítio tem uma faixa terapêutica estreita (a diferença entre dose eficaz e dose tóxica é pequena), o controle periódico no sangue é fundamental para garantir segurança e eficácia.

“Fora desse contexto, não há recomendação para medir lítio de rotina nem para investigar supostas deficiências, já que não existe parâmetro clínico estabelecido para reposição e o excesso pode causar efeitos adversos importantes, como alterações renais e neurológicas”, diz Gonçalves.

Tarcila alerta para o risco da suplementação sem indicação. “Se eu encontro uma suposta ‘deficiência’ de lítio, o que faço com isso? Não temos estudos que orientem dose, segurança ou benefício. E existe risco de toxicidade.”

6- Selênio, cobre, alumínio

A dosagem rotineira de minerais como selênio e cobre raramente tem indicação clínica para a população geral. A investigação costuma ser indicada apenas quando há suspeita de deficiência nutricional importante (como em casos de desnutrição grave ou após cirurgia bariátrica) ou de exposição e intoxicação, especialmente ocupacional ou ambiental.

Segundo os especialistas, se a pessoa não tem restrição alimentar (não é vegana, por exemplo), não há por que o médico imaginar que ela tenha deficiência de múltiplos minerais, por isso não faz sentido pedir esses exames.

Tarcila ressalta que para pessoas sem sintomas ou fatores de risco claros, esses exames não são recomendados como rastreamento, pois pequenas variações nos níveis laboratoriais nem sempre têm significado clínico e podem levar a suplementações desnecessárias ou potencialmente prejudiciais. “Preciso ter um contexto clínico muito claro antes de prescrever uma suplementação. Mesmo em pessoas com alimentação precária é difícil ter deficiência de selênio”, diz.

7- Marcadores tumorais

Marcadores tumorais são substâncias, geralmente proteínas, que podem estar aumentadas no sangue em alguns tipos de câncer, mas não são exames de rastreamento para a população geral. Eles costumam ser usados principalmente para acompanhar a evolução da doença em pacientes que já têm diagnóstico confirmado, ajudando a monitorar a resposta ao tratamento ou detectar recidiva.

“Marcador tumoral não é exame de rotina. Quando solicitados sem indicação clínica clara, podem gerar resultados falso-positivos, ansiedade e uma cascata de exames desnecessários”, diz Karen. Dosagens de CA-125, CEA, CA 19-9, por exemplo, devem ser usadas no seguimento de quem já teve câncer ou em investigação direcionada, não como rastreamento genérico.

8- Tolerância à lactose e anticorpos para doença celíaca

O teste de tolerância à lactose deve ser solicitado somente quando há sintomas ou suspeita clínica consistente. Ele costuma ser indicado diante de queixas como distensão abdominal, gases, dor e diarreia após o consumo de leite e derivados, e não como rastreamento em pessoas assintomáticas.

O mesmo vale para a investigação de doença celíaca, que envolve a dosagem de anticorpos específicos no sangue e é recomendada quando há sinais como diarreia crônica, anemia inexplicada, perda de peso ou histórico familiar.

Fazer esses exames sem sintomas pode levar a diagnósticos equivocados e restrições alimentares desnecessárias. “Não faz sentido pedir para quem não tem sintoma nenhum. Virou moda fazer dieta sem glúten como se todo mundo tivesse intolerância. Não é assim que se investiga”, diz Karen.

Papel do paciente

Os especialistas reconhecem que é difícil para o paciente distinguir o que é necessário do que é excesso na lista de exames. Mas alguns sinais podem servir de alerta:

listas extensas e padronizadas (aquelas com quadradinho em que o médico assinala com um ‘X’);

indicação de fazer o exame no próprio consultório;

promessa de “protocolo” ou “equilíbrio hormonal”;

associação direta entre resultado e venda de tratamento.

“A gente não pode ganhar em cima de prescrição médica. Se o médico disser ‘faça aqui na minha clínica’, já é um sinal de alerta”, diz Karen. Para Tarcila, a chave continua sendo o básico. “Fazer mais exames não significa ter mais saúde. Ainda resolvemos muita coisa com arroz e feijão, sono adequado e atividade física.”

Estadão

 

 

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