Felipe Salustino
Repórter
O número de unidades bancárias no Rio Grande do
Norte caiu de 208 em 2015 para 162 em 2025, o que representa uma redução de
22,11%, de acordo com um levantamento elaborado pelo Sindicato dos Bancários de
São Paulo. A falta de agências no RN afeta 899.858 potiguares, ou 27,4% da
população total. São 138 cidades no estado sem atendimento bancário presencial.
Apesar do alto número, a maior parte da população potiguar (2,4 milhões de
pessoas) conta com serviços presenciais de bancos, uma vez que as agências em
atividade se concentram em 38 municípios com maior contingente populacional. Em
todo o País, a quantidade de unidades caiu 37% em uma década.
No período, Natal foi a cidade do RN que perdeu mais
agências: de 82 em 2015, passou a 58 no ano passado, resultando em um
fechamento de 24 unidades. Mossoró foi a segunda que mais perdeu, com quatro
agências a menos no período de dez anos (eram 16 em 2015 e em 2025 eram 12). No
mesmo recorte, 10 municípios, que em 2015 contavam com atendimento bancário presencial,
ficaram sem o serviço porque contavam com apenas uma agência, cujas atividades
foram encerradas ao longo da década. São eles: Ipanguaçu, Jardim de Piranhas,
Santana do Matos, Governador Dix-Sept Rosado, São José do Campestre, Afonso
Bezerra, Acari, Florânia, Martins e Pedro Avelino. Somada, a população que
deixou de ter acesso a atendimento presencial no período é de 109,6 mil
habitantes.
Alexandre Cândido, coordenador geral do Sindicato
dos Bancários do Rio Grande do Norte, explica que as causas para o fechamento
das agências no estado estão relacionadas essencialmente a fatores como redução
de custos e informatização ou mecanização dos bancos, o que teria se acelerado
com a pandemia de covid-19. O fechamento das unidades, segundo ele, provoca impactos
diversos, como a precarização dos serviços e a falta de assistência a parte da
população.
“A gente pode citar como exemplo de desassistência o
caso de São Paulo do Potengi [no Agreste do RN]. Por lá, o Bradesco encerrou as
atividades em 2024 e os cerca de 3 mil clientes da cidade e de municípios
vizinhos passaram a ser atendidos em Macaíba, na Caixa Econômica. Isso provocou
muitos transtornos, porque foi um período, para a Caixa, de renovação de cartão
de clientes e pagamento de programas sociais como o Pé de Meia. Na época,
chegou a ser registrado por volta de 150 atendimentos por dia na agência”,
relembra Cândido.
“A Prefeitura, junto com o banco, improvisou uma
sala para atendimentos, mas ainda assim não era possível dar conta da demanda.
E, claro, houve muitos transtornos para os clientes de São Paulo do Potengi e
entorno, os quais passaram a andar aproximadamente 40 quilômetros, com despesas
com lotação, para chegar a uma agência”, descreve o coordenador do Sindicato
dos Bancários do RN.
Ele explica também que, em cidades de menor porte, a
saída de uma agência bancária provoca reflexos na economia local, uma vez que
os clientes costumam deixar parte do dinheiro sacado nos municípios onde
realizam as operações de retirada. “Outro ponto é que o dinheiro físico em
circulação naquela área não encontra um banco para absorvê-lo e acaba indo para
as agências de loteria e correspondentes bancários. A repercussão, em situações
como esta, é sempre muito grande”, fala Alexandre Cândido.
Menos empregos no setor bancário
Com o fechamento das agências, um dos efeitos que
mais preocupam o setor é a perda de vagas de emprego e a precarização das
condições de trabalho nas unidades que se mantêm em funcionamento. Os dados do
Sindicato dos Bancários de São Paulo mostram que o segmento fechou 2025 com
saldo negativo de postos em todos os estados. No Rio Grande do Norte, foram 60
vagas a menos. Alexandre Cândido, que coordena o Sindicato dos Bancários do RN,
disse que, além da retirada das agências físicas, as instituições bancárias têm
reduzido os quadro de colaboradores nas unidades onde o atendimento presencial
é mantido.
“O que temos hoje é o seguinte: as metas crescem e a
quantidade de trabalhador diminui. O impacto disso é o adoecimento mental”,
fala. A disparada de golpes virtuais também é um efeito da migração das
agências físicas para os serviços digitais, na avaliação de Cândido.
“Percebe-se que nos últimos anos não se ouve mais falar de assaltos a bancos.
