Documentos do Banco Master revelam que o Fabiano
Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, como o único dono da Super Empreendimentos,
empresa investigada pela Polícia Federal como responsável pelo pagamento da
suposta milícia privada do banqueiro. A informação consta em um relatório de
liberação de crédito, de fevereiro de 2024, obtido pela coluna.
Zettel era diretor da Super Empreendimentos e as
quebras de seus sigilos fiscal e bancário, analisadas pela CPI do Crime
Organizado, mostraram que ele declarou à Receita Federal que recebeu mais de R$
190 milhões de lucros e dividendos no período de 2023 a 2024, de acordo com o
G1.
Todo o montante foi originário do Fundo de
Investimento em Participações Kairós, que entre 2020 até agosto de 2024 (dado
mais recente) investia 100% de sua carteira em ações da Super Empreendimentos.
Essas informações já eram conhecidas, assim como que o FIP Kairós tinha um
único cotista, pessoa física. Faltava saber quem era esse único cotista.
A resposta vem do próprio Master, que, ao analisar
pedido de renovação de uma Conta Garantida no valor de R$ 15 milhões, desenhou
o organograma financeiro da Super Empreendimentos (vide abaixo) colocando
Fabiano Zettel, com 14.017.609,8872 cotas, como dono de 100% da Kairós, que por
sua vez era apontada como dona de 100% das ações da Super. A “fonte” era a
própria Super.
A análise de crédito considerava que “nada constava”
contra Zettel da parte do compliance e deixava de citar o fato de o empresário
ser cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do banco. Antes de aprovar o
financiamento, o Master também analisou as dívidas da Super e do próprio Zettel
no sistema bancário. Como pessoa física, em novembro de 2023, ele devia R$ 5,9
milhões, sendo 1,255 milhão em cartão de crédito e R$ 310 mil no cheque
especial.
Assinado pelo especialista de crédito Flávio Perez,
o parecer apontou rating “B” para o cliente e para a operação e opinou como
fator positivo o “positivo histórico de relacionamento com o Master’. O
especialista também destacou que, em 2022, no último dado contábil disponível,
a Super tinha ativo total de R$ 857 milhões, com patrimônio líquido de R$ 451
milhões e disponibilidades líquidas de R$ 380 milhões.
Na época, a Super detinha participação de de 50% na
empresa responsável pela academia Les Cinq Gym, tratada como a academia mais
cara de São Paulo, e 20% ” da Hípica Chevals, localizada em Nova Lima (MG).
“Além disso a Super Empreendimentos detém cerca de R$ 1 bilhão em investimentos
diversificados, como direitos creditórios e aplicações fundos de
investimentos”, continuou o parecer.
Após o crédito ser aprovado, a Super registrou na
Junta Comercial de São Paulo uma mudança societária que havia sido aprovada em
dezembro de 2023, dois meses antes. Na ocasião, a companhia, que tinha R$ 27
milhões de capital – apesar de R$ 857 milhões em patrimônio líquido – teve o
montante aumentado para R$ 1,285 bilhão, a partir da entrada de um novo
acionista, o fundo Termopilas.
Administrado pela Reag, o Termopilas tinha como
único cotista do Astralo 95, agora atribuído a Vorcaro. Na prática, o banqueiro
se tornou o principal investidor da Super. Zettel deixou o cargo de presidente
em julho de 2024. Leonardo Augusto Furtado Palhares, que o substituiu,
renunciou no início deste mês.
Procurada, a defesa de Zettel não comentou.
Empresa pagou mansões, obras de arte e “A Turma”
A Super Empreendimentos tem papel central entre as
dezenas de ramificações de negócios da família Vorcaro. Na representação que
embasou a prisão do banqueiro no início do mês, a PF citou que a Super foi
utilizada para lavar dinheiro.
Também era a partir da Super que aconteciam os
pagamentos mensais para a “Turma”, que segundo a PF era a “estrutura utilizada
para realizar atividades de monitoramento e coleta de informações de interesse
do grupo investigado, bem como pela prática de atos de coação e intimidação de
pessoas que seriam vistas por Vorcaro como capazes de prejudicar a organização
criminosa”. A empresa era intermediária no pagamento dos dois então servidores
do Banco Central: Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza.
No caso do Sicário, sempre de acordo com a PF, o
dinheiro saía da Super e chegava em empresas de Luiz Phillipi Machado de Moraes
Mourão, o Sicário, líder da “Turma“, que tirou a própria vida na carceragem da
Polícia Federal em Belo Horizonte (MG) depois de ser preso na terceira fase da
Operação Compliance Zero. Ele teria recebido R$ 24 milhões de Vorcaro.
Como mostrou a coluna, a Super também era utilizada
pelo banqueiro para comprar compras de arte. Em maio do ano passado, foi para a
empresa que a galeria Simões de Assis emitiu um boleto de R$ 14,7 milhões pela
negociação de quatro obras, sendo duas do venezuelano Carlos Cruz-Diez. Também
foi a Super que pagou R$ 165 milhões a uma galeria paulistana pela compra de
obras de arte, como revelou o Metrópoles.
Documentos apresentados ao Tribunal de Justiça de
São Paulo pelo liquidante do Master mostram que também estão no nome da Super
Empreendimentos uma mansão avaliada em R$ 36 milhões no Lago Sul em Brasília,
um duplex no Jardim Paulista, em São Paulo, comprado por R$ 30 milhões – imóvel
que Vorcaro chegou à oferecer à modelo Izabel Goulart, sua então namorada -,
além de diversos imóveis em Belo Horizonte.
Também já pertenceu à empresa o apartamento na Vila
Nova Conceição, em São Paulo, doado a uma mulher apontada como amante de
Zettel. Esses bens estão entre os que o liquidante do Master tenta recuperar.
Demetrio Vecchioli - Metópoles

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