sexta-feira, 10 de abril de 2026

Fernando Schüler: Retomada da Ação do PT no STF é uma óbvia ameaça à delação de Vorcaro

 


Tom Jobim dizia que o Brasil não é um país para principiantes, mas até quem não é principiante tem dificuldade de entender ou compreender a que ponto nós chegamos, especialmente com uma decisão da semana, tomada pelo ministro Alexandre de Moraes, de descongelar uma ação do PT de cinco anos atrás, que na prática muda a regra, ou tem o potencial de mudança da regra das delações premiadas, exatamente às vésperas da delação do Daniel Vorcaro.

Fundamentalmente, a mudança potencial é no sentido de anular ou limitar os efeitos da delação de investigados que estão em prisão cautelar, que é exatamente o caso do Daniel Vorcaro, cujo potencial da sua delação é o envolvimento de ministros do próprio Supremo Tribunal Federal, pelos fatos óbvios que são sabidos: das viagens, dos jatinhos, das exportações, dos escritórios, da compra de cotas de resort, das viagens, enfim, de tudo que se sabe até agora em termos dessa relação entre Daniel Vorcaro e ministros do Supremo Tribunal Federal.

Obviamente, há uma preocupação com a delação. Há muitas incógnitas em relação a essa delação: se ela será homologada ou não, se Daniel Vorcaro terá incentivos para isso tudo ou não, se eventualmente uma investigação a partir da delação será encaminhada, se isto será autorizado pelo próprio Supremo Tribunal Federal, se será encaminhado pela Procuradoria Geral da República. As incógnitas são infinitas.

O que choca realmente o País é, nesse momento, descongelar essa ação que o PT apresentou em 2021, sendo que alguns meses atrás, a condenação da chamada trama golpista do ex-presidente Jair Bolsonaro e, enfim, de todas aquelas pessoas envolvidas, foi fundamentalmente feita com base numa delação premiada, feita pelo coronel Mauro Cid, que estava preso em prisão cautelar e ameaçado, pressionado com o processo sobre sua família, etc.

O que valia, eventualmente, alguns meses atrás, foi celebrado como algo fundamental para a nossa democracia e, eventualmente, agora pode deixar de valer, porque se a ação avançar e a modulação da decisão for nesta linha, e que agora nós precisamos aderir a um garantismo jurídico bastante sólido e consistente, enfim, para proteger os direitos de quem delata, para que ele não seja pressionado, para que ele não seja constrangido, para que a delação seja efetivamente necessária, porque senão ela pode ser anulada, seus efeitos, enfim, não considerados pontos da Justiça, assim por diante.

Temos uma espécie de garantismo de contexto, garantismo de circunstância, garantismo de ocasião, e isso é muito grave para o País, é muito grave. Mostra, primeiro, preocupação com a delação de Vorcaro, mostra uma certa autossuficiência, excesso de confiança, que a Justiça pode, a sociedade, no fundo, não está nem aí, não tem poder, as instituições não se movem, enfim, o Congresso não se move, a PGR não se move, a maioria do Supremo também não, então, bom, dá para ir levando isso, dá para descongelar uma ação de cinco anos atrás, às vésperas da eventual delação de Daniel Vorcaro.

Isso é muito preocupante para o País. É preciso ser observado a bem da transparência de um processo de novo. O Brasil não é para principiantes, mas agora nós estamos quase que passando do ponto.

Fernando Schüler - Estadão

 

 

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