O preenchimento da vaga aberta no Supremo Tribunal
Federal (STF) pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso deveria ser uma
oportunidade para o País refletir, com maturidade e espírito público, sobre os
limites de atuação e a qualidade da composição de sua mais alta corte de
Justiça. Mas, lamentavelmente, se o debate em torno da indicação de Jorge
Messias tem servido para algo, é para escancarar um jogo de interesses no qual
o que menos conta é justamente o interesse público.
A indicação do advogado-geral da União pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi mais um passo em direção ao
abastardamento de um relevantíssimo rito constitucional. Há tempos, presidentes
da República, não apenas Lula, subordinam a escolha dos ministros ao
corporativismo do próprio Supremo, às conveniências políticas do governo de
turno e ao apetite pantagruélico de parte do Congresso por rentáveis cargos na
administração pública federal. Com a indicação de Messias, a despeito de sua
notável desqualificação para o cargo, Lula levou esse processo ao paroxismo.
Comecemos, então, pelo descompromisso do presidente
com o País. Lula já verbalizou que entende o Supremo como um prolongamento da
arena política, sobretudo como um contraponto às dificuldades que o Executivo
enfrenta num Congresso majoritariamente oposicionista. Não foi por outra razão
que o petista, ao fazer suas três indicações no atual mandato, privilegiou a
lealdade pessoal e o traquejo político em detrimento do notável saber jurídico
e da reputação ilibada, requisitos expressos na Constituição. Ademais, Lula
instrumentalizou o preenchimento das vagas em prol da representação de seus
interesses estratégicos no STF. Em suma: suas escolhas são orientadas por um
projeto pessoal de poder.
Antes o problema se esgotasse aí. No Senado,
instituição incumbida de sabatinar e aprovar o indicado pelo presidente, o
processo tampouco é digno da confiança da sociedade. Há poucos dias, o jornal O
Globo revelou o preço, digamos assim, da eventual aprovação de Messias pelos
senadores: a colonização de um naco da administração pública federal pelo grupo
político liderado pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). No
balcão dessa feira antirrepublicana estariam dezenas de cargos em agências
reguladoras e órgãos estratégicos do Estado, como a Comissão de Valores Mobiliários
(CVM) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Mais uma vez, o
Brasil vem em último lugar. Os interesses nacionais – vale dizer, a regulação
eficiente das atividades econômicas, a livre concorrência e a estabilidade do
mercado financeiro – tornam-se menores diante da cobiça do sr. Alcolumbre.
Como se nada disso bastasse, é igualmente
perturbador o comportamento de ministros do próprio STF. Ao defender pública e
enfaticamente a aprovação de Messias numa mídia social, o ministro Gilmar
Mendes rompeu todos os limites que separam sua opinião particular sobre o
advogado-geral da União e sua responsabilidade como autoridade do Estado
brasileiro. É indigno da posição de decano do STF acossar o Senado da República
de forma tão desabrida, afirmando que a Casa “saberá analisar” os “múltiplos
atributos” de Messias. Que tipo de guardião da Constituição é esse? A ser
tolerado esse tipo de comportamento, que então o rito constitucional seja
reescrito e o processo de aprovação dos indicados passe a ser o escrutínio de
seus currículos pelo gabinete de Sua Excelência o decano.
Como Lula e Davi Alcolumbre, Gilmar Mendes não é um
ator desinteressado. Em meio à mais grave crise de credibilidade do STF,
provocada por alguns de seus próprios ministros que se deixaram enredar por uma
teia de conflitos de interesses, discute-se a adoção de um código de conduta
capaz de restaurar parâmetros mínimos de decência na Corte. A resistência
liderada pelo sr. Mendes é notória. Nesse sentido, sua defesa da aprovação de
Messias soa menos como valorização da excelência jurídica na Corte e mais como
estratégia de cooptação de um novo aliado nessa guerra intestina em curso no
Supremo.
Como se vê, o centro decisório do País parece estar
loteado por conveniências políticas que nem remotamente se alinham com o melhor
interesse público. E assim a Constituição segue como mera referência teórica,
traída até por seus maiores intérpretes.
Opinião do Estadão

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