Nem a militância petista mais ingênua pode ter
dúvida de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um incorrigível pregador
de si mesmo. Sua lealdade é invariavelmente submetida ao cálculo de dividendos
e prejuízos políticos que cada circunstância lhe oferece. Foi assim no mensalão
e na Lava Jato, quando o demiurgo petista não hesitou em entregar aos leões a
companheirada encalacrada para conter, tanto quanto possível, o risco de
contaminação. Essa memória é essencial para compreender a entrevista que ele
concedeu recentemente ao canal ICL Notícias, na qual, ao tentar se proteger,
Lula revelou mais do que gostaria.
Ao comentar o escândalo do Banco Master, as
estripulias do banqueiro Daniel Vorcaro e suas ramificações no Supremo Tribunal
Federal (STF), Lula afirmou ter aconselhado o ministro Alexandre de Moraes a
declarar-se impedido: “Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia”.
Acrescentou que desvios devem recair sobre indivíduos, e não sobre o tribunal,
e foi além: “Se o cara quer ficar milionário, não pode ser ministro do
Supremo”. E, ao tocar no ponto sensível, lembrou: “Mas a sua mulher estava
advogando”.
A suspeição é evidente. A mulher de Alexandre de
Moraes, Viviane Barci de Moraes, prestou serviços milionários ao Banco Master,
posteriormente liquidado sob suspeita de fraudes. Ainda assim, o ministro segue
atuando em temas ligados ao caso, amparado pela complacência de seus pares e
pela crença militante de que a autoproclamada “defesa da democracia” autoriza
ignorar conflitos evidentes.
A fala de Lula é, no fundo, o reconhecimento de que
o desgaste do STF e o avanço do caso Master terão impacto direto na disputa
presidencial. Mas não há, aqui, qualquer súbito despertar ético. Lula não
mudou. O que mudou foi o risco. Com o instinto de quem atravessou décadas de
crises, Lula percebeu que o escândalo deixou de ser periférico e ganhou
contornos de crise sistêmica, com potencial de atingir não apenas ministros da
Corte, mas o próprio ambiente político que sustenta sua reeleição. Some-se a
isso o fato de que, além de Moraes e Dias Toffoli, orbitam o caso lideranças do
Centrão, governadores e nomes associados ao próprio PT.
Diante desse cenário, Lula moveu-se com rapidez. Ao
aconselhar Moraes a preservar a biografia, não defende a moralidade pública nem
propõe depuração institucional. Demarca distância. No limite, envia um recado
inequívoco: se houver naufrágio, cada um cuide do seu bote.
O efeito colateral é potencialmente devastador. Ao
admitir que ministros do STF podem ter ultrapassado limites éticos, e ao
associar a toga à incompatibilidade com o enriquecimento, Lula implode a
narrativa construída pelo consórcio político-institucional que orbita o Supremo
e o Palácio do Planalto. Durante meses, vendeu-se a ideia de que críticas à
Corte eram ataques à democracia. Agora, é o próprio presidente quem sugere o
contrário: o problema pode estar em condutas individuais que exigem escrutínio.
A tentativa de separar o tribunal de seus membros é
correta em tese, mas nasce viciada. Lula não age para proteger a instituição,
mas para proteger-se. Sua preocupação não é a credibilidade do STF nem a
reputação de Moraes. É o impacto eleitoral de um escândalo que pode crescer
rapidamente. Em síntese, o recado ao ministro é claro: não comprometa a
campanha.
Há ainda um elemento adicional. Ao tornar público
esse distanciamento, Lula parece antecipar-se a um possível desdobramento mais grave,
que é uma eventual delação premiada de Daniel Vorcaro. Habituado a crises, o
presidente sabe que escândalos dessa natureza seguem uma lógica própria e que
todo tsunami começa com uma onda de uns poucos centímetros. O caso Master reúne
todos os ingredientes de uma tempestade política de grandes proporções: fluxos
financeiros opacos, proximidade com o poder e potenciais revelações explosivas.
Lula percebeu o risco e mudou de posição. Resta saber se a manobra será
suficiente ou se apenas confirma a dimensão da crise que se tenta evitar.
Opinião do Estadão
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