Essas ações foram substituídas, basicamente, pelo phishing, tipo de roubo
virtual em que são usados robôs e toda uma parafernália para ‘pescar’ dinheiro.
No primeiro semestre do ano passado, os crimes digitais aumentaram 300% no Brasil
em comparação com igual período do ano anterior”, aponta Cândido.
Segundo ele, o processo de digitalização dos bancos,
um dos fatores responsáveis pelo encolhimento no número de agências físicas em
todo o País, se intensificou com a chegada da pandemia em 2020, porque os
usuários foram “forçados” a utilizar os serviços disponibilizados apenas nos
aplicativos das instituições em razão do isolamento social. De acordo com o
levantamento do Sindicato dos Bancários de São Paulo, em 2019, um ano antes da
pandemia, o número de agências bancárias no RN havia reduzido 8,6% desde 2015,
saindo de 208 para 190 (18 unidades fechadas no período).
Entre 2019 e 2025, a redução foi de 14,7%, com 28
agências encerradas. Esse processo, de acordo com Cândido, teria se acelerado
com a chamada segunda fase de mecanização dos bancos, que alcançou sucesso
definitivo com a chegada da crise sanitária. “A primeira mecanização ocorreu
com os caixas de autoatendimento, instalados para garantir mais comodidade e
fazer com que o cliente perca menos tempo na agência. Depois, veio o lançamento
dos aplicativos, na segunda fase de mecanização, sem muito sucesso de início”,
descreve o coordenador do sindicato.
Apenas nos últimos anos, com o avanço dos serviços
de internet e melhorias na segurança dos programas, essa mecanização começou a
andar e seguiu a passos largos com a pandemia, quando o cliente foi forçado a
aderir a um sistema digitalizado para ter acesso aos serviços bancários. Hoje,
essa adesão ocorre também por causa do avanço facilitado ao ambiente digital,
uma vez que cerca de 70% dos brasileiros usam internet fixa, em casa ou no
trabalho, principalmente”, explica Alexandre.
Procurada para comentar o assunto, a Federação
Brasileira de Bancos (Febraban) apontou que o encerramento das atividades
bancárias presenciais é próprio da política de negócios de cada banco e que os
canais digitais são uma alternativa prática e segura aos clientes, oferecendo
praticamente a totalidade das transações financeiras do sistema bancário.
“Os bancos estão se adequando à nova realidade do
mercado, em que a utilização dos canais digitais de atendimento ganha espaço em
detrimento dos canais físicos e presenciais, refletindo o novo perfil do
consumidor, que encontra conveniência, comodidade, segurança e rapidez nos
meios eletrônicos”, respondeu a Febraban.
País tem 6,9 milhões de pessoas sem
agências
Conforme o levantamento do Sindicato dos Bancários
de São Paulo, 638 municípios em todo o País ficaram sem qualquer agência
bancária desde 2015, deixando cerca de 6,9 milhões de pessoas desassistidas. Em
dez anos, o número de unidades presenciais caiu de 22,7 mil para 14,23 mil,
redução de 37% Atualmente, 2.649 cidades brasileiras, o equivalente a 48% do
total, não contam com atendimento presencial.
Em termos populacionais, isso afeta 19,7 milhões de
brasileiros, ou 9% da população nacional. O processo se intensificou nos
últimos anos, impulsionado pela busca por lucros cada vez maiores no setor
financeiro, de acordo com Alexandre Cândido, presidente do Sindicato dos
bancários no RN. Ao todo, quase 6 mil agências tradicionais foram fechadas,
enquanto os bancos passaram a investir em atendimento remoto e em unidades
voltadas a públicos de maior poder aquisitivo.
Os impactos efetivos dessa retração são sentidas em
algumas unidades que seguem em funcionamento. O cliente Elizeu Teixeira, de 46
anos, utiliza a agência da Caixa Econômica da Avenida Tomaz Landim, na zona
Norte de Natal, por ser morador de bairro Igapó, localidade onde o serviço está
instalado. A unidade estava lotada na manhã da sexta-feira (27). Segundo
Elizeu, o cenário é sempre de superlotação na agência.
“Se tivesse mais agências na região, creio que isso
não aconteceria. Embora em um raio de mais ou menos três quilômetros tenha
outra agência, em São Gonçalo do Amarante, uma unidade próxima fechou, então, a
demanda aumentou bastante por aqui. Felizmente, como vim para o
autoatendimento, não perdi muito tempo hoje, mas isso nem sempre acontece”,
relatou Elizeu ao deixar a agência localizada na Avenida Tomaz Landim.

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