Na tentativa de mitigar os efeitos da guerra travada
por EUA e Israel contra o Irã sobre os preços dos combustíveis, o governo Lula
vem ampliando um pacote de bondades composto por renúncias fiscais e subvenção
extra ao preço do diesel e do gás de cozinha.
Mundo afora, diversos governos têm adotado medidas
para reduzir o impacto da disparada do preço do petróleo, o que é
compreensível, já que a forte alta da commodity pressiona toda a cadeia
econômica, nacional e global. É o preço que se paga pelo fechamento do Estreito
do Ormuz, por onde passa parte relevante da produção mundial de petróleo.
Logo, ainda que sempre caibam críticas ao governo
petista por gastar desenfreadamente como se eventos como a covid-19 e o
conflito no Irã fossem permanentes, e que haja dúvidas quanto à eficácia do
grosso das medidas propostas até aqui, reconhece-se que o governo não poderia
ficar sem nada fazer.
Ocorre que a emergência da guerra coincide com a
queda da popularidade de Lula, que tentará um quarto mandato presidencial nas
eleições de outubro. Nesse cenário, o conflito no Irã serve de desculpa para
que o governo também tente melhorar seu potencial de votos entre as camadas da
população que lhe são refratárias, como as classes de rendas média e alta.
Não é por outro motivo que o recém-empossado
ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, anunciou uma linha de crédito
bilionária para as companhias aéreas. O governo também zerou as alíquotas de
PIS e Cofins sobre o querosene de aviação (QAV).
“Recentemente, alcançamos recorde no número de
passageiros no transporte aéreo, e o governo tem a preocupação de manter essa
trajetória de crescimento e da conectividade regional”, tentou justificar
Franca.
Além de ter impacto incerto sobre o humor do eleitor
– é com o voto que o governo está realmente preocupado –, segurar o preço das
passagens aéreas pode prejudicar os mais pobres, que acabarão pagando a conta
mesmo sem andar de avião.
Especialistas apontam ainda para as distorções que
essa intervenção pode causar sobre o sistema de preços de passagens aéreas, que
podem se alongar no tempo. Nesse caso, melhor seria deixar que os preços se
ajustassem à realidade momentânea.
A guerra e seus efeitos não durarão para sempre,
enquanto preços que não refletem o valor real de um serviço, como voar de
avião, podem se converter numa questão de difícil resolução no longo prazo.
Ademais, a pressão para que um governo em busca de
reeleição estenda o prazo de medidas transitórias – e custosas – não deve ser
desprezada.
Por fim, há também o risco de que setores que, ao
contrário do aéreo, ainda não foram contemplados no pacote de bondades
lulopetista busquem os mesmos privilégios. O governo joga um jogo perigoso ao
escolher segmentos vencedores e perdedores da economia, abrindo brechas para
mais demandas.
Enroscado com a queda de sua popularidade, Lula se
arrisca ao empurrar para os mais pobres o custo de medidas que estão
extrapolando o próprio escopo. E há sinais de que há muitas outras a caminho.
Opinião do Estadão

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