Um levantamento do Tribunal de Contas do Estado
(TCE-RN) revela um cenário preocupante sobre a transparência das emendas parlamentares
no Rio Grande do Norte. Nenhum dos 168 portais analisados, incluindo o do
Governo do Estado e os das 167 prefeituras, atende integralmente às exigências
estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para dar publicidade ao uso
desses recursos.
Cidades como Mossoró, Extremoz, Canguaretama, Areia
Branca e Guamaré estão na lista daquelas com nota 0. Outras grandes cidades,
como Natal e Parnamirim, aparecem com desempenho baixo quanto à transparência
sobre as emendas parlamentares.
O diagnóstico foi feito a partir da análise das
plataformas oficiais sob o critério de transparência ativa, ou seja, aquilo que
deve estar disponível de forma clara e acessível ao cidadão. E o resultado
acende um alerta: se as falhas não forem corrigidas, a execução das emendas
parlamentares pode ser comprometida já a partir de 2026.
Transparência incompleta
Embora a maioria das prefeituras — 76,2% — tenha
criado uma área específica para divulgar informações sobre emendas, o conteúdo
apresentado é, na prática, insuficiente. Em pontos considerados essenciais, a
ausência de dados é generalizada.
Nenhum dos portais municipais informa, por exemplo,
o cronograma de execução das emendas. Também não há identificação dos órgãos
responsáveis pela execução dos recursos. Na prática, isso impede que o cidadão
saiba quando uma obra começa, quem está executando e em que estágio ela se
encontra.
Outro dado chama atenção: nenhum portal apresenta
informações sobre emendas parlamentares municipais. Em um cenário em que esse
tipo de recurso deveria ser cada vez mais transparente, a ausência completa de
registros levanta dúvidas sobre a existência ou não dessas emendas — ou sobre
sua divulgação.
Ranking da opacidade
Os dados do TCE permitem identificar, de forma
objetiva, os municípios com pior desempenho em transparência sobre emendas
parlamentares. No recorte mais crítico, dezenas de cidades aparecem com 0% de
atendimento aos critérios avaliados, ou seja, não cumprem nenhum dos requisitos
mínimos.
Abaixo, as maiores cidades do RN com os piores
resultados:
- Mossoró
- Extremoz
- Canguaretama
- Areia
Branca
- Guamaré
- Pedro
Velho
- Acari
- Serra
Negra do Norte
- Lagoa
de Pedras
- Passagem
Na prática, esses municípios não oferecem ao cidadão
qualquer informação estruturada sobre a destinação e execução de emendas
parlamentares.
Além deles, cidades de maior peso também apresentam
desempenho crítico. Mossoró, por exemplo, aparece com 0% de atendimento,
enquanto Parnamirim registra apenas 12,5% e Natal, 43,8% — todos abaixo do
mínimo esperado para garantir transparência efetiva.
Ranking baixo, mesmo entre os melhores
Mesmo entre as prefeituras com melhor desempenho, o
nível de transparência ainda está longe do ideal. Os municípios de Ipueira e
São Francisco do Oeste lideram o ranking do TCE, mas com apenas 56,2% de
atendimento aos critérios avaliados.
O próprio Tribunal é direto ao afirmar que nenhuma
prefeitura está apta, neste momento, a cumprir plenamente as exigências
estabelecidas.
Estado também apresenta falhas
O portal do Governo do Estado apresenta um
desempenho superior ao dos municípios, mas ainda assim incompleto. O
levantamento aponta que cerca de 73,3% dos critérios são atendidos.
As lacunas, no entanto, são relevantes. Faltam
informações sobre a vinculação das emendas à Lei Orçamentária, a indicação
precisa das localidades beneficiadas e os prazos de execução. Também não há
detalhamento de instrumentos jurídicos, como contratos ou convênios
relacionados às despesas.
Essas ausências dificultam o rastreamento dos
recursos e limitam o controle social sobre a aplicação do dinheiro público.
Emendas “invisíveis”
Um dos pontos mais sensíveis do relatório é a
ausência total de informações sobre emendas parlamentares municipais nos
portais analisados. Apenas uma parcela mínima das prefeituras declara
oficialmente que não recebeu esse tipo de recurso. Nos demais casos, não há
qualquer informação.
Diante disso, o próprio TCE reconhece a necessidade
de aprofundar a fiscalização para verificar se essas emendas de fato não
existem ou se não estão sendo divulgadas. A situação abre margem para um
cenário de opacidade que contraria diretamente as determinações do STF.
Risco para 2026
As falhas identificadas ganham ainda mais peso
diante das regras que passam a valer a partir de 2026. Com base em decisão do
STF que exige transparência total na execução das emendas — em reação ao
chamado orçamento secreto —, o TCE estabeleceu que a liberação desses recursos
dependerá de uma Certidão de Regularidade.
Sem essa certificação, estados e municípios podem
ficar impedidos de executar emendas parlamentares. Na prática, isso significa
risco direto para obras, investimentos e políticas públicas financiadas com
esses recursos.
Pressão por adequação
Os gestores públicos têm até o fim de 2025 para
corrigir as falhas e adaptar seus portais às exigências legais. O relatório
recomenda ajustes imediatos, tanto na estrutura das plataformas quanto na
qualidade das informações disponibilizadas.
O diagnóstico traça uma radiografia clara: há um
problema estrutural de transparência no uso das emendas parlamentares no Rio
Grande do Norte. Mais do que uma exigência legal, trata-se de um obstáculo ao
controle social.
Se o cenário não mudar, o impacto pode ser concreto.
Recursos podem deixar de ser executados não por falta de verba, mas pela
incapacidade de demonstrar, de forma clara, como e onde estão sendo aplicados.
Blog Bruno Araújo

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