Documentos obtidos pela Polícia Federal mostram que
o Banco Master conseguiu embutir um ágio de R$ 2,4 bilhões na venda de
carteiras para o Banco de Brasília (BRB) realizada entre julho de 2024 e
janeiro de 2025, estratégia usada para cobrir o rombo nas contas da instituição
de Daniel Vorcaro enquanto a proposta de venda ao banco público de Brasília não
havia sido formalizada.
Como revelou o Estadão no sábado, 18, diálogos
registrados no celular de Vorcaro citavam a necessidade de aportes do BRB para
cobrir o caixa do Master ao longo do ano de 2024 e indicaram que o banco não
teria dinheiro em caixa para honrar seus compromissos caso não recebesse
recursos do banco público de Brasília. A PF prendeu na última quinta-feira, 16,
o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, sob suspeita de ter recebido
propina para favorecer o Master. Procurada, a defesa do banqueiro não quis se
manifestar. O BRB também não se manifestou até a publicação desta reportagem.
A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal,
apura fraudes na fabricação de falsas carteiras de crédito consignado pelo
Master de janeiro a maio de 2025 e a venda desses ativos ao BRB, que pagou R$
12,2 bilhões por essas carteiras. Mas as tabelas e documentos apreendidos pela
PF mostram que o BRB também injetou ao menos R$ 8,4 bilhões no Master nos seis
meses anteriores, entre julho e dezembro de 2024.
Ainda não foram detectados indícios de que os ativos
vendidos nesse período também eram falsos, mas o ágio obtido pelo Master indica
que o banco público pode ter pago cifras maiores do que efetivamente valiam
essas carteiras. De acordo com as investigações da PF, foi a partir de janeiro
que o Master precisou fabricar carteiras falsas de crédito para continuar
recebendo pagamentos do BRB e manter o banco funcionando.
A PF extraiu dos celulares de diretores do Master
diversas tabelas com a contabilidade das operações realizadas com o BRB e que
explicam os valores envolvidos. Um desses documentos foi enviado por WhatsApp
pelo então superintendente executivo de tesouraria do banco, Alberto Félix, e
tinha o nome de “operacoes_BRB_29jjan”.
Procurada, a defesa de Alberto Félix afirmou que ele
não tinha poder de decisão no banco. “Alberto Félix, na qualidade de
funcionário de tesouraria, tinha, dentre outras incumbências, a de reportar aos
seus superiores as transações feitas do Banco Master não só com o BRB como com
outras instituições financeiras. Reforça ainda que nunca foi diretor e não
tinha poder decisório dentro do Banco Master e que, portanto, seus contatos com
funcionários do BRB eram tão somente para tratar de questões formais para
efetivar os instrumentos que haviam sido negociados por outras pessoas”, disse,
em nota, a advogada Maria Fernanda Ávila.
O documento trazia um balanço das operações com o
BRB de julho de 2024 até o final de janeiro de 2025. O controle interno do
Master registrou a venda de seis tipos diferentes de ativos para o BRB nesse
período: carteiras de crédito consignado, dois tipos diferentes de cédulas de
crédito bancário (CCB), certificados de depósito interbancário (CDI),
certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e créditos do Will Bank,
instituição à época vinculada ao Master.
O valor de contabilidade de todos esses ativos
vendidos pelo Master ao BRB era de R$ 7,5 bilhões. A tabela registrou que o Master
conseguiu vendê-los ao banco público de Brasília por R$ 9,9 bilhões, um ágio de
32% no negócio.
Isso significa que o banco de Vorcaro conseguiu
embutir um “lucro” de R$ 2,4 bilhões nessa operação. As tabelas registram que
algumas carteiras de crédito consignado vendidas ao BRB tiveram um ágio de até
93% na operação. Nesse caso mais extremo, o Master repassou uma carteira de
consignado com valor contábil de R$ 20,3 milhões por R$ 39,1 milhões.
Pelos registros dos celulares, Alberto Félix era um
dos funcionários do Master responsáveis por negociar com o BRB a cessão dos
ativos. Em 17 de julho, ele afirmou em um diálogo: “Estou em call com o brb.
(.) Estamos definindo o contrato de cessão aqui, pra poder formalizar”.
‘Depósito compulsório’
As conversas reveladas pelo Estadão mostram que o
Banco Master recorreu a aportes do BRB ao menos desde agosto de 2024 para poder
cobrir sua crise de liquidez. O anúncio da oferta de compra do Master pelo
banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal foi feito em março de
2025.
Em uma das conversas, Vorcaro afirma que precisaria
usar o “depósito compulsório” do Master para cobrir suas contas caso o BRB não
aportasse recursos no banco. O compulsório é uma espécie de poupança
obrigatória determinada pelo Banco Central para garantir a liquidez de um banco
e dar segurança ao sistema financeiro.
“Tem notícia do BRB? Se não vier vou ter que
devolver a grana de sexta e vamos usar compulsório hoje”, escreveu Vorcaro no
dia 2 de setembro de 2024. A mensagem foi enviada a Augusto Lima, que foi sócio
no Master. Ele respondeu que iria verificar a situação.
No dia seguinte, Vorcaro voltou a cobrar uma
definição: “Irmão, preciso saber se eles vão fazer ou não. Já tem 15 dias esse
negócio do ccb (Cédula de Crédito Bancário). Se for agarrar e não sair agora
preciso saber, depois te explico”. Augusto Lima respondeu: “Falei agora de
novo. Estão dizendo que fazem até quinta”.
Estadão

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