Por maioria de votos – 17 a 1, a Câmara Municipal de
Natal (CMN) desaprovou o projeto de lei nº 29 da vereadora Brisa Bracchi (PT),
que tratava de medidas preventivas de conflitos urbanos, envolvendo inclusive
reassentamentos de moradores de rua, sem-teto.
A votação foi na quarta-feira (8) e o vereador
Matheus Faustino (União) posicionou-se contra a matéria, porque lidava,
“literalmente”, com a legalização das invasões em Natal: “Primeiro, tem uma
relativização do que é propriedade privada, fala direitos humanos da
coletividade, que deve ponderar em relação ao direito individual de
propriedade, ou seja, relativização direta do direito à propriedade”.
Além disso, afirmou Matheus Faustino, a proposta
“tirava qualquer competência administrativa da Prefeitura de retirar invasores
de locais que estão sendo invadidos”.
Para Faustino, “um dos piores artigos do projeto”,
proibia corte de luz e água nessas situações de invasão, ou seja, se alguém
deixa de pagar a conta da sua luz, no mês seguinte, vai ser cortado, mas se
invadir uma propriedade, fica isento de qualquer corte de luz ou de água”.
Faustino ainda criticou o projeto porque uma
exigência era a implementação de uma imunidade civil e criminal para os
invasores. “Na verdade, sequer deveria ter passado na Comissão de Justiça. Isso
aqui é garantido pela Constituição, quem pode legislar sobre isso é a Câmara
Federal”.
O vereador Subtenente Eliabe (PL) também votou
contra o projeto, que na sua avaliação, flexibilizaria e legalizaria as
invasões de imóveis em Natal. “Esse projeto tem uma narrativa de direitos
humanos, mas, na prática, ele cria uma série de barreiras a atuação ao poder
público.”, destacou.
Eliabe disse que o projeto do jeito que estava, era
um incentivo a invasões e ocupações, porque “passa a mensagem de que, uma vez o
imóvel invadido ou ocupado, o município terá dificuldades para agir e ainda
terá que garantir estrutura para que essas pessoas permaneçam no local”.
O vereador Eliabe presidiu a CEI das Invasões e
lembrou que na tomada de depoimentos chamou a atenção as declarações de Marcos
Antonio Bezerra, representante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e
Favelas (MLB): “Ele disse em alto e bom som, perguntado, o senhor já conseguiu
imóveis através do movimento? Ele disse, eu já consegui o meu imóvel. Aliás, eu
já consegui imóveis, mas eu continuo invadindo. Veja só a situação. Então, não
é por moradia, não é por moradia”.
Eliabe diz reconhecer a importância de uma pessoa
ter moradia. “Eu também já me vi nessa situação, vivendo de aluguel, sem ter
moradia. Eu sei que isso é realmente uma situação difícil, é dignidade quando
você consegue uma moradia. Agora, não pode-se pegar uma pauta justa, uma pauta
nobre, para, por trás disso, querer cometer ilegalidades e desrespeitar o
direito dos outros”, alertou.
Defesa
A vereadora Brisa Bracchi defendeu o projeto, que
instituía uma uma política pública para “garantir o mínimo de dignidade para as
pessoas que estão em situação de maior vulnerabilidade”.
Brisa Bracchi informou que há cinco anos existe no
Rio Grande do Norte um comitê de conflitos agrários, ou seja, “quando tem uma
ocupação de terra agrária, o comitê é acionado para fazer todo o processo de
acompanhamento da situação, seja a reintegração de posse, seja a necessidade de
desocupar, ou seja, manter aquela ocupação”.
No entanto, a vereadora admitiu que sua proposta não
tinha iniciativa de criar esse comitê, “porque seria uma invasão de
competências, mas estamos colocando diretrizes, que é, antes da reintegração de
posse, ter reunião com as pessoas que estão naquele espaço e os órgãos
competentes, a própria prefeitura, o Ministério Público, os defensores
públicos”.
O vereador Pedro Henrique (PP) disse que da
importância de discutir a função social dos espaços públicos, mas acha que no
projeto “sentiu a ausência de um marco temporal, acho que isso tiraria essa
situação de algumas pessoas defenderem que podem invadir e do ponto de vista
jurídico encontrei alguns vícios de iniciativa”.
Já o vereador Herberth Sena (PV) absteve-se de
votar, relatando que tinha dúvidas, inicialmente, a respeito da
responsabilização da Prefeitura de Natal sobre toda ocupação. “Todo movimento é
digno, a gente sabe que tem muitas pessoas que não têm onde morar, que muitas
vezes vai para a ocupação, mas eu também não entendo a responsabilidade que a
prefeitura tem que assumir para garantir essas moradias”, argumentou.
Pontos polêmicos
O projeto vedava o uso de medidas coercitivas que
possam tornar a área ocupada inabitável, proibindo especificamente, o corte de
serviços essenciais como água e luz como forma de pressão para desocupação.
A realização de despejos em períodos de mau tempo, à
noite, fins de semana ou feriados religiosos da comunidade afetada
O projeto criava uma série de pré-requisitos para
que uma remoção “inevitável” aconteça, o que pode ser visto como um entrave
burocrático e financeiro para a gestão urbana.
O Município deveria elaborar um plano prévio de
remoção com a participação dos atingidos. Os despejos e deslocamentos forçados
dos grupos que demandassem proteção, implicariam em violações dos direitos
humanos, a não ser que ocorressem por medida judicial e jamais por decisão
meramente administrativa.
Já o novo local de reassentamento deveria estar com
toda a infraestrutura pronta (casas, água, luz, esgoto e escolas) antes que a
remoção ocorra.

